SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Ao chegar aos 80 anos desde sua fundação, a PUC-SP, uma das mais antigas e prestigiadas universidades particulares do país, prepara um PDV (Plano de Demissão Voluntária) para incentivar docentes mais velhos a se aposentar.

Em entrevista à Folha, o reitor Vidal Serrano defendeu que a medida é necessária porque esses profissionais costumam receber altos salários. Além disso, diz ele, isso permitirá a renovação do quadro de professores e, consequentemente, inovações no currículo.

"Temos professores titulares das antigas que recebem mais de R$ 35 mil, R$ 40 mil [por mês]. Muitos deles não querem se aposentar, postergam essa decisão ao máximo possível, porque ao se aposentar vão receber o teto do INSS [atualmente fixado em R$ 8.475,55]. Eles resistem muito à aposentadoria e eu compreendo, porque a perda de remuneração é de fato muito grande", disse.

A octogenária universidade vem enfrentando, ao menos nos últimos 15 anos, quedas consecutivas no número de matriculados. De 2010 a 2024, a queda no número de alunos é de 40%. Há casos até mesmo de cursos, como os de serviço social e filosofia, que não conseguiram abrir novas turmas neste ano por falta de interessados.

Nomeado reitor no fim de 2024, Serrano assumiu a universidade com o objetivo de reformular os cursos e torná-los mais atrativos para recuperar parte das matrículas. Para ele, a modernização dos currículos de graduação também depende da renovação do quadro de docentes.

A proposta do plano de demissão voluntária deve ser apresentada ainda neste semestre e precisa ser aprovada pelo Conselho Universitário, instância máxima da instituição. Apesar de não apresentar detalhes, o reitor explicou que a ideia é propor o pagamento de uma indenização somada a uma gratificação que será paga de forma parcelada. Além de estender o convênio médico para os docentes aposentados.

"Entendo a situação de muitos professores que não querem se aposentar, não apenas por conta do salário, mas também por quererem continuar trabalhando na universidade. Mas nós precisamos negociar, porque essa é uma situação grave em alguns cursos", disse.

Alguns cursos têm quase metade do corpo docente formado por pessoas com mais de 75 anos. O reitor não quis dizer quantos professores o plano de demissão voluntária pretende atingir nem o montante de recursos disponibilizados para negociar as aposentadorias.

Ainda segundo Serrano, após a aposentadoria desses docentes, a universidade pretende contratar novos quadros para atuar nas graduações. Ele não quis dizer quantos novos professores devem ser contratados.

Dados do Censo do Ensino Superior mostram que de 2010 a 2024, a PUC-SP perdeu quase um terço do corpo docente. A universidade passou de 1.407 professores para 954, neste período. Serrano diz que a renovação do quadro será feita para manter profissionais altamente qualificados.

"Nossa prioridade nessa temática será para valorizar a carreira dos professores, seguindo a mesma responsabilidade acadêmica que tem norteado a renovação dos cursos de graduação. O PDV é uma das propostas em análise, ainda sem decisão tomada, que pode auxiliar nessa constante tarefa de atualização", disse.

O reitor avalia que a perda de alunos vivida pela PUC-SP nos últimos anos é reflexo de múltiplos fatores, que vão desde a ampliação de vagas em universidades públicas (sobretudo em cursos de licenciatura) em São Paulo, a expansão do ensino a distância e o avanço dos grandes grupos educacionais no mercado do ensino superior.

Ele, no entanto, também avalia que há problemas internos na universidade que acabaram afastando novos alunos, sobretudo a falta de modernização e renovação do currículo dos cursos. Desde que assumiu a reitoria, 13 das 30 graduações já reformularam seus currículos ?a universidade também reduziu o preço das mensalidades nesses cursos para atrair estudantes.

"As unidades têm autonomia para decidir se querem, e como querem, fazer as mudanças curriculares. Nós, da reitoria, estamos apenas apoiando e mostrando a importância dessa renovação."

"Não dá mais para ter um curso de Ciências Sociais, por exemplo, sem que o aluno tenha contato com programação ou inteligência artificial. Não basta esse aluno saber sobre estatística, ele precisa entender programação de linguagem, ciência de dados, etc. Nosso curso era um pouco mais conservador. Nós não tiramos essa parte mais tradicional, mas trouxemos mudanças para que o curso se aproxime à demanda do mercado atual", exemplificou.

Serrano afirmou ainda que sente resistência de parte do corpo docente em propor mudanças curriculares nos cursos, o que, segundo ele, tem dificultado a universidade a atrair novos alunos.

"Na nossa avaliação, todos os cursos têm espaço para continuar sendo ofertados, mas eles precisam ser ressignificados, modernizados. [As direções de] alguns deles resistiram a isso e, neste ano, essas graduações não conseguiram abrir novas turmas. É um chamado à realidade, espero que seja um aviso, um apelo à consciência", diz o reitor.