SÃO CARLOS, SP (FOLHAPRESS) - Primatólogos mapearam pela primeira vez o equivalente a uma guerra civil entre chimpanzés-comuns (Pan troglodytes), os parentes vivos mais próximos dos seres humanos. O conflito já produziu dezenas de mortos de ambos os sexos e de diferentes idades em cerca de uma década, ceifando, portanto, uma parcela significativa da população desses grupos.
Os dados sobre a matança, publicados nesta quinta (9) no periódico Science, são mais uma evidência de como a violência letal entre esses grandes símios ecoa situações que estão presentes entre o Homo sapiens. De fato, a equipe de cientistas, liderada por Aaron Sandel, do Departamento de Antropologia da Universidade do Texas em Austin, argumenta que os combates entre os primatas não humanos podem ajudar a entender como coisas parecidas são desencadeadas na nossa espécie.
Os confrontos descritos pelos pesquisadores estão acontecendo na comunidade de Ngogo, monitorada detalhadamente desde 1995 no Parque Nacional de Kibale, em Uganda (África Oriental). No período "de paz" do grupo, que foi até 2014, os chimpanzés de Ngogo se transformaram na maior comunidade da espécie estudada até hoje, com quase 200 indivíduos, entre os quais mais de 30 machos adultos.
Assim como ocorre em diversas outras espécies de mamíferos sociais, esse grande bando era caracterizado pelas chamadas dinâmicas de fissão-fusão. Ou seja, era comum que, ao longo de atividades como busca de alimento, acasalamento, cuidado com os filhotes e interações sociais, o grupo se dividisse em subgrupos menores (o processo de fissão), cujos membros passavam mais tempo juntos.
Mas esses subgrupos sempre mantinham a coesão com o grupo mais amplo, voltando a se juntar em diferentes momentos (a fusão). Além disso, ficava claramente demarcada a diferença entre a grande comunidade e grupos externos da espécie, em relação aos quais não há possibilidade de "tratados de paz". Pelo contrário: o encontro de um chimpanzé com outro macaco de um grupo diferente sempre termina em confronto ou fuga.
A única possibilidade de contato é quando uma fêmea chega à maturidade sexual e se transfere para outro grupo -os machos, por sua vez, permanecem a vida inteira no grupo em que nasceram, o que facilita a formação de alianças "políticas" e a ascensão dos machos à posição de alfa, o mais dominante do bando.
Tudo isso acontecia conforme o esperado até 2014. Havia "panelinhas" e grupos de aliados, especialmente entre os machos adultos -em geral, reunidos em trios. Mas muitos indivíduos circulavam entre as panelinhas. Cerca de 30% dos membros do grupo trocavam de subgrupo de um ano para outro, e quase metade dos filhotes nascidos até essa data foram gerados por indivíduos oriundos de panelinhas diferentes.
O caldo começou a entornar, ao menos pelo que indicam as observações da equipe, em 24 de junho de 2015. Nessa data, membros de dois subgrupos, designados como "central" e "ocidental" -com base nas áreas do território de Ngogo que costumavam ocupar- estavam se aproximando uns dos outros quando os chimpanzés do subgrupo ocidental, de repente, fugiram dos companheiros.
Imediatamente os chimpanzés do subgrupo central os perseguiram. Depois disso, os protagonistas do episódio ficaram se evitando por um período de seis semanas. O que se seguiu é designado como "polarização" pelos cientistas -o isolamento dos membros em seus subgrupos estanques foi ficando cada vez mais absoluto.
Em 2017, os bichos já tinham passado a usar territórios praticamente separados na floresta, em vez de se encontrar em áreas comuns. Pior ainda, começaram as chamadas patrulhas. São momentos em que machos adultos se reúnem e vão para a "fronteira", tentando pegar desprevenidos os membros de um grupo rival. Ou seja, para todos os efeitos, cada subgrupo já estava tratando o outro como pertencente a um bando diferente.
E, com o estabelecimento das patrulhas, era só questão de tempo para que as mortes começassem, já que, nesses contextos, os chimpanzés patrulheiros promovem linchamentos dos indivíduos do grupo rival que caem nas suas garras. Entre 2018 e 2024, ao menos sete machos adultos do grupo central sofreram esse destino nas mãos (e dentes) dos machos do grupo ocidental.
Além disso, ocorreram 14 infanticídios de 2021 para cá, também cometidos pelo grupo ocidental. A taxa de mortes de adultos e adolescentes machos do grupo central nos ataques pode ter sido ainda maior, porque há outras 14 mortes no período cuja causa não está clara.
As taxas de violência letal na guerra civil são bem mais altas do que as registradas em conflitos parecidos entre grupos de chimpanzés ou mesmo entre sociedades humanas de pequena escala, como a maioria dos caçadores-coletores.
Diante de um fenômeno que, por enquanto, parece não ter precedentes, os pesquisadores aventam uma série de hipóteses diferentes, e talvez complementares, para tentar explicar a situação. Por um lado, o mero tamanho original do grupo de Ngogo poderia ter desencadeado um aumento da competição por recursos alimentares, mesmo numa floresta rica em frutas, e isso teria estimulado a formação de coalizões cada vez mais fechadas.
A mortalidade de membros maduros do bando, seja por velhice, seja por doenças infecciosas, também pode ter enfraquecido os laços sociais de Ngogo -em especial após uma epidemia de problemas respiratórios em janeiro de 2017, que ceifou nada menos que 25 chimpanzés, dos quais 14 eram machos e fêmeas adultos. Talvez as moléstias tenham levado embora "diplomatas" experientes do bando, dando lugar a lideranças menos hábeis e mais violentas, um tipo de mudança que já foi verificado em outras espécies de primatas não humanos.
Para os primatólogos, os dados talvez ajudem a entender como comunidades humanas antes pacíficas também são tomadas por conflitos civis, sem que haja necessidade de grandes diferenças étnicas, culturais ou religiosas para deflagrar o problema.
