SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - O policial rodoviário federal que matou a ex-namorada, a comandante da Guarda Municipal de Vitória (ES), e se suicidou em seguida foi denunciado meses antes do crime por tentativa de estupro contra uma colega de trabalho, em Campos dos Goytacazes (RJ).
À reportagem a ex-servidora, que pediu para não ser identificada, disse que ficou muito abalada quando soube do feminicídio de Dayse Barbosa Matos, em 23 de março. "Dayse foi morta com a arma da PRF enquanto ele devia estar sem arma há muito tempo", afirmou.
De acordo com o diretor do Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa da Polícia Civil do Espírito Santo, delegado Fabrício Dutra, em entrevista ao g1, o PRF Diego Oliveira de Sousa usou a arma da corporação no homicídio, uma pistola Glock 9mm G17.
O caso da ex-servidora aconteceu em 4 de julho de 2025, quando ela e Diego estavam de plantão. Durante o patrulhamento, ela conta que Diego pediu para esticar o percurso da ronda, que ficava a 50 quilômetros da unidade operacional que trabalhavam. "Eu não estranhei porque também fazia parte do nosso trabalho cobrir aquele trecho", lembra.
No meio do caminho, o agente teria dito que pararia numa base para ir ao banheiro e a ex-policial decidiu esperar na viatura. Após um tempo, ela passou a mandar mensagens via WhatsApp, pois o agente estava demorando e a dupla precisava retornar à base.
Como ele não respondia, ela resolveu descer da viatura para usar o banheiro. "Nesse momento, ele me atacou com força, tentando me beijar. Eu colocava a mão na frente da boca dele, não deixava ele me beijar. Eu comecei a falar 'para com isso, Diego'", conta. "Ele falou 'você é muito cheirosa, eu amo o seu cheiro eu não consigo resistir quando eu estou perto de você' e eu falando 'para com isso Diego. O que é isso? Vamos sair daqui'."
Ela relata que tentou afastá-lo de forma educada, mas ele insistia e a empurrou para dentro do banheiro. "E na parede dos fundos ali, ele tentou tirar minha blusa, passou a mão no meu seio, passou a mão na minha perna, passou a mão em mim e eu tentando me desvencilhar dele", lembra.
Na ocasião, ela afirma que Diego estava sem o cinto de guarnição onde a arma é guardada e ainda tirou o cinto dela. A única peça que ela tinha nas mãos era a chave da viatura. "Eu falei 'Diego, eu vou te furar aqui. Para com isso. Eu já falei que eu não quero. Se você continuar, eu vou te furar. Eu vou precisar furar teu pescoço para você parar?'".
Segundo a ex-servidora, o PRF ficou mais agressivo e tentou abrir o cinto da sua calça. "Eu comecei sacudir ele e, quando eu gritei que aquilo era um estupro, ele parou", diz. "Ele me olhou como quem acabou de usar alguém, virou as costas para mim, pegou meu cinto, me entregou e fiquei tremendo."
A vítima decidiu voltar para a viatura por medo de pedir ajuda. "Eu me senti impotente. Me senti vulnerável e me julguei. Não consegui me proteger. Não consigo proteger mais a sociedade. Falhei como policial, falhei comigo e só queria sair dali", conta.
Ela afirma que Diego ainda teria a questionado o motivo de ela ter recusado se relacionar com ele. Ali, ela ainda tentou acionar um superior por mensagem, mas não teve resposta. "Quando voltamos para o posto, eu desci da viatura e entrei chorando."
A vítima afirma que foi bem acolhida pelos chefes e que foi dispensada para ir para casa no dia. Ela só conversou com o marido no final de semana sobre o que houve pois ficou com medo de ele, que também é policial, fazer algo.
Em 7 de julho de 2025, ela registrou um boletim de ocorrência por tentativa de estupro na Delegacia de Atendimento à Mulher da Polícia Civil do Rio de Janeiro. A assessoria confirmou que o caso foi remetido à Polícia Federal por ter ocorrido dentro de uma dependência da União. Segundo a vítima, a investigação ficou parada desde então. A PF não se manifestou até a publicação deste texto.
Paralelamente, a Polícia Rodoviária Federal abriu um procedimento administrativo disciplinar (PAD) por entender que existiam indícios suficientes de "condutas escandalosas", "de elevado grau de reprovabilidade social" e "em afronta grave à moralidade administrativa que, em tese, violaram a liberdade sexual da servidora, culminando, aparentemente, em sérios prejuízos e impactos a sua esfera pessoal".
Conduta escandalosa em repartição pública é uma infração prevista na Lei 8.112/1990 que pode provocar demissão do servidor.
Nesse período, a vítima afirma que ela passou a trabalhar em outro departamento da corporação, mas ainda sentia receio de encontrar Diego, já que não havia afastamento determinado oficialmente.
Em outubro do ano passado, ela solicitou no âmbito do PAD que houvesse o afastamento bem como a suspensão do porte de arma de Diego, mas o superintendente da PRF no Rio de Janeiro, Vitor Almada da Costa, seguiu o parecer opinativo da comissão que acompanha o caso e negou o pedido. Ele determinou apenas a proibição de contato e a mudança de escala de trabalho para que os dois não se encontrassem.
A comissão argumentou no parecer obtido pela reportagem que a suspensão do porte de arma não era necessária "diante da ausência de indícios de ameaça direta ou indireta".
"Vivi todos esses meses com muito medo", diz a ex-policial. "Fui uma vítima, mas o problema disso tudo é que a PRF foi omissa, ou inerte, ou morosa. Acho que morosidade é a melhor palavra. A PRF deixou ele trabalhando no operacional com uma arma na cintura, quando esse cara devia estar dentro do [serviço] administrativo sem arma."
Segundo ela, havia alguns colegas de trabalho que minimizavam a denúncia. "Diziam que eu ia acabar com a vida do cara, que não era bem assim", afirma.
Procurada pela reportagem, a PRF disse que Diego estava em serviço ativo e "se manteve na escala operacional uma vez que levou-se em consideração a medida cautelar "vedação de contato", que previa distanciamento entre os envolvidos dentro da logística operacional, de modo a afastar qualquer contato direto ou indireto entre os servidores".
A corporação afirmou que não suspendeu o porte de arma do policial "em razão de ausência de ameaças diretas ou indiretas por parte do servidor, não havendo sido realizada, pela servidora, nenhuma comunicação de ações que representassem risco à sua integridade física, moral ou psicológica".
A assessoria disse, ainda, que não é possível relacionar o caso com o feminicídio de Dayse por ter sido uma "conduta subjetiva" de Diego.
