SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - O terreno do ginásio do Ibirapuera representa um desafio para a construção de um shopping subterrâneo contornando a arena na zona sul da cidade de São Paulo. O centro comercial faz parte do plano de concessão à iniciativa privada do complexo esportivo estadual. Uma consulta pública aberta na semana passada receberá opiniões sobre o projeto até 24 de abril.
Para edificar a estrutura em formato de anel de dois pavimentos ?o primeiro com lojas, restaurantes e centro de convenções; e o segundo com estacionamento?, a concessionária que vencer a licitação terá de escavar uma área com lençóis freáticos rasos em um solo sujeito a afundamentos.
Esses riscos geológicos que se tornam mais relevantes dada a importância dos prédios na superfície. O ginásio Geraldo José de Almeida e todo o conjunto Desportivo Constâncio Vaz Guimarães são desde 2024 bens tombados pelo Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional).
A minuta do contrato elaborado pela gestão do governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) aponta que a situação geológica é um risco que a empresa vencedora do certame terá de assumir caso se proponha a construir o shopping.
O contrato não obriga a concessionária a entregar um centro comercial, mas ao optar pela obra, eventuais custos adicionais relacionados ao solo só poderão ser repassados ao estado se a situação encontrada nas escavações destoar significativamente do mapeamento geológico da área.
Órgão do governo responsável pelo projeto, a Secretaria de Parcerias e Investimentos disse que a futura concessionária também será responsável pelos estudos detalhados e pelas soluções de engenharia necessárias.
A secretaria amenizou o risco mencionado no contrato, afirmando que a área está majoritariamente em terrenos com materiais amplamente conhecidos pela engenharia e que permitem a adoção de fundações profundas, entre outras medidas consolidadas para esse tipo de obra.
São Paulo tem um documento para indicar a aptidão à urbanização dos diferentes tipos de solo da cidade, a carta geotécnica. Atualizado em 2024, esse mapeamento mostra que o ginásio está no limite entre dois tipos de terrenos.
O local exato da construção é classificado como uma "unidade geotécnica 4". Apesar de ser considerado altamente apto à urbanização, o local possui risco de esfarelamento das paredes de terra durante as escavações.
Recalques diferenciais, que ocorrem quando o peso de uma construção faz o chão ceder de forma desigual, podem gerar rachaduras tanto na nova obra quanto nas fundações do ginásio e equipamentos do entorno.
A situação se agrava pela proximidade com uma "unidade geotécnica 2", cuja principal característica é a de ser uma planície alagável com pouca resistência para suportar grandes cargas. Nessas áreas, o risco de o terreno afundar devido ao peso das obras ou aterros é ainda maior.
Um desafio comum a ambas as unidades, e explicitamente reforçado no contrato, é o nível da água debaixo da terra.
Na unidade geotécnica 2, o lençol freático costuma ser raso e sofrer variações conforme as chuvas, dificultando a drenagem.
A existência de água subterrânea já é um fato conhecido na região, tanto que a documentação da licitação indica que o ginásio Mauro Pinheiro, tradicionalmente utilizado para competições de lutas, apresenta infiltrações nas dependências que tocam o solo.
Devido à proximidade entre os dois tipos de solo, é impossível garantir somente pelo mapeamento que a área do centro comercial não esteja inteira no terreno mais desafiador para a construção, diz o geólogo Omar Bitar, do IPT (Instituto de Pesquisas Tecnológicas).
Na prática, a construção de fundações mais profundas e robustas mencionadas pela gestão Tarcísio tendem a tornar a obra mais cara. Mas ao optar por construir o centro comercial, a concessionária poderá ampliar lucros e, conforme determina o contrato, verter mais recursos para os cofres do estado.
Além de dar um lance inicial mínimo de R$ 3,7 milhões para disputar o certame, a empresa que sair vitoriosa da disputa pagará ao estado uma outorga equivalente a 2% das receitas anuais obtidas com a exploração do conjunto. Apesar de ser calculado por ano, os pagamentos serão realizados em frações mensais.
Para operar no espaço, a concessionária estará contratualmente obrigada a investir R$ 5,2 bilhões ao longo de 25 anos. Os recursos devem ser aplicados em reformas e obras de urbanização do entorno.
O projeto apresentado pelo governo faz exigências arquitetônicas para integrar o centro comercial à superfície sem interferências significativas nos edifícios tombados. A principal é uma grande claraboia de vidro que servirá para iluminar, ventilar e conectar visualmente o centro comercial subterrâneo ao restante do complexo.
Dois acessos principais estão previstos: um na confluência da rua Manoel da Nóbrega com a avenida Marechal Estênio Albuquerque Lima e outro dentro de praça pública que deverá circundar o ginásio.
No complexo do Ibirapuera, as obras obrigatórias são voltadas à reforma dos equipamentos esportivos. No ginásio principal, a proposta é remover o anel inferior das arquibancadas, rebaixar o piso da quadra, ampliar a capacidade de público, além de instalar climatização e isolamento acústico.
O centro aquático Caio Pompeu de Toledo deverá receber uma cobertura metálica leve e fechamento em vidro transparente para preservar a visão das estruturas originais, além de uma nova piscina de aquecimento para os atletas.
Ainda está prevista a construção de um novo edifício de alojamento para atletas, com 22 unidades e refeitório, situado entre o centro aquático e o estádio Ícaro de Castro Melo, que não tem obras previstas para a concessionária e passa por reforma realizada pelo próprio governo.
A concessão também inclui a reforma da vila olímpica Mário Covas, no distrito do Butantã, na zona oeste da capital. O local será transformado em um centro de iniciação esportiva de modalidades olímpicas aberto à comunidade.
