SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Pesquisadores registraram pela primeira vez ?e ao acaso? baleias cachalotes (Physeter macrocephalus) dando cabeçadas nas outras. O comportamento, origem de muitos relatos antigos (alguns do século 18) de que esses animais golpeiam navios, como no famoso conto Moby Dick, de Herman Melville, nunca havia sido confirmado cientificamente.

Os registros foram feitos por drones em áreas próximas aos arquipélagos de Açores (Portugal) e Baleares (Espanha). Os veículos aéreos não-tripulados (UAVs, na sigla em inglês) foram lançados para medir o tamanho e alguns outros hábitos dos animais, e as filmagens surpreenderam os cientistas, segundo Alec Burslem, primeiro autor do estudo.

"Foi muito emocionante para todos nós ver e documentar esse comportamento, que tem sido debatido e especulado desde que as pessoas começaram a estudar essa espécie", disse à Folha o ecólogo, à época pesquisador associado da Universidade de St. Andrews (Escócia) e agora bolsista de pós-doutorado na Universidade do Havaí, em Manoa (EUA).

Os achados foram publicados na segunda-feira (23) na revista especializada Marine Mammal Science.

A observação dos cachalotes estava sendo feita por dois grupos de forma independente, explica ele. Burslem, Rui Prieto, pesquisador sênior, e Mónica Silva, pesquisadora associada, ambos da Universidade de Açores, estavam coletando dados sobre o tamanho corporal de cachalotes e amostras do sopro ("espirro" de água que as baleias soltam pelas narinas ao subir à superfície) com drones quando viram o ataque. "Lembro de Rui gritar ?cabeçada!? e olhar por cima do ombro para ver o que os animais estavam fazendo", conta.

A outra parte da equipe, composta por Luke Rendell, da Universidade de St. Andrews, e Marga Cerdà e Txema Brotons, da Associação Tursiops, uma ONG referência em estudos de cetáceos na Espanha, realizava trabalhos de campo para estudar a distribuição e preferência de habitat dos animais ao redor das Ilhas Baleares. "Em ambos os casos, por acaso estávamos com o drone no ar quando os animais começaram a realizar o comportamento, que capturamos na transmissão ao vivo."

O estudo relata três gravações. Na primeira, não é possível determinar o sexo dos animais. As cabeçadas são de um indivíduo contra o outro. Nas outras duas, dois indivíduos machos jovens são identificados fazendo os golpes entre si; na terceira filmagem, um dos machos golpeia a fêmea com a cabeça na região do tronco, logo abaixo do pescoço.

Como não havia necessariamente um comportamento de exibição sexual envolvido ?por exemplo, se fossem dois machos adultos em busca de acasalamento?, os autores dizem que ainda não há uma resposta definitiva de qual seria o motivo desses golpes.

"Até agora, não temos dados suficientes para dizer qual a explicação mais provável. As hipóteses históricas e relatos dispersos indicam que o comportamento era realizado por machos adultos, mas não foi o que encontramos. O que essas observações parecem confirmar é que os cachalotes, pelo menos às vezes, golpeiam com força considerável usando suas cabeças", afirma.

Os cachalotes são baleias com dentes (grupo Odontoceti), como os golfinhos e as orcas. A estrutura em formato de caixa acústica na sua cabeça é um órgão sonoro grande e altamente especializado cujo interior é preenchido com uma substância cerosa (óleo) e representa aproximadamente de um quarto a um terço do comprimento do seu corpo.

Alguns dos golpes registrados por Burslem e sua equipe tinham uma força considerável, o que levanta a possibilidade também de provocarem danos e lesões aos seus adversários.

"Parte do debate sobre se cachalotes usam as cabeças para golpear outras baleias questiona se isso arriscaria danificar esses órgãos vitais no processo. Essa questão não é fácil de estudar, e não há dados da literatura. O que temos agora são evidências suficientes de que esse comportamento é realmente realizado, então provavelmente os animais não correm risco de lesão; caso contrário, não seria favorecido pela evolução", explica ele.

Para Rui Prieto, ecólogo português ?e filho de um brasileiro?, as novas tecnologias (como os UAVs) apareceram há relativamente pouco tempo nos estudos de biologia marinha, mas abriram novas oportunidades.

"Antes do advento dos drones de baixo custo, era necessário utilizar aviões ou helicópteros [nos estudos com cetáceos]. Agora, qualquer pesquisador pode ter uma pequena plataforma de observação aérea na mochila, com um custo relativamente baixo. Conseguimos registrar comportamentos que, dificilmente, daria para ver a partir de um barco", disse.

Além de aspectos da biologia dos animais ?cachalotes passam 75% do tempo debaixo d?água?, os drones podem também coletar amostras do espirro contendo informações cruciais, como hormônios, microrganismos que infectam ou vivem nos animais e até microplásticos, explica o especialista. "Essas amostras estão ajudando a responder questões complexas. Também podemos utilizá-los para colocar equipamentos de biomonitoramento nas baleias, com sensores de áudio, vídeo e muito mais", afirma.

A equipe não pretende fazer novos trabalhos de campo para verificar se existem outros comportamentos do tipo, mas eles pretendem continuar coletando informações valiosas sobre esse grupo de cetáceos. "Vamos continuar a ver mais coisas interessantes que podem não ter sido documentadas no passado. A comunidade científica pode descrever e reunir tais observações, chegando a um quadro mais completo e sistemático da biologia dos bichos. Se houver pessoas que têm registros em vídeo de cabeçadas ou comportamentos antagônicos em cachalotes, adoraríamos ouvir sobre elas!", diz Burslem.