SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Após uma longa (e suave) contagem regressiva, a Artemis 2, primeira missão tripulada destinada a viajar até a Lua no século 21, partiu com sucesso da plataforma 39B, no Centro Espacial Kennedy, no começo da janela de lançamento desta quarta-feira (1º), às 19h35 (de Brasília, uma hora antes em Cabo Canaveral, Flórida).

A cápsula Orion, batizada pela tripulação de Integrity, foi impulsionada pelo superfoguete SLS (Space Launch System), desenvolvido pela Nasa especificamente para as missões lunares, que fez seu segundo voo e, mais uma vez, teve o desempenho esperado.

Após a ejeção dos propulsores auxiliares e a queima total do primeiro estágio, com pouco mais de oito minutos de voo, o segundo estágio e a cápsula entraram na trajetória planejada.

Uma ativação do segundo estágio 49 minutos após o lançamento está programada para colocar a nave numa órbita com perigeu de 185 km e apogeu de pouco mais de 2.200 quilômetros. Uma segunda manobra uma hora depois elevará o apogeu da órbita para 70,4 mil quilômetros. Isso já representa cerca de um sexto do caminho até a Lua.

Três horas após o lançamento, a cápsula Orion deve se separar do segundo estágio do SLS, e os astronautas Reid Wiseman (comandante) e Victor Glover (piloto) controlarão a nave manualmente, aproximando-se e afastando-se do segundo estágio, como um primeiro teste para futuras manobras de encontro e acoplagem em órbita, que serão essenciais em tentativas de pouso na Lua.

Após o dia intenso, a tripulação, também composta pelos especialistas de missão Christina Koch e Jeremy Hansen, terá um período de descanso, seguido por testes extensos do sistema de suporte à vida da cápsula ?é a primeira vez que ela voa com tripulação a bordo, após o voo não tripulado de 2022 na Artemis 1. Naquela ocasião, a cápsula nem tinha um sistema completo de controle ambiental. Agora, os astronautas testarão pela primeira vez no espaço essas funcionalidades. Em testes de solo, em câmaras a vácuo, tudo funcionou bem, mas é impossível realizar simulações perfeitas do ambiente espacial na Terra.

Um dos testes mais peculiares que os astronautas terão de fazer tem a ver com o dispositivo para exercícios físicos instalado a bordo. É uma cápsula pequena (o espaço interno equivale aproximadamente a uma tenda para seis pessoas) e a realização dos exercícios é essencial para a saúde dos astronautas, submetidos ao ambiente de microgravidade. Mas o quanto o uso do sistema desenvolvido para a cápsula, com todo o movimento envolvido, impactará a estabilidade do veículo? É algo que os tripulantes terão de verificar.

Com essas checagens concluídas, o início da jornada para o voo circunlunar só começa de fato na quinta-feira (2), por volta das 20h, quando será feita a manobra conhecida como injeção translunar ?a ativação do motor da Orion no último empurrão para que a nave escape da gravidade terrestre e inicie a jornada ao redor da Lua.

A expectativa é que a cápsula realize seu sobrevoo lunar e os astronautas se tornem os humanos a viajarem mais longe da Terra no dia 6, quando poderão ver partes jamais vistas do hemisfério afastado lunar (exceto em fotografias colhidas por sondas automatizadas). Eles estarão a mais de 400 mil km da Terra. O recorde atual de distância foi estabelecido pela missão Apollo 13 (400.171 km).

MISSÃO HISTÓRICA

Ninguém realizava uma injeção translunar desde dezembro de 1972, quando a Apollo 17, última missão daquele programa, partiu para a Lua. Desde então, mais de 53 anos, não houve outros voos tripulados além da órbita terrestre.

A tripulação inclui o primeiro negro (Glover), a primeira mulher (Koch) e o primeiro não americano (o canadense Hansen) a fazerem essa viagem. Mas eles não devem ser os últimos. A Nasa planeja aumentar a cadência de missões de espaço profundo, fazendo ao menos um lançamento do programa Artemis por ano. O primeiro pouso tripulado americano está programado para a Artemis 4, em 2028, mas não há convicção de que o cronograma possa ser cumprido. Basta lembrar que a atual missão originalmente estava prevista para 2022, depois 2024, depois 2025, antes de finalmente acontecer.

As missões de pouso serão bem mais complexas e ainda dependem de os fornecedores dos módulos de pouso (os veículos Blue Moon e Starship, das empresas Blue Origin e SpaceX) demonstrarem capacidade de reabastecimento em órbita e de pouso suave na superfície da Lua, além de uma decolagem para a viagem de retorno.

Do outro lado do mundo, a China planeja sua primeira missão tripulada à superfície lunar para antes de 2030. A arquitetura chinesa é bem mais conservadora que a americana, basicamente uma réplica do que foi feito no programa Apollo, o que dá mais confiança de que possa ser executada no prazo determinado pelo programa chinês. Há uma corrida declarada, ao menos do lado americano, para ver quem chega primeiro à superfície da Lua com astronautas neste século.