SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Um palacete centenário localizado centro de São Paulo foi comprado por um empresário após décadas de abandono. A propriedade, que estava havia cerca de 80 anos sem ocupação permanente, deve passar por um processo de restauração parcial e ser transformada em um centro cultural aberto ao público. .

O imóvel fica na atual rua Roberto Simonsen, 97, na região da Sé. Na fachada, porém, conserva o número original da época de sua construção, o 6 da antiga rua do Carmo.

O novo proprietário, Allan Ruiz, atua há sete anos na requalificação de imóveis antigos na região central, com foco em projetos de retrofit. Durante esse período, ele mapeou mais de 350 prédios ociosos em busca de oportunidades.

O novo dono do lugar diz que sua rotina é semelhante à de um "cão farejador", sempre à procura de construções com potencial de reaproveitamento.

Esse será o primeiro empreendimento do empresário com finalidade cultural ?os outros projetos eram voltados ao uso residencial. A ideia é preservar a estrutura original e utilizar o espaço para divulgar a obra do arquiteto responsável pelo projeto, além de atrair visitantes interessados em história, arquitetura e arte.

A região já concentra equipamentos como o Museu da Cidade e o Museu das Favelas, localizados a poucos metros do imóvel. Também fica próximo do Pateo do Collegio, marco de fundação da cidade. Para Allan, o conjunto pode contribuir para a formação de um polo cultural no centro histórico.

Apesar do estado de deterioração, o prédio preserva elementos originais, como diferentes tipos de pisos, vidraças em cada uma das quatro escadas e pias centenárias. A fachada já passou por ao menos uma restauração, mas o interior segue com marcas do abandono, como vidraças quebradas e estruturas desgastadas.

Foi justamente durante a análise desses detalhes que o empresário fez uma descoberta inesperada. Ao observar inscrições em tijolos espalhados pelo edifício, ele identificou padrões diferentes e decidiu investigar a origem do material. Encontrou referências que indicavam a ligação com o escritório de Ramos de Azevedo.

Considerado um dos principais nomes da arquitetura paulista, Francisco de Paula Ramos de Azevedo (1851-1928) foi responsável por alguns dos edifícios mais emblemáticos de São Paulo, como o Theatro Municipal, o Mercadão e o edifício do Liceu de Artes e Ofícios de São Paulo, atual Pinacoteca de São Paulo.

A confirmação veio após consulta ao Arquivo Municipal. Lá, Allan teve acesso a documentos originais do projeto que seguiam intactos, mesmo após um século, assinados pelo próprio arquiteto. Foi nesse processo que o administrador também descobriu que o prédio foi um dos primeiros da cidade a utilizar estrutura de concreto armado, tecnologia avançada para a época.

O edifício também é importante para a história da medicina do estado. O prédio foi erguido no final do século 19 para sediar a Sociedade de Medicina e Cirurgia de São Paulo e a Policlínica.

A Sociedade de Medicina ocupou o local por cerca de 18 anos, de março de 1921 a março de 1939. O próprio emblema da entidade, criado por Ramos de Azevedo, reforça essa ligação histórica, mantendo até hoje os mesmos elementos simbólicos do desenho original.

No entanto, a partir de 1919, a Policlínica começou a enfrentar dificuldades financeiras. A situação se agravou ao longo da década seguinte, levando à hipoteca dos bens conjuntos em 1924. Em 1929, a crise já era evidente, e, no início de 1939, a Sociedade de Medicina deixou definitivamente a construção, após sua perda para credores, entre eles a Caixa Econômica Federal.

Ao longo das décadas, o imóvel passou por diferentes proprietários e perdeu sua função original após dificuldades financeiras das instituições que o ocupavam. Desde o fim dos anos 1930, o espaço deixou de ter uso contínuo, sendo utilizado apenas esporadicamente para eventos.

Localizado em uma das áreas mais antigas da cidade, o palacete também está inserido em um território de relevância histórica. A antiga rua do Carmo fez parte do antigo traçado da trilha do Peabiru, rota indígena que conectava o oceano Atlântico ao Pacífico, com milhares de quilômetros de extensão, que antecede a fundação de São Paulo.

Mesmo antes da compra, o desenvolvedor imobiliário já "namorava" o prédio há alguns anos. Hoje, como o novo dono, ele frequenta o local diariamente e recebe estudantes, professores e pesquisadores. Já foram realizadas visitas guiadas informais, enquanto o projeto de requalificação ainda está em fase inicial.

A proposta do novo dono é tentar manter ao máximo o aspecto atual do prédio, realizando apenas intervenções necessárias para garantir segurança e acessibilidade. A intenção é preservar as marcas do tempo e valorizar a história do imóvel como parte da experiência cultural.

"Como uma obra dessa ficou tanto tempo esquecida em um lugar por onde tanta gente passa?", questiona Allan.