SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Se eu tivesse que adivinhar, chutaria que você, que está lendo, vive em uma cidade. Se olharmos para o planeta inteiro, oito a cada dez pessoas vivem em grandes centros urbanos, cidades menores ou vilarejos. No Brasil, são quase nove a cada dez.

Você já deve ter ouvido falar que, lá atrás, num passado mais antigo do que a avó da avó da sua tataravó, as pessoas viviam em pequenos grupos que andavam por aí caçando animais e colhendo plantas. Com o tempo, a tendência foi de a maioria parar quieta e começar a plantar e criar animais. Mas o que levou essas pequenas comunidades a se transformais nas cidades que conhecemos hoje?

POR QUE MORAMOS EM CIDADES?

O Alex Sartori e a Erminia Maricato são urbanistas, ou seja, especialistas em pensar em como as cidades são e podem funcionar. A reportagem conversou com os dois e ouviu a mesma coisa: a origem da cidade está no mercado.

"As cidades reúnem as pessoas. Fica mais fácil resolver as coisas que dependem dos outros se a gente estiver morando todo mundo perto", diz Sartori.

Enquanto as pessoas conseguiam viver com o que elas mesmas faziam, dava para morar sozinho. Mas como o mundo foi ficando mais complicado, passou a fazer mais sentido dividir as tarefas. Eu planto arroz, você planta feijão e o Joãozinho descola o frango.

Nesse novo cenário, a gente pode até morar separado, mas precisa de um lugar para ir trocar nossas coisas. É aí que as pessoas começam a se reunir umas com as outras. "Se você morar no campo, você vai produzir alguma coisa e levar para a cidade, onde vai poder vender e comprar outras coisas."

E ENTÃO AS COISAS FICAM MAIS COMPLICADAS

Há pouco mais de cem anos, só um a cada dez brasileiros morava em cidades. E hoje, quase todo mundo mora nelas. O que aconteceu nesse meio-tempo? Surgiram as indústrias, diz Maricato. Antes, o país vivia com o dinheiro da colheita das plantações, então as pessoas não precisavam estar sempre nos mesmos lugares. As fábricas mudaram tudo.

Se antes uma pessoa ou um pequeno grupo ganhava dinheiro vendendo um produto que produzia do começo ao fim, com o tempo, cada vez mais pessoas passaram a trabalhar juntas em uma mesma fábrica para construir uma única coisa. E aí os produtos foram ficando mais complicados, e até isso deixou de ser verdade.

Hoje, um único produto tem sua produção dispersa por toda uma rede de fábricas. Pegue um carro, por exemplo: há lugares que só fazem os vidros, outros que cuidam da lataria, outros que fazem a parte elétrica e por aí vai. No fim, ainda tem uma montadora, que junta todos esses pedaços.

E existem vantagens em juntar as fábricas que fazem cada uma dessas partes em um mesmo lugar. Basta pensar na questão da energia. Se cada indústria estivesse em um canto, seria preciso garantir que a eletricidade chegasse a cada uma delas, o que daria bastante trabalho. Fica muito mais fácil quando estão todas juntas.

Foram as fábricas, em grande parte, que fizeram as cidades começarem a crescer até se tornarem o que são hoje.

QUEM DECIDE COMO SERÁ A CIDADE?

As pessoas começaram a se juntar cada vez mais para dividir o trabalho, e isso está por trás do surgimento das cidades. Mas como a cidade... vira cidade? Quem decide o que é feito em cada canto dela e como?

Toda cidade é chefiada por políticos (prefeitos e vereadores), que são escolhidas pelo povo por votação. Junto a eles, há vários funcionários cujo trabalho é fazer as coisas funcionarem. Tudo o que afeta a cidade é decidido por essas pessoas. Se a cidade precisa de mais ônibus, escolas ou hospitais, isso passapor eles. Se alguém quer construir um prédio novo em algum lugar, também.

Mas essa é a parte oficial da história, que não acaba aí. Qualquer pessoa pode tentar influenciar como as coisas funcionam na cidade. Você também vai poder, quando tiver mais idade. Só que uma pessoa sozinha tem menos capacidade de mudar uma decisão do que várias juntas. E as empresas, que têm muito dinheiro, acabam tendo bastante influência.

"De forma geral, todos nós somos uma força para produzir e organizar as cidades. O que muda é o poder que cada um de nós tem", afirma Sartori.

E nem tudo acontece como a lei manda. Nas favelas, por exemplo, muitas pessoas construíram suas casas, ao longo do tempo, por conta própria e sem autorização da prefeitura. Às vezes, elas até pagaram por aquele espaço, mas não por vias oficiais. Isso também é a cidade sendo construída.

E há o crime organizado: pessoas que se juntam para quebrar leis. Essas pessoas às vezes ocupam regiões da cidade e tomam decisões que, em teoria, deveriam ser dos políticos.

VIVEMOS JUNTOS, MAS NEM TODO MUNDO VIVE BEM

Vimos que as cidades surgem para facilitar a vida de todo mundo, mas com elas vêm uma série de problemas novos. Os dois especialistas ouvidos pela reportagem concordam que os principais têm a ver com onde e como as pessoas moram.

"Para mim, o principal problema urbano do Brasil hoje é a habitação", diz Sartori. Por um lado, ele diz, há pessoas que não têm onde morar ou moram em más condições. Por outro, existe a questão de onde ficam as casas.

Se as pessoas não conseguem morar perto do trabalho, por exemplo, elas precisam ir até onde há serviço. E isso também vale para hospitais, escolas, cinemas e teatros, parques e tudo mais. Daí surgem o trânsito, os ônibus e metrôs abarrotados, etc.

Maricato concorda. "A maioria dos cidadãos tem uma condição ruim de moradia, sem água tratada, sem esgoto nem coleta de lixo, num lugar que com transporte e iluminação pública ruins e tal."

O AQUECIMENTO GLOBAL VAI MUDAR O JEITO DE VIVER NAS CIDADES?

Outra questão séria é a das mudanças climáticas. A temperatura do mundo está aumentando, em grande parte por causa da poluição humana. Isso faz com que problemas que já existiam, como enchentes e secas, piorem. Por isso, Sartori não gosta de chamar essas coisas de desastres naturais.

"Uma coisa é ter um morro. O desastre é que a gente colocou alguém para morar no morro. É a mesma coisa que a gente fez com relação aos nossos rios, por exemplo. Ocupamos um espaço que eles já ocupavam. Enquanto a gente não estava ocupando aquele espaço, eles alagavam, mudavam o percurso do rio, e tudo bem."

Com as mudanças climáticas, ele diz, esses problemas pioram ainda mais.

MAS NEM TUDO ESTÁ PERDIDO

O urbanista contou para a reportagem que, ao redor do mundo, as pessoas têm criado formas de enfrentar todas essas questões. No Brasil também.

Um exemplo é Curitiba, no Paraná, uma das primeiras cidades-esponja do mundo ?que utilizam espaços com plantas e árvores para absorver a água da chuva e evitar alagamentos, modelo que vem sendo bastante estudado na China e nos Estados Unidos.

Curitiba também é conhecida por ter um ótimo BRT, um tipo de corredor de ônibus que faz com que eles funcione quase como um metrô a céu aberto.

Ao lado dessas inovações, é claro, existe o esforço político para fazer as coisas funcionarem. Como lembra Maricato, não faltam leis; falta que elas saiam do papel.