CAMPINAS, SP (FOLHAPRESS) - Impossível passar desatento pela fuselagem empoeirada de um Boeing 737-300 junto à cerca de proteção logo na entrada. É o cartão de visitas de um inusitado futuro museu de aviação nos fundos de um ferro-velho de Campinas, no interior de São Paulo.

O "charuto" branco e azul faz parte do acervo do Supermercado Sucatas Bim, ou do que está virando acervo do local onde se encontra de tudo para vender, como incubadora para bebê, ônibus, viatura de polícia, ferros de todos os tipos, lustres, materiais de construção e eletrônicos.

Entre aviões, helicópteros, simulador e um planador, há cerca de 20 aeronaves adquiridas como sucatas por Vitório Bim, 73, que segue o negócio de ferro-velho inaugurado pelo pai há cerca de 70 anos, em Fernandópolis, também no interior paulista.

O plano é que ainda neste mês, o "pátio de aviões" seja aberto à visitação pública, inclusive com cobrança de ingressos. O preço ainda não está definido, mas deve ficar entre R$ 20 e R$ 30, afirma Bim.

No início, o visitante terá de atravessar o galpão principal do depósito de sucatas, o que não é um problema. Na última segunda-feira (30), quando a reportagem foi até lá, no meio do caminho havia um Aero Boero AB-115 vermelho -o monomotor é um clássico na formação de novos pilotos.

Está no meio de um jipe, balanças, um balcão de loja e muitos assentos de aviões à venda. Por R$ 3.000 pode-se levar para a sala de casa uma fileira completa com três cadeiras de classe econômica, ou duas de primeira classe por R$ 6.000.

Mas daqui a um ano, se o ritmo de obras seguir como planejado, o museu terá uma entrada própria na SP-073, a rodovia Lix da Cunha, ou Estrada Velha Indaiatuba-Campinas, onde fica a sucata, além de estrutura de alvenaria.

O ambiente contará com uma lanchonete montada junto à fuselagem de um Fokker 100, ainda com a cor vermelha da companhia aérea Avianca, que já está posicionado.

Não vai faltar história para ver. Da Avianca há outro clássico no terrenão de pedras e chão batido. É um Airbus A318, modelo com capacidade para até cerca de 130 passageiros incorporado à frota da companhia no início da década passada.

Mas quem quiser ver esse avião deve se apressar. Segundo Bim, o que sobrou dele foi vendido por R$ 500 mil a um apaixonado por aviação que vai transformar o Airbus em casa no interior do Paraná. "Ele [futuro proprietário] está preparando a estrutura", diz.

Nos fundos do terreno há uma fuselagem de Buffalo, cargueiro militar canadense C-115 muito usado pela FAB (Força Aérea Brasileira), também já comercializado -será um bar na cidade de Guarulhos, na região metropolitana de São Paulo.

Mas a estrela do local é um Boeing 727 da Varig Log, adquirido em 2010. O cargueiro fez parte da história de uma das mais importantes companhias aéreas do país, que dominou rotas internacionais e domésticas entre as décadas de 1960 e 1980.

No fim do ano passado, o icônico avião foi alugado por R$ 150 mil para uma festa de fim de ano de uma empresa, coincidentemente instalada próxima ao aeroporto de Viracopos, também em Campinas.

A fuselagem está cortada em duas partes, para facilitar o transporte, mas é emendada com uma espécie de cinta.

O cargueiro trijato foi montado no local da celebração, ou seja, teve colocadas asas, trens de pouso e o suporte junto à cauda onde ficaria o terceiro motor originalmente, tudo retirado e montado no chão ao lado quando o Boeing voltou para a área na sucata.

Ser xodó do espaço não significa não estar à venda. "É o meu negócio, tudo pode ser comercializado", afirma Bim, que diz que pode se desfazer do 727 por uma proposta acima de R$ 700 mil.

E há o que custe mais. Uma outra herança da Varig, um Boeing 737, não sai dali por menos de R$ 1,2 milhão.

A área conta com inúmeras preciosidades. Algumas quase inteiras, outras deterioradas.

Há dois exemplares do turboélice Let 410, fabricado na República Tcheca. Outros modelos são um Piper Cherokee, Cessna, além do Aero Buero, bastante conservado, que ainda deverá ser transferido para a área externa.

Um planador parece ter caído de bico em cima de um dos contêineres usados como muro do futuro museu. Mas foi colocado propositalmente ali para decoração. "Aqui há uma infinidade de histórias para contar", diz Bim.

Frequentemente, as aeronaves ou parte delas, como os assentos, são locadas por produtoras de cinema e TV.

No interior do galpão principal há uma sala com uma enorme estante repleta de instrumentos dos painéis de aviões, como relógios, bússolas e altímetros usados, que podem ser comprados a partir de R$ 500, além de rádios transmissores. No futuro, deverão estar em uma lojinha com suvenires.

Em uma área total de 110 mil metros quadrados, o depósito de sucatas fica junto a dois locais para festas, que fazem parte do mesmo "complexo".

Em um deles, o Dona Floripes (nome da matriarca da família), há um Boeing 727-200 praticamente inteiro, que voou para a empresa aérea Fly e foi garimpado em Guarulhos, onde fica o aeroporto internacional.

A aeronave, com o interior vazio, conserva até hoje aspectos originais de cockpit, banheiros, áreas da tripulação e bagageiros numerados. Ela pode receber mesas e cadeiras ou mesmo camas para servir de dormitório dos convidados. Esse 727 não faz parte do museu.

Junto ao outro salão de festas, há um avião com brinquedos infantis e um toboágua.

A paixão de Bim pela aviação vem de longe. Logo nos primeiros anos da sucata em Campinas -os irmãos seguiram os negócios do pai abrindo espécies de "filiais" pelo interior-, ele comprou um avião bimotor para instalar logo acima do portão de entrada, com a missão de chamar a atenção. E não parou mais.

Comprou aeronaves em aeroportos que ele rejeita o rótulo de abandonadas. "O que para você é o fim, para nós é apenas o começo", costuma repetir.

O proprietário já participou de grandes feiras de aviação nos Estados Unidos e está fazendo aulas para tirar brevê e se tornar piloto de avião. "Eu preciso saber das coisas", afirma.

SUPERMERCADO SUCATAS BIM

Endereço: SP-073, km 8, loteamento Parque Centenário, Campinas

Telefone: (19) 3227-0861