SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - A primeira viagem humana ao espaço profundo em mais de 53 anos está se tornando realidade. A Nasa está em preparação para a primeira tentativa de lançamento da missão Artemis 2, que levará um quarteto de astronautas em uma jornada além da Lua e de volta à Terra em pouco menos de dez dias.
Até o domingo (29), todos os sistemas (foguete, espaçonave e plataforma) estavam com luz verde para o lançamento, e a previsão do tempo para 1º de abril, data marcada para a tentativa, indica 80% de chance de boas condições para o lançamento do foguete SLS e da cápsula Orion em sua aventura lunar. A janela de duas horas se abre às 19h24 (de Brasília, uma hora a menos na Flórida).
A histórica missão será conduzida pelo comandante Reid Wiseman, o piloto Victor Glover e os especialistas de missão Christina Koch e Jeremy Hansen. Os três primeiros são americanos, e o quarto é canadense, mostrando que os atritos recentes entre Estados Unidos e Canadá, ao menos por ora, não se estendem além da atmosfera terrestre. Será a primeira vez que um não americano deixa a órbita do planeta rumo às imediações da Lua.
Antes, somente os astronautas do antigo programa Apollo fizeram semelhante missão. Entre 1968 e 1972, foram nove jornadas do tipo, com seis alunissagens, em que tripulantes puderam caminhar sobre o solo lunar. Eram todos homens, brancos e americanos. O fato de que a tripulação agora inclui a primeira mulher e o primeiro negro, goste ou não o atual governo dos EUA, é um sinal de que os tempos mudaram.
A tripulação da Artemis 2, claro, minimiza o fato. Todos estão cientes de que inspirarão as próximas gerações de exploradores e repetem diversas vezes que estão deixando a Terra "para todos", mas é palpável que a missão começou a se tornar realidade para eles quando chegaram ao Centro Espacial Kennedy, na sexta (27), para os últimos preparativos antes do voo.
UM FOGUETE TEMPERAMENTAL
O SLS, lançador de alta capacidade desenvolvido pela Nasa com base em tecnologias dos antigos ônibus espaciais, até agora só fez um voo, em 2022. É tempo suficiente para que todos os envolvidos sintam que estão preparando seu lançamento pela primeira vez pela segunda vez, se é que se pode entender isso.
Por um lado, o lançamento anterior, na missão não tripulada Artemis 1, foi um sucesso absoluto. Por outro, ele mostrou ser um foguete temperamental. Lidar com hidrogênio líquido como propelente é complexo. As moléculas são muito leves, escapam com facilidade, e vazamentos são comuns. Eles dificultaram um bocado as operações de abastecimento antes do voo de 2022, e não é impossível que voltem a aparecer agora.
Com efeito, a Nasa pretendia realizar esse voo em fevereiro, mas vazamentos de hidrogênio (e depois de hélio pressurizante) levaram a agência a tirar o foguete da plataforma, efetuar os reparos e só então devolvê-lo à plataforma 39B (histórico sítio em Cabo Canaveral de onde partiram missões Apollo e do ônibus espacial).
Para minimizar surpresas, os engenheiros optaram por não realizar um novo ensaio molhado (em que o foguete é totalmente abastecido e levado até o final de uma contagem regressiva simulada) após os reparos, optando em vez disso por já realizar o abastecimento "para valer". Se conseguirem encher os tanques dos dois estágios sem problemas de vazamento no dia 1º, vão direto para a decolagem.
Não há garantias. Por isso, a agência conta com uma janela de lançamento que vai até o dia 6. Se algo entrar no caminho no dia 1º, é possível repetir a tentativa a cada 24 h ou 48 h, totalizando quatro oportunidades para voo. Se ainda assim não for possível decolar, a Artemis 2 ficará para a próxima janela, que se abre no fim do mês.
Os períodos em que o lançamento é possível são restritos por escolhas feitas pelos gerentes da missão para o posicionamento e iluminação ideais da Lua durante o encontro com a cápsula Orion.
PASSANDO A LUA E MEIA VOLTA PARA A TERRA
A Artemis 2 fará o que os engenheiros espaciais chamam de trajetória de voo livre. O que isso significa? Uma vez que realizem a injeção translunar (o último empurrão para colocar a Orion na direção da Lua), ela estará num caminho em que a gravidade lunar e terrestre combinada fará com que ela volte à Terra sozinha cerca de nove dias depois.
Isso exclui a possibilidade de se estabelecer numa órbita ao redor da Lua. A nave fará apenas um sobrevoo lunar, passando a cerca de 7.500 km da superfície ?o valor exato depende do dia do lançamento e de particularidades do voo?, antes de iniciar sozinha, por gravidade, a viagem de volta à Terra.
É bem diferente da experiência dos astronautas da Apollo que, após a inserção orbital lunar, trafegavam a distâncias que variavam a 110 a 200 km de altitude. Desta vez, quando os astronautas olharem pela janela a Lua, a verão mais ou menos do tamanho de uma bola de basquete segurada com o braço esticado.
Trata-se essencialmente de uma missão de teste dos sistemas ?é a primeira vez que a Orion voará com tripulação?, então ciência não será uma prioridade no voo. O principal desafio virá no primeiro dia, com as manobras que aumentarão a órbita da cápsula a um apogeu de 73,6 mil km, seguidas pela separação entre ela e o segundo estágio do SLS, que contará com exercícios de pilotagem manual de aproximação e afastamento entre os dois veículos, antes que a Orion use sua própria propulsão para a injeção translunar.
A segurança dos astronautas está acima de tudo e, para isso, a Nasa tem planos de retorno antecipado em praticamente todos os pontos possíveis da missão. "Nossos trajes podem nos manter vivos por até seis dias, então a ideia é que, em caso de emergência, tenhamos a opção de iniciar um retorno antecipado que nos traga de volta em menos de seis dias", explicou a astronauta Christina Koch, em entrevista realizada no sábado (28). Isso inclui opções até mesmo após a injeção translunar, abortando o contorno da Lua.
Caso tudo corra bem, a ciência da missão virá principalmente de observações dos astronautas feitas do hemisfério afastado da Lua. Ele está permanentemente virado de costas para a Terra, de modo que só quem vai além da Lua pode vê-lo. Os astronautas da Apollo sobrevoaram frequentemente o lado afastado, mas principalmente sob a escuridão da noite, de modo que cerca de 60% da superfície por lá jamais foi observada por olhos humanos. O quarteto a bordo da Orion poderá ter esse privilégio, tirar fotos e anotar suas observações para os cientistas.
Eles também levarão amostras de tecidos humanos para investigar com mais detalhes o efeito da radiação sobre o corpo, uma vez que, deixando a órbita da Terra, estarão mais expostos a raios cósmicos e radiação solar do que os astronautas que nunca vão muito além dos 400 km de distância, na Estação Espacial Internacional (ISS). Mas não haverá participação ativa dos astronatuas em grandes experimentos científicos a bordo. O principal objetivo será pavimentar o caminho para as próximas missões.
Pelo novo cronograma da Nasa, o programa Artemis terá uma terceira missão no ano que vem para testes do sistema de pouso lunar, mas feitos todos em órbita terrestre (à moda da Apollo 9).
A Artemis 4, em 2028, deverá conduzir a primeira alunissagem tripulada do programa. Contudo, há muitas dúvidas se essa programação é factível, dado que não há nesse momento perspectiva de que os sistemas de pouso (desenvolvidos pelas empresas Blue Origin e SpaceX) vão estar prontos.
O objetivo de médio prazo é estabelecer uma base tripulada no polo sul lunar ?mesma meta da China, que planeja seu primeiro envio de astronautas à superfície da Lua antes de 2030.
