SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Treinamentos da Polícia Militar com tiros e bombas de efeito moral ou de gás lacrimogêneo realizados dentro do antigo parque industrial da cervejaria Antarctica, na zona leste de São Paulo, têm levado pânico a moradores que vivem ao redor do local.

A fábrica fica na Mooca, está abandonada há décadas e se tornou palco de operações simuladas da PM há pelo menos um ano e meio.

Nota enviada pela Secretaria de Segurança Pública estadual confirma a realização dos treinamentos no local e diz que os materiais e equipamentos utilizados não oferecerem risco para a saúde da população.

"A Polícia Militar lamenta o ocorrido e informa que irá reavaliar os procedimentos adotados nas ações de treinamento, bem como aprimorar a comunicação prévia desses eventos à população do entorno", diz o texto. "A PM reafirma seu compromisso com a segurança da sociedade e ressalta que a Corregedoria permanece à disposição para receber eventuais denúncias, reclamações ou pedidos de esclarecimento relacionados ao fato."

O barulho dos tiros ou bombas entrou na rotina de quem vive no bairro, segundo relataram moradores à reportagem.

Não há horário para que isso aconteça. Na maioria das vezes os disparos acontecem durante o dia. Mas há situações em que isso ocorre também durante a madrugada.

"Não sei se é um treinamento legal, autorizado, porque não tem hora para acontecer. Já ouvi bombas e tiros às duas horas da manhã, algo totalmente inaceitável", disse Flávio Gabriel Leandro Soares, 34, morador de um prédio ao lado.

Ele estava estudando quando vieram os barulhos. "Achei que fosse alguma operação, que estavam pegando algum bandido, mas era só arruaça", afirma.

Soares trabalha em regime de home office, no setor de atendimento em saúde, e diz que a situação foi motivo de constrangimento em mais de uma ocasião.

Já houve casos, por exemplo, em que um cliente que atendia perguntou se ele morava no Rio de Janeiro "porque é barulho de tiro, mesmo, barulho de bomba explodindo a todo momento" ?em 2018, pesquisa Datafolha mostrou que 1 em cada 3 cariocas já ficou no meio de um confronto armado.

Soares também já ouviu perguntas sobre se estava com alguma televisão ligada, por exemplo.

Ele teme que a situação prejudique o seu trabalho. "Existem setores de qualidade que acompanham os atendimentos que fazemos e avaliam se apresentamos um bom desempenho com os clientes".

No condomínio onde mora, as reclamações por causa dos estrondos são generalizadas. Elas afetam tanto quem vive sozinho como aqueles que dividem casa com a família ou animais de estimação.

Há cachorros, por exemplo, que passam horas a fio latindo em razão dos disparos. Outros, por sua vez, sentem medo, ficam trêmulos e buscam se esconder.

Crianças também são afetadas.

Natália Alves, 39, mora em um dos residenciais ao lado da antiga fábrica e vive momentos de pânico toda vez que tiros são disparados ?o que na semana passada ocorreu todos os dias, segundo ela.

"O barulho é ensurdecedor", afirma.

Ela é mãe de duas filhas, ambas ainda bebês, que se assustam e choram com os estrondos.

Uma delas tem microcefalia e "o barulho deixa ela muito desorganizada, sendo que já temos dificuldades para estabilizá-la e colocá-la para dormir".

"Não tem horário. Esses dias estavam treinando de madrugada, às 3h, e ela ficou toda assustada. Começa a gritar, a chorar e a se morder sempre que isso ocorre", disse Natália.

A situação se repetiu no último sábado (28), quando o estrondo de bombas e tiros marcaram a manhã de quem mora na região do antigo parque industrial.

Natália chegou a ligar para o 190 da Polícia Militar e recebeu, segundo ela, a orientação para telefonar à Corregedoria da corporação. "Aí o comandante me orientou a ir até lá. Como eu vou fazer isso?", afirma.

O prédio pertenceu à Antarctica durante anos, é tombado e foi vendido à Prevent Senior em meados de 2019.

A operadora de planos de saúde planejava construir um amplo centro de tratamento médico no local, mas o projeto nunca foi adiante.

A reportagem procurou a empresa na manhã desta segunda-feira (30) para perguntar se já há uma destinação planejada para a área ou se existe algum acordo com a PM para os treinamentos no local. Não houve resposta até a publicação deste texto.

O uso do antigo parque fabril como local de treinamento da PM não é novidade.

Um vídeo de dezembro de 2024 publicado por um perfil na rede social Kwai mostra um agente da corporação dentro do terreno atirando com um lança-granadas para cima.

Logo após o disparo, uma voz aparece aos fundos dizendo "nossa, [foi] lá no prédio [...] puta que o pariu, velho". O policial dá meia volta e outros agentes riem da situação.

Segundo moradores, o gás lacrimogêneo oriundo das bombas chega à janela de apartamentos e muitas vezes até a porta da estação de trem da Mooca, que fica logo ao lado.