SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - A Polícia Civil de Mato Grosso realizou nesta terça-feira (31) uma operação contra suspeitos de integrarem o CV (Comando Vermelho) no estado e exercerem controle territorial em um condomínio de habitação social em Várzea Grande, na Grande Cuiabá. Ao todo, foram cumpridos 13 mandados de prisão preventiva e sete de busca e apreensão por ordem da Justiça. O homem apontado como líder do grupo foi preso na cidade de São Paulo.

A operação foi denominada Ruptura CPX em referência a dinâmicas de controle territorial exercidas pelo CV no Complexo do Alemão, no Rio, conhecido por essa sigla.

Segundo o delegado Antenor Junior Pimentel Marcondes, da Delegacia de Repressão ao Crime Organizado (Draco) de Mato Grosso, a facção buscava consolidar influência sobre o conjunto habitacional, um empreendimento com 576 unidades cuja obra está paralisada desde 2016.

Ao longo dos anos, os imóveis passaram a ser ocupados e hoje apresentam condições precárias, sem infraestrutura básica, como rede de água e esgoto. Na semana passada, a Prefeitura de Várzea Grande anunciou a retomada das obras após articulações com o Governo de Mato Grosso, o governo federal, a Caixa Econômica Federal e o Ministério Público.

"O que identificamos foi uma tentativa clara de domínio territorial. Havia divisão por áreas, pessoas responsáveis por cada setor e regras internas que precisavam ser seguidas", afirmou o delegado.

De acordo com as investigações iniciadas em 2024, integrantes da facção tinham preferência para ocupar o residencial e bairros do entorno. A estrutura funcionava de forma hierarquizada, com responsáveis locais coordenando atividades ilícitas e mantendo o controle da região. Os suspeitos não devem responder nos termos da nova lei antifacção, uma vez que os fatos são anteriores à sanção recém-efetuada.

"Criminosos que atuavam ali precisavam avisar previamente o que iriam fazer. Isso demonstra organização e controle. Quem não seguia essas regras poderia sofrer punições internas", disse Marcondes.

As apurações também indicam que o grupo monitorava a circulação de pessoas e a presença policial. Moradores eram usados para alertar sobre a chegada de viaturas, o que, segundo a polícia, ajudava a sustentar o domínio territorial.

"É uma dinâmica que a gente já viu em outros estados, com vigilância constante e tentativa de afastar a atuação do poder público", afirmou o delegado.

Entre os crimes atribuídos ao grupo estão furtos de defensivos agrícolas, roubos de veículos, furto de armas, tráfico de drogas, lavagem de dinheiro e apologia ao crime.

Apontado como chefe da atuação no local, Antônio Luciano Galdino Santos, conhecido como Ceará, foi preso em São Paulo.

Entre os alvos da operação também está Odanil Gonçalo Nogueira da Costa, conhecido como MC Mestrão. Segundo a Polícia Civil, ele aparece nas investigações como alguém que ajudava a promover a facção e a dar suporte às atividades do grupo.

De acordo com o delegado, o artista mantinha contato direto com Ceará e chegou a ser acionado para conseguir um local para esconder um carro roubado.

"Ele não só foi procurado para conseguir esse esconderijo como relatou como o roubo foi feito, com as vítimas amarradas, descrevendo a violência de forma natural. Isso chamou atenção", disse Marcondes.

A polícia aponta que, embora não tenha conseguido o local, o investigado se ofereceu para intermediar a venda do veículo e indicou receptadores.

"Diante disso, entendemos que ele colaborava com a facção, não só na promoção, mas também na prática criminosa", afirmou o delegado.

A reportagem não identificou quem representa os suspeitos na Justiça.

As investigações também apontam que o suspeito frequentava ambientes usados como pontos de encontro da facção e mantinha contato com integrantes de alto escalão. Em uma das apurações, Mestrão teria viajado ao Rio de Janeiro, onde gravou um clipe no Complexo do Alemão e circulou com lideranças do grupo.

"Ele mesmo relatou que esteve com integrantes armados e lideranças da facção, foragidas de Mato Grosso. Em depoimento contou que, no RJ, as lideranças de Mato Grosso que estão lá, andam com pelo menos dez seguranças fortemente armados. Essa proximidade, somada às músicas que exaltam o grupo, reforça o papel dele", disse Marcondes.