BOGOTÁ, COLÔMBIA (FOLHAPRESS) - Pode bater uma certa decepção ao vasculhar sua galeria de imagens no celular e ver as tentativas frustradas de fotos de uma bela Lua cheia, que termina como uma distante bola branca sem graça. Enquanto isso, os astronautas da Artemis 2 conseguem fantásticas fotos da Lua e da Terra. Mas não desanime; eles foram treinados para fotografar.
O treinamento para fotografia lunar durou cerca de dois anos e ocorreu no Centro Espacial Johnson da Nasa, na cidade americana de Houston. Como parte dos treinos, os astronautas estudaram as texturas da superfície, variações de cor e refletividade, além da identificação de crateras.
Os astronautas foram treinados por Katrina Willoughby e Paul Reichert, dois ex-alunos do Instituto de Tecnologia de Rochester (Nova York), que possui uma formação em ciências fotográficas. A dupla deu uma entrevista recentemente.
Os dois são veteranos da agência espacial em treinamento de astronautas para fotografia ?o que também reflete a tradição da Nasa nesse tipo de registro, como se pode ver nos arquivos de imagens das missões Apollo.
A tripulação da Artemis 2 tem à disposição três câmeras profissionais Nikon ?duas D5 e uma Z9?, além de 4 GoPros (compactas, resistentes e usadas usualmente para fotografias em ambientes difíceis ou para esportes; segundo a própria empresa GoPro, há ainda 4 de suas câmeras acopladas nos paineis solares da nave) e um Iphone para cada membro da tripulação (modificados para não terem acesso à internet ou outras ferramentas online).
Ao todo, a Orion, espaçonave na qual viajam os astronautas da Artemis 2, conta com 32 câmeras e dispositivos que podem produzir imagens, tanto dentro como fora do veículo.
Reichert afirmou, na entrevista que deu para o instituto onde estudou, que a maioria dos astronautas tem pouca experiência com fotografia.
Esse não parece, porém, ser o caso de Christina Koch, 47, especialista da missão e a primeira mulher a ir à Lua. Em entrevista coletiva, logo após sobrevoar o satélite natural da Terra, ela afirmou que pratica astrofotografia há algum tempo e que, portanto, a missão atual é um sonho realizado.
"Os timelapses que eu tenho tentado têm sido um pouco difíceis, porque estamos em um veículo bem dinâmico. Não é como estar na ISS [Estação Espacial Internacional], onde você consegue pegar as luzes das cidades, as auroras", afirmou Koch, na entrevista coletiva.
Durante o sobrevoo da Lua, Koch comentou com a central de controle da Nasa sobre as texturas lunares que pôde observar usando as câmeras e lentes com zoom de que a tripulação dispõe.
Nos treinamentos no centro espacial, há diversos modelos de veículos, como a próprio Orion, para que os astronautas desenvolvam uma melhor noção sobre questões de espaço e luz que podem aparecer no momento de fotografar.
Em entrevista ao site Spaceflight Now, Victor Glover, 49, piloto da Artemis 2 e o primeiro negro a dar uma volta na Lua, afirmou que a Nasa inflou uma Lua em um galpão e apagou as luzes, para um dos treinamentos de fotografia.
"A maioria das pessoas consegue usar uma câmera e tirar uma foto razoável, mas razoável não é o que buscamos cientificamente. Estamos realmente ensinando os astronautas a ir além do básico", afirmou Willoughby, ao Instituto de Tecnologia de Rochester. "Ser capaz de entender como usar o equipamento e quais são as opções nos dá muito mais capacidade."
Willoughby disse ainda que há imagens que a equipe quer e as fotos das quais eles dependem. "As imagens são os dados deles", afirmou.
"Para o time de geologia e de ciência, essas fotos [do sobrevoo, em altíssima resolução] são ouro", disse Reichert, em entrevista recente para o veículo de notícias Spaceflight Now.
Na mesma entrevista, Reichert comentou a dificuldade de fotografar enquanto se flutua em gravidade zero e até mesmo de problemas em conseguir focar a Lua ?e quais configurações mudar para chegar a um bom resultado. "No espaço é um pouco diferente", disse.
A produção de imagens não serve somente para registro de toda a missão para a posteridade. Como mostra a fala de Willoughby, há também um componente funcionou na coisa.
Em entrevista ao Spaceflight Now, Reichert deu o exemplo de captura de imagens sobre os astronautas se exercitando, para que engenheiros em Terra verifiquem se eles estão usando o aparelho corretamente ?vale lembrar que esse é um fator novo adicionado à missão e desafiador, dado o pequeno espaço disponível.
Apesar da importância das fotos, as observações feitas pelos astronautas com seus próprios olhos também têm sido destacadas pela Nasa como uma oportunidade única de aprendizagem científica.
E, assim como na Terra, nem tudo pode ser capturado nas lentes ao ponto de realmente fazer jus ao que está acontecendo.
"Quando vimos o eclipse [em que a Lua encobriu o Sol], esse foi um momento em que todos nós falamos que não conseguiríamos capturar isso com uma câmera. Mas nos esforçamos para entender e levar [as imagens] para todo o mundo [na Terra]", disse Koch. "Mas ter que ajustar os mecanismos da câmera de pouca luminosidade para 'Earthrise' [a foto da Terra nascendo; na hora, porém, Koch falou 'Earthshine', um outro fenômeno] na Lua, enquanto havia um eclipse...essa foi nova."
