SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - No conto "Na Colônia Penal", de Franz Kafka, publicado pela primeira vez em 1919, uma máquina de tortura grava no corpo do condenado, com centenas de agulhas, a sentença que ele precisa cumprir. Foi essa imagem que me veio à cabeça quando começaram a aplicar a anestesia para o meu transplante capilar.
Foram dezenas de picadas no meu couro cabeludo, uma atrás da outra, injetando pequenos volumes do líquido anestésico a cada vez --e, no meu caso, doeram bastante. Mas muito mesmo.
Nas primeiras injeções, eu apenas apertava os dedos dos pés. Depois, comecei a mexer as pernas com a dor. Em alguns momentos, já no limite, cheguei a reclamar em voz alta --e a soltar alguns palavrões.
Com isso, não quero incutir medo nem desestimular quem pensa em fazer um transplante desses. Mesmo porque foi meia hora de sofrimento para passar o resto da vida cabeludo. E eu tive azar, parece.
O repórter da Folha Ivan Finotti, que se submeteu recentemente a um transplante capilar Danilo Verpa Folhapress Imagem pequena **** Um colega meu da Folha, que fez transplante no final do ano passado, disse não ter sentido nada no momento da anestesia. Mas eu acho importante destacar que a anestesia pode doer bastante, pois não havia lido nada parecido na minha pesquisa e não estava psicologicamente preparado para aquela dor.
Falando em colega meu, para qualquer lugar que se olhe há exemplos desse procedimento. O apresentador do BBB, Tadeu Schmidt, realizou um no final de 2024. O sambista Diogo Nogueira acaba de fazer o segundo, porque o resultado do primeiro ficou aquém do desejado. E o presidenciável Ronaldo Caiado (PSD) fez aquele que preserva o cabelo existente sem necessidade de raspar a cabeça.
A minha cirurgia, no entanto, foi com cabelo raspado e durou de seis a sete horas. Começou por volta das 9h30 e terminou perto das 16h. Depois da anestesia, toda a parte de trás da cabeça -a nuca e ao redor- virou área de doação. Dali que saíram os folículos que depois seriam implantados na região com menos cabelo.
Aos 55 anos, minhas entradas já tinham avançado de forma considerável em direção ao meio da cabeça, e a coroa -a região no topo- estava completamente careca. Havia, portanto, duas áreas principais a serem cobertas: a parte frontal e o cocuruto.
Pela avaliação feita na manhã do procedimento, a médica disse que eu poderia retirar cerca de 4.800 folículos. Não foi o que aconteceu. Segundo a médica, meus fios estavam mais finos e quebradiços do que o previsto e, no fim, foram extraídos 3.964 folículos.
Fiquei deitado em uma espécie de cadeira de massagem, com um vão para encaixar o rosto. Naturalmente, a posição, mantida por horas, vai ficando desconfortável. Em alguns pontos da nuca, a retirada dos folículos pode doer.
Já na implantação dos folículos retirados, não senti nada. Provavelmente a anestesia já estava agindo. No fim, quando deitei de costas para a etapa final --a correção das entradas--, cheguei a dormir.
Terminado o procedimento, as enfermeiras trouxeram uma refeição --eu não podia sair dali sem comer. Fui embora apenas após a chegada da minha acompanhante, outra exigência da clínica.
Se a careca estava me incomodando, eu resolvi mesmo fazer o transplante capilar depois de perceber uma queda expressiva dos preços nos últimos anos. "Era quase um artigo de luxo", afirma a dermatologista Anna Cecília Andriolo, presidente da Associação Brasileira de Cirurgia da Restauração Capilar (ABCRC).
"Foi a partir da Covid que estourou a procura", diz ela. Andriolo aponta dois fatores principais para esse salto. O primeiro foi o isolamento social, que permitiu que muitos pacientes realizassem o procedimento longe do olhar de outras pessoas. "A maioria dos homens que faz não gosta de falar, nem indica o profissional por vergonha."
O segundo foi o efeito das videochamadas. "As pessoas começaram a se ver mais. Ninguém se olha tanto no espelho, mas de repente você começa a participar de reuniões em videoconferência, onde sua câmera também aparece, e passa a se olhar mais", opina.
Com o aumento da demanda, mais profissionais passaram a atuar na área. No meu caso, a escolha da clínica começou por uma pesquisa no Instagram, onde encontrei anúncios de procedimentos a partir de R$ 10 mil. Após as primeiras visualizações nesse assunto, a rede social me inundou com posts de clínicas, de médicos e de pacientes de transplante capilar.
A escolha da clínica teve três motivos principais. O primeiro foram fotos da área cirúrgica da clínica, que me pareceu bastante profissional. O segundo fator foi a reputação online. A clínica tinha avaliação de cinco estrelas no Google, com 97 votos, e apenas uma entrada no site Reclame Aqui, registrada anos atrás --era um relato confuso e não deu para entender bem o problema mencionado.
A terceira razão foi o preço. Os valores de que ouvia falar para um transplante desses, antes da pandemia, eram pelo menos o dobro ou até três vezes mais. Pagar R$ 14.800, e ainda divididos em 12 vezes no cartão, me pareceu incrível.
Por fim, vale dizer que não me apresentei como jornalista, nem contei que iria escrever sobre o assunto. Se isso fosse revelado, eu poderia ter um tratamento especial e esse relato perderia um pouco da utilidade para o leitor interessado em fazer a cirurgia.
Apesar da existência da ABCRC, não há como descobrir o tamanho desse mercado atualmente no país. "Hoje, qualquer médico pode realizar o procedimento no Brasil. A gente só tem controle dos nossos associados. O que acontece fora disso é muito difícil de mensurar", diz a presidente da associação.
Um levantamento da ABCRC de 2023 ouviu 68 de seus médicos associados, contabilizando uma média de 96 cirurgias por ano para cada um deles. Isso significa uns 6.500 transplantes no país em 2022. É claro que o número real é muito maior.
Lá fora, o problema de mensuração é o mesmo. A International Society of Hair Restoration Surgery adota atualmente a mesma metodologia da associação brasileira e traz informações enviadas pelos associados --pouco mais de mil no mundo todo.
Andriolo afirma que o Brasil já ocupa posição relevante no cenário internacional e começa a atrair estrangeiros. "Já existem muitos pacientes que vêm de fora para operar aqui."
Ao mesmo tempo, ela faz um alerta sobre o modelo de turismo médico popularizado por destinos como a Turquia, que incluem nos preços das cirurgias duas ou três noites de hospedagem e limusines para ir e vir do aeroporto. Os preços variam de 2.500 euros (cerca de R$ 14.700) a 5.000 euros (R$ 29.400).
"A medicina não tem nada a ver com turismo. Muitas vezes quem compra um pacote desses não sabe quem vai operá-lo nem tem acompanhamento depois."
A entidade brasileira prepara um novo censo, com participação ampliada, com divulgação prevista para maio.
