BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS) - Marina Silva deixa nesta quarta-feira (1º) o cargo de ministra do Meio Ambiente e Mudança do Clima, após pouco mais de três anos à frente da pasta.
No lugar dela, fica o atual secretário-executivo, João Paulo Capobianco, 69, número dois do ministério e um de seus principais aliados desde os primeiros governos Lula. Ele não deve promover alterações em sua política.
A exoneração de Marina e nomeação de Capobianco ao cargo serão publicadas ainda nesta quarta em edição extra do Diário Oficial da União.
Durante a gestão de Marina, o desmatamento da amazônia despencou, o combate a crimes ambientais cresceu, mecanismos de financiamento verde foram ampliados, e o Brasil sediou a COP30, a conferência contra mudanças climáticas das Nações Unidas, em Belém (PA).
Por outro lado, a política climática sofreu derrotas para setores do governo Lula (PT) ?como a autorização para busca de petróleo na bacia Foz do Amazonas? e para o Congresso. No Legislativo, houve o avanço do que ambientalistas apelidaram de "pacote da destruição", série de leis que afrouxam a proteção da natureza.
Marina chegou a ser cotada para compor o palanque de Fernando Haddad (PT) nas eleições em São Paulo, mas uma possível candidatura, bem como seu partido ainda estão em aberto. Hoje na Rede, ela é disputada por PT, PSB e PSOL, e pode concorrer ao Senado.
Natural de São Paulo, Capobianco vem de família com tradição na construção, dona da Construcap, empresa que ganhou leilão federal para gerir o Parque Nacional de Jericoacoara (CE).
O fato gerou reclamações de possível conflito de interesses. A companhia afirma, porém, que Capobianco é apenas sócio, sem posição de gestão. O governo federal ressalta que o pregão foi auditado pelo TCU (Tribunal de Contas da União), que não identificou nenhum impedimento.
Capobianco é formado em ciências biológicas pela Universidade de Santo Amaro e doutor em ciência ambiental pela USP (Universidade de São Paulo).
Atua na área ambiental ao menos desde a década de 1980. Em 1988, fundou a SOS Mata Atlântica e, seis anos depois, o Instituto Socioambiental, ambas ONGs que seguem em atividade ainda hoje.
Entrou no Ministério do Meio Ambiente em 2003, junto com Marina Silva. Foi secretário de Biodiversidades e Florestas por quatro anos e então passou para a secretaria-executiva.
Foi escolhido para liderar o ICMBio (Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade), criado em 2007 e uma das principais bandeiras da ministra, que batizou o órgão em homenagem ao seringueiro, ambientalista e sindicalista que foi um de seus formadores no ativismo ?ambos são do Acre, se conheceram quando ela tinha 17 anos.
Capobianco deixou a pasta com a saída da ministra, em 2008, após uma série de divergências com o governo Lula, com quem rompeu.
Após reconciliação com o petista em 2022, Marina voltou à pasta no atual governo, junto com seu braço direito.
No cargo, ela reestruturou a política ambiental, desmontada nos quatro anos do governo de Jair Bolsonaro (PL), um crítico dos mecanismos de proteção da natureza.
O PPCDAm, o plano para controle do desmatamento na amazônia, foi retomado. A estratégia foi criada em sua primeira passagem pela pasta e fez a derrubada da floresta diminuir de 27,8 mil km² em 2004 para 4.600 km² em 2012, o patamar mais baixo da história segundo dados do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisa Espacial), que mede o índice desde 1988.
No governo Bolsonaro, o PPCDAm foi descontinuado, e o desmatamento cresceu, impulsionado pelo garimpo ilegal e por fazendeiros irregulares, chegando a um pico de 13 mil km² em 2021.
A volta do plano e das ações de fiscalização do Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis) derrubaram novamente a taxa de degradação, para 5.700 km² em 2025.
"Esses números estão na mesma prateleira de tirar o país do mapa da fome e diminuir o desemprego. Claro que eu não estou dizendo na mesma importância social, mas é um número extremamente positivo, de altíssimo impacto", afirma Marcio Astrini, secretário-executivo do Observatório do Clima, rede que reúne mais de uma centena de ONGs socioambientais.
O governo também criou os planos de controle do desmatamento para os outros biomas do Brasil.
O Ibama passou a utilizar embargos remotos, estratégia que emprega imagens de satélite para identificar e multar infratores ?até então, isso era feito presencialmente? e amplia o poder de ação do órgão.
A prática, porém, gerou revolta no agronegócio. Há setores que querem proibi-la por meio de um projeto de lei que tramita pela arena na qual Marina sofreu suas principais derrotas: o Congresso Nacional.
Desde 2023, os parlamentares reduziram as atribuições do Ministério do Meio Ambiente e aprovaram projetos que flexibilizam o licenciamento ambiental, a regulação de agrotóxicos e as regras de restrição à exploração da mata atlântica.
Marina conseguiu que Lula defendesse publicamente a criação da Autoridade Climática (órgão que deveria reger as ações do Executivo), mas a proposta travou na Casa Civil ?tanto pela avaliação de que o Congresso não a aprovaria quanto por divergências internas.
"A realidade é que esse discurso [ambiental] esbarrou em obstáculos políticos dentro do próprio governo e do Congresso. Não tem sido possível construir consensos que enfrentem interesses consolidados no modelo econômico atual, fortemente baseado em combustíveis fósseis e conversão de florestas", afirma Mariana Mota, gerente de Políticas Públicas do Greenpeace Brasil.
Na área de energia, a Petrobras expandiu sua produção de combustíveis fósseis, e, mesmo diante da oposição de Marina, o governo abriu uma nova fronteira de petróleo na bacia Foz do Amazonas, com apoio de Lula.
A liberação para pesquisa de óleo na região, na chamada margem equatorial, aconteceu dias antes da COP30. O evento, porém, simbolizou uma vitória da ministra, que conseguiu fazer com que o presidente pautasse publicamente um plano para redução do uso de petróleo, gás e carvão, batizado de mapa do caminho.
"Claro que agora, diante de uma situação de guerras, há pouco espaço para prosperar qualquer uma dessas agendas, mas aquele discurso do presidente vem da interferência direta dela", diz Astrini.
Na parte econômica, a ministra reativou o Fundo Amazônia, colocou de pé o Fundo Clima e criou parcerias com o Ministério da Fazenda para financiamento de ações ambientais, como o Ecoinvest, leilão de projetos que contribuem para o meio ambiente.
No início de 2026, aprovou o Plano Clima, após uma série de embates com o agronegócio ameaçar colocar em xeque o documento. É ele que dá as diretrizes de como o país vai alcançar as suas metas climáticas até 2035, como zerar o desmatamento.
