SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Dois homens que se apresentavam como coaches de pegação foram condenados pela Justiça Federal sob acusação de exploração sexual de mulheres, incluindo adolescentes, durante um evento realizado em 2023 no bairro do Morumbi, zona sul de São Paulo. A decisão, que fixou pena de 17 anos e 6 meses de prisão, foi publicada na última semana e ainda cabe recurso.
Os condenados são o norte-americano Mark Thomas Firestone e o brasileiro Fabrício Marcelo Silva de Castro Junior. Um terceiro acusado, o chinês Ziqiang Ke, não foi julgado neste processo. Na decisão consta que ele não foi localizado, teve o caso desmembrado e o processo está suspenso.
O advogado Nairo Bustamante Pandolfi, que representa Fabrício, afirmou que recebeu a condenação "com inconformismo", embora sem surpresa, e criticou a atuação do juízo. Segundo ele, houve "posição de parcialidade", com episódios de cerceamento da defesa e violação de prerrogativas.
Ainda conforme a defesa, as provas do processo não demonstrariam a prática de crime por parte do réu. "Iremos, sem dúvidas, recorrer desse absurdo jurídico para reverter a decisão o quanto antes", disse. A reportagem não identificou quem realiza a defesa de Mark no processo.
A condenação atende a uma denúncia do Ministério Público Federal, apresentada após investigação da Polícia Civil paulista. O caso ganhou repercussão após reportagens levarem a Agência Brasileira de Promoção Internacional do Turismo (Embratur) a comunicar os fatos à Polícia Federal, o que deu início às apurações.
Segundo o processo, os crimes ocorreram no contexto de um programa chamado Millionaire Social Circle, divulgado como curso de desenvolvimento pessoal voltado a homens estrangeiros com dificuldades de relacionamento.
As investigações apontaram que o grupo organizava encontros, como jantares e festas, para induzir mulheres a situações de exploração sexual, com promessas indiretas de vantagens econômicas, posição social e relacionamentos afetivos.
O principal episódio analisado ocorreu em 26 de fevereiro de 2023, em uma casa de alto padrão no Morumbi. Segundo a denúncia, o evento foi estruturado para atrair principalmente mulheres, com convites gratuitos, transporte por aplicativo pago, bebidas liberadas e registro intenso de imagens, depois divulgadas em redes sociais ligadas ao curso.
O Ministério Público destacou como agravante a presença de adolescentes, incluindo ao menos uma jovem de 17 anos. Relatos de vítimas e testemunhas indicam que não houve controle efetivo de idade na entrada, apesar de a organização afirmar que o evento seria restrito a maiores de 18 anos.
Na sentença, o juiz federal Caio José Bovino Greggio apontou que as mulheres foram retratadas como "resultados" das técnicas ensinadas aos participantes e que havia um ambiente previamente planejado para favorecer interações de natureza sexual.
"Constatadas a autoria e a materialidade, evidenciou-se também o dolo dos acusados, na medida em que, agindo com ardil, induziram e atraíram as vítimas a este esquema transnacional de exploração sexual", afirmou o magistrado.
Para o juiz, houve atuação coordenada entre os envolvidos. Firestone foi apontado como um dos líderes do esquema, responsável pela condução do curso, enquanto Castro Junior atuava na organização logística, incluindo a locação do imóvel e contratação de serviços.
Ambos foram condenados a cumprir pena em regime inicial fechado, além do pagamento de multa. O brasileiro teve a prisão preventiva mantida, sob justificativa de risco de fuga e descumprimento de medidas cautelares. Já o norte-americano poderá recorrer em liberdade.
Com o avanço das investigações em solo brasileiro, o Millionaire Social Circle parou de produzir vídeos e publicá-los em seu perfil no YouTube; o último foi ao ar dez meses atrás. Os conteúdos gravados em São Paulo também foram apagados.
