SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - "Queremos viver e para tanto temos que oferecer a morte." Momentos antes, o anófele autor dessa frase pousou na pele do alvo e sugou seu sangue. A picada, diz o mosquito, significava não o fim, mas o começo. Nesse caso, para a transmissão dos plasmódios da malária para uma jornalista alemã que viajava a lazer com o objetivo de conhecer a Amazônia.

O encontro entre mosquito e seu alvo virou o livro "Malária: Um Romance". Lançada em 2012 em alemão, a língua materna da autora, Carmen Stephan, a obra ganha agora uma versão em português pela editora Tinta-da-China Brasil.

A personagem Carmen se inspira na história da autora, hoje com 51 anos. Ela de fato pegou a doença -ou a doença a pegou- durante uma viagem por Manaus, Belém e Ilha do Marajó, em 2003. Onde foi picada? "Tem uma teoria no livro, mas eu não sei exatamente", diz a escritora à reportagem, que após algumas idas e vindas ao país fixou-se na Bahia.

Os parasitas do gênero Plasmodium submeteram Carmen a um mau bocado, a ponto de ela pensar que não escaparia. A saúde dela se deteriorava enquanto os sintomas eram confundidos, por mais de um médico, com os da dengue, transmitido pelo Aedes aegypti. O responsável pela malária é do gênero Anopheles.

Passaram-se seis ou sete anos até que a autora decidisse pôr em páginas o que vivera. "Mexeu muito comigo. Foi uma experiência de quase chegar ao fim, sentindo a fragilidade da vida. Então, nos primeiros anos eu nem queria olhar mais para essa história", lembra Carmen.

"Porém senti que precisava encarar, precisava escrever. Aí comecei devagar a me aproximar. Tinha algo como um freio: quero, mas não quero." Até que, diz ela, abriu a porta e conseguiu refazer o caminho.

Carmen voltou aos locais daquela viagem. "Eu queria transformá-los, para não serem mais lugares que me dessem medo quando pensasse neles. Então voltei à Amazônia, ao hospital. Foi muito bom, mas um desafio. E durante a escrita houve algo muito forte, muito físico. Tive, em alguns momentos, sintomas da malária de novo, como um calafrio, uma febre, como se o corpo estivesse lembrando."

Em meio à busca de uma voz para contar sua história, a autora se recordou de um momento em que estava internada no Rio. "Quando estava no hospital, já muito debilitada, e ouvi o médico falando a palavra malária, pensei imediatamente no mosquito. Primeiro, com uma certa raiva: 'ah, seu maldito'. Mas o próximo pensamento foi: 'Nossa, não estou sozinha nessa história. Tem alguém diretamente ligado, pelo sangue. Será que esse mosquito ainda está vivo?"

No livro, o mosquito não só está vivo como acompanha a personagem Carmen durante toda a jornada dela, de Manaus até o retorno ao Rio de Janeiro. O certo, aliás, é referir-se a ela, pois é a fêmea do anófele o vetor do Plasmodium.

Ao longo da obra, a minúscula narradora debocha da nossa espécie. "Vocês nos batizaram com um nome grego, Anopheles, que significa algo como 'inútil'. 'Sua larva vive na água e o mosquito não pica', pontuava a legenda de minha imagem no Systema Naturae. Perdão por rir alto."

Também nos lembra da fragilidade dos nossos corpos diante dos plasmódios. "Vocês humanos são um envoltório inútil para seres que nem chegaram a desenvolver antenas, que não passam de um coágulo sem mente nem alma."

E ainda tenta alertar, mais de uma vez, Carmen e os que estão ao seu redor da real enfermidade que acomete a paciente. "Como devo me comunicar para que vocês me entendam? Vocês não entendem. Ela está morrendo pelo ar."

A referência ao ar aqui remete às raízes da palavra: mal' aria, ar ruim. No passado, pensava-se que os vapores dos pântanos a transmitiam. Há referência a ela num papiro de 2.500 a.C. do Egito Antigo. Em localidades italianas como Calábria e Apúlia, vilarejos formavam-se em áreas mais altas para fugir desse vapor.

Justamente na Itália, conta a narradora do livro, surgiu em 1879 uma das possíveis explicações para aquele vapor. Com base em um experimento com água de um pântano no país injetada em coelhos, o alemão Edwin Klebs (1834-1913) e o italiano Corrado Tommasi-Crudeli (1834-1900) sugeriram que a doença estaria ligada a uma bactéria, a Bacillus malariae.

A hipótese durou pouco, até os anos 1880, quando um francês observou os plasmódios pela primeira vez. Na Argélia, o médico Alphonse Laveran (1845-1922) visualizou os parasitas ao analisar a amostra de sangue de um paciente, um soldado de 24 anos.

A forma como aquele soldado contraiu a doença, porém, permanecia um mistério. Isso só seria respondido pelo britânico Ronald Ross (1857-1932), que atendia a pacientes com malária na Índia. Instigado pelo médico escocês Patrick Manson (1844-1922), ele passou a procurar a presença de plasmódios em um mosquito.

Em 1897, o médico os encontrou. Lá estavam eles na parede do estômago de um mosquito. No ano seguinte, em junho, um novo passo: Ross os rastreou até a arma do inseto para picar.

Tudo se dá em um ciclo: os plasmódios abrigam-se no anófele; este os transmite à nossa espécie; e os humanos, por sua vez, levam os parasitas ao mosquito quando são picados.

A dedicação de Ross acabaria reconhecida em 1902 com o Prêmio Nobel de Fisiologia ou Medicina. Laveran também receberia a láurea, mas separadamente e cinco anos depois.

Na obra, essas passagens da história do mosquito se intercalam com a trajetória de Carmen. "Acho que elas dão também um respiro no livro, o leitor não atravessa essa história só sofrendo com a pessoa", afirma a autora.

Se a descoberta de Ross permitiu a identificação do ciclo da doença, o livro abriu um novo para Carmen. Este se completará na Flip (Festa Literária Internacional de Paraty), evento do qual ela participará pela primeira vez, já que não pôde na edição de 2016. À época, ficou impossível viajar de avião em razão da gravidez -a filha nasceu em 1º de agosto, mesmo dia do aniversário da autora.

E hoje qual o sentimento dela em relação ao Anopheles, com quem desenvolveu uma ligação tão íntima? "Foi o animal que quase me matou e, ao mesmo tempo, foi ele que possibilitou esse livro, que possibilitou uma nova história, porque me transformou profundamente -e também antes desse livro eu não era escritora. Foi a primeira obra de literatura mesmo", diz Carmen. "E o mosquito não escolhe, ele é usado pelos parasitas, que só querem sobreviver. Então, não tem maldade."

MALÁRIA: UM ROMANCE

Preço R$ 79,90 (168 págs.)

Autoria Carmen Stephan (tradução Claudia Abeling com apoio do Goethe-Institut)

Editora Tinta-da-China Brasil