BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS) - O lucro do crime organizado na América Latina deixou de se concentrar exclusivamente no narcotráfico e passou a se estruturar como uma engrenagem diversificada de negócios ilícitos, segundo o secretário de Segurança Multidimensional da OEA (Organização dos Estados Americanos), Ivan Marques.

De acordo com ele, organizações transnacionais operam sob a lógica da convergência criminal, em que a cocaína é somente uma das fontes de receita, cedendo espaço a diferentes atividades ilegais numa cesta ampliada de lucros.

Essa estrutura torna o crime organizado altamente fluido, com atuação que se estende por mercados que vão do tráfico de armas e de pessoas ao comércio ilegal de fauna, exploração sexual, extorsão, extração clandestina de madeira e ouro, além da mistura entre negócios legais e ilegais.

Diferentemente da lógica dos grandes cartéis do passado, hierarquizados e centralizados -como o de Pablo Escobar-, essas organizações passaram a operar em redes independentes e mais flexíveis.

Em vez de concentrar o controle da cadeia, grupos transnacionais firmam alianças com atores locais, de gangues a estruturas de base territorial que, em alguns países da América Latina, chegam a ter caráter familiar ou atuação restrita, para garantir distribuição, logística e capilaridade.

No Brasil, facções como o PCC (Primeiro Comando da Capital) e o Comando Vermelho já atuam além das fronteiras. Como mostrou a Folha de S. Paulo, elas mantêm negócios em ao menos 20 países. Evidências recentes indicam que o faturamento das duas facções já não depende majoritariamente do tráfico de drogas, mas de um portfólio diversificado de atividades ilícitas.

Ao ampliar o olhar para além do Brasil, entram em cena os cartéis mexicanos, como o Jalisco Nueva Generación, e também organizações mafiosas europeias com atuação nas Américas. Máfias albanesas, italianas, húngaras e croatas integram uma espécie de coalizão transnacional que opera de forma articulada.

"A rede transnacional é composta por grupos locais menores para dar vazão a um mercado de ilícitos bastante variado. O controle de toda cadeia de produção e logística é disperso entre múltiplos grupos delinquentes, assim como o risco. O objetivo é, de modo geral, o lucro, mesmo que a violência seja uma das consequências dessas operações", disse.

Marques aponta que o tráfico de drogas segue como eixo central na região. As Américas concentram a produção da cocaína consumida no mundo, o que mantém o tema sob atenção permanente.

Ao mesmo tempo, a Secretaria de Segurança Multidimensional da OEA monitora novas frentes de ameaça, como o avanço dos crimes cibernéticos, o controle de materiais biológicos e radioativos. Há uma migração crescente da extorsão e dos roubos tradicionais para o ambiente digital, fenômeno do qual o Brasil figura entre as principais vítimas globais.

Ele também demonstra preocupação com o Caribe, onde o perfil da criminalidade vem se tornando mais violento e armado. A OEA tem prestado assistência técnica a países da região e da América Central, especialmente para reduzir o tráfico de armas e munições.

Outro ponto de alerta é o desvio de explosivos de operações de mineração lícitas para as mãos de organizações criminosas. Para enfrentar esse cenário, têm sido estruturados planos estratégicos regionais, como o acordo firmado por sete países da América Central para intensificar o combate ao tráfico de armas.

Na avaliação de Marques, o enfrentamento eficaz do crime organizado transnacional exige uma mudança de paradigma: sair de um modelo centrado exclusivamente na ação policial e avançar para uma lógica de cooperação interagências.

Entre as medidas defendidas está a criação de grupos de investigação conjunta, a exemplo do que já ocorre no Brasil, onde a Receita Federal atua no rastreamento financeiro e na lavagem de dinheiro, enquanto polícias federal e estaduais e Gaecos (Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado) do Ministério Público investigam a estrutura das facções e conduzem operações.

O Brasil é citado como um país que já possui maturidade em operações interagências. Ele cita como exemplo de sucesso a Operação Carbono Oculto, que desestruturou uma organização criminosa sem disparar um único tiro.

"Parece algo óbvio, mas ainda é pouco explorado na América Latina e no Caribe. As agências de segurança, como polícias, Ministérios Públicos, aduanas, muitas vezes não se comunicam. A criação desses grupos integrados, como forças-tarefa multiagências exclusivas à investigação ao crime organizado transnacional, é uma inovação institucional", afirma.

Marques também classifica como fundamental a liderança brasileira na criação de uma base de coordenação da Interpol na Argentina, com participação de países da América do Sul.

Para ele, a cooperação diplomática é o caminho que deve ser trilhado pelo Brasil, a despeito de iniciativas na região apostarem na militarização do enfrentamento ao crime organizado.

À frente da Secretaria de Segurança Multidimensional, Marques tem como principal projeto a criação de uma rede regional de combate ao crime organizado transnacional, baseada na replicação de operações nos países-membros.

A organização quer impulsionar que os países a trabalhem alinhados para facilitar a troca de informações, além de atuar em operações coordenadas.