SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - A abertura do processo de caducidade (rompimento) da concessão da Enel em São Paulo devido a falhas no restabelecimento de energia após apagões provocados por tempestades nos últimos três anos coloca em debate a capacidade de outras empresas do setor em atuar no principal mercado consumidor do país.

Quem assumir a capital paulista e arredores herdará uma rede aérea que se mostrou vulnerável a eventos climáticos extremos, exigindo investimentos imediatos para mitigar os potenciais danos constantemente provocados por quedas de árvores à infraestrutura elétrica.

A área de concessão da Enel em São Paulo apresenta uma densidade populacional média de 2.900 habitantes por quilômetro quadrado. Essa concentração urbana resulta em uma malha elétrica aérea que divide espaço com prédios e casas. O volume de unidades em um território reduzido eleva o impacto de interrupções que podem desabastecer milhares de endereços de uma vez.

Já a cobertura vegetal é o principal entrave operacional para a manutenção da rede. A capital paulista possui mais de 650 mil árvores em vias públicas, muitas delas com altura superior à fiação e localizadas sob redes que não possuem isolamento térmico ou proteção contra contato mecânico. Em períodos de chuvas e ventos, a queda de galhos ou de espécimes inteiros sobre os cabos causa o rompimento de condutores e a destruição de transformadores.

Se as árvores são um problema conhecido nessa área, a repetição de eventos extremos amplia o desafio, segundo Edvaldo Santana, ex-diretor da Aneel. "A área de concessão já era assim antes de 2022, mas os apagões não eram tão longos. O problema é como se adaptar aos efeitos das mudanças climáticas", diz.

Apesar da complexidade da operação, elementos técnicos e operacionais do setor demonstram que o Brasil possui empresas atuando em seu território que poderiam disputar essa sucessão.

Seis empresas que já atuam na distribuição de energia em cidades brasileiras teriam estrutura para atender aos 8,5 milhões de clientes na região metropolitana da capital paulista: Equatorial, CPFL, Energisa, Neoenergia, Copel e EDP. Juntas, elas levam eletricidade a mais de 60 milhões de endereços que equivalem a aproximadamente 65% das unidades consumidoras do país.

Os nomes consideram as bases de clientes das companhias no país, que variam entre cerca de 4 milhões e 17 milhões, entre outros critérios de desempenho e capacidade de investimento e também a operação em grandes áreas urbanas com questões que, se não são iguais, guardam semelhanças com São Paulo, segundo Santana e Jerson Kelman, ex-diretor-geral da Aneel e colunista da Folha.

A Neoenergia, controlada pelo grupo espanhol Iberdrola, é líder em número de clientes com 17 milhões de unidades atendidas. Opera especialmente no Nordeste, tendo sua maior base na Bahia, onde cobre Salvador e todo o interior.

No Sudeste, atua em cidades paulistas como Campinas e Ribeirão Preto, além de ser a responsável pelo fornecimento em Brasília.

Já Equatorial Energia tem capital brasileiro com controle pulverizado, sendo gerida por grandes fundos de investimento nacionais e internacionais. Com uma base de 14 milhões de clientes, destaca-se pela forte presença no Norte e Nordeste

Expandiu sua atuação para o Centro-Oeste e Sul, assumindo as operações de Goiânia e Porto Alegre. A empresa enfrenta questionamentos sobre a lentidão no religamento de energia após o temporal de 2024, mas sem a abertura de um processo de caducidade como o da Enel.

Com 10,9 milhões de clientes, a CPFL Energia pertence à corporação chinesa State Grid, a maior empresa de serviços públicos do mundo. A companhia concentra sua atuação em regiões economicamente importantes de São Paulo, como Campinas, Sorocaba, Bauru e a Baixada Santista.

O Grupo Energisa, empresa de capital brasileiro, atende 9 milhões de clientes com a maior distribuição geográfica entre as empresas listadas. Operando em 11 estados, suas concessões cobrem capitais como Rio Branco, Porto Velho, Cuiabá e João Pessoa, além de manter operações em cidades de Minas Gerais, do Rio de Janeiro e do Paraná.

Com 5,2 milhões de clientes, a Copel tornou-se uma corporação de capital brasileiro com participação minoritária do Governo do Estado do Paraná após sua privatização em 2023.

O foco da sua distribuição é o território paranaense, onde fornece energia para quase todos os municípios, incluindo a capital Curitiba, além de centros regionais como Londrina, Maringá, Ponta Grossa e Cascavel.

Por fim, a EDP Brasil é controlada pela Energias de Portugal, com sede em Lisboa. A empresa gerencia uma base de 3,9 milhões de clientes no Sudeste. Além de ter sua principal base no Espírito Santo, a empresa atende em São Paulo o Vale do Paraíba, o Alto Tietê e o Litoral Norte.

Nenhuma das seis empresas mencionadas foi questionada ou se posicionou à Folha sobre eventual interesse em participar de uma concorrência para substituir a companhia cuja continuidade do contrato é contestada. Os dados foram consultados nas páginas das companhias e submetidos às empresas. A reportagem não conseguiu contato com a Copel antes da publicação.