SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Há 90 anos, anúncios na imprensa convidavam os paulistanos à inauguração do Campo de Aviação da Auto Estrada Santo Amaro. Aquela "tarde da aviação" de 12 de abril de 1936 era destacada pelas demonstrações de pilotos e a exibição do projeto do que ali se iria construir: o Aeroporto de Congonhas.
A partir de um campo com uma pista de chão batido que teria sido implantada em 20 dias --com um quarto do comprimento previsto para o aeroporto-- surgiu aquele que é hoje o segundo aeródromo mais movimentado do país. Somente em fevereiro deste ano, 1,8 milhão de passageiros passaram pelo terminal da zona sul de São Paulo.
O aniversário chega em mais um momento de expansão do aeroporto, a qual também irá contemplar remanescentes do passado. O restauro dessa memória ainda presente em Congonhas deve começar em breve, com a expectativa de autorização em cerca de 30 dias.
A primeira etapa envolverá 18 obras de artistas renomados, com as atividades realizadas in loco mesmo de peças que poderiam ser removidas. A decisão é vista como uma forma de aproximar os frequentadores à história do espaço.
Mais adiante, a restauração também contemplará outros elementos tombados como patrimônio cultural. Isso inclui o piso quadriculado, a escadaria e o forro de gesso do saguão principal, a fachada histórica, o antigo hangar com estrutura de madeira e o pavilhão de autoridades. Por enquanto, os trabalhos têm sido de conservação.
"O aeroporto é edifício-máquina. As pessoas passam, às vezes, com a cabeça em outros lugares, pensando em viagem, trabalho, lazer. Muitas vezes, não reparam na importância daquela edificação", comenta o arquiteto Igor Carollo, contratado pela Aena para os restauros em Congonhas.
A lista de obras de arte inclui a escultura em bronze de Santos Dumont feita por Victor Brecheret, disposta no jardim frontal; o mural "Os Trabalhadores", de Di Cavalcanti e Clóvis Graciano, do pavilhão de autoridades; e o mosaico de pastilhas de Hernani do Val Penteado e Raymond A. Jehlen, arquitetos autores do projeto do terminal, localizado na escada que liga o saguão ao subsolo.
Novas atividades educativas também estão nos planos da concessionária. Uma primeira experiência piloto ocorreu na Jornada do Patrimônio de 2025, que teve "altíssima procura" para a visitação do pavilhão de autoridades --cujo acesso, via de regra, é restrito a presidentes, ministros e outras figuras de alto escalão.
Até 2028, o restauro do restante dos remanescentes históricos deverá ser entregue, como previsto no contrato de concessão. A principal intervenção envolverá o antigo hangar da Varig, que passará por remodelação para se tornar o terminal de embarque remoto, nos ônibus de acesso até as aeronaves. "É a cereja do bolo, por ser uma área muito restrita que poderá ser contemplada", aponta o arquiteto.
CONGONHAS: RETRATO DE SÃO PAULO
Para o arquiteto e urbanista Wesley Macedo, que estudou Congonhas na tese de doutorado, muito se perdeu da ideia original, mas ainda se trata de um aeroporto diferente. "Uma pessoa, mesmo sem saber de nada, pode sentir quando vê o piso trabalhado, as 'janelinhas de avião' na escada, o forro com um desenho futurista", diz ele, também professor da Uninove.
Congonhas foi criado como uma alternativa ao histórico de alagamentos do Aeroporto do Campo de Marte, que sofria com neblina e alagamentos nas cheias do Rio Tietê. Foi implantado em uma área então recém-encampada à capital paulista, após a anexação da antiga cidade de Santo Amaro.
O terminal principal atual foi inaugurado em 1955, de estilo art déco, conhecido pelas linhas retas e onduladas. Em 2011, teve parte dos remanescentes históricos tombados como resposta às descaracterizações ao longo das décadas e forma salvaguarda ao que foi preservado.
Macedo aponta, contudo, que as alterações arquitetônicas, a urbanização do entorno e outros fatores mudaram a relação das pessoas com o aeroporto. Hoje, não é mais visto como uma opção de passeio para famílias, por exemplo, que visitavam a pracinha, os terraços e outros espaços não mais existentes.
"Foi o primeiro com características de uma São Paulo, 24 horas, ainda na década de 60", avalia ele, pelas opções de lazer, do restaurante às festas. Registros apontam até mesmo bailes de carnaval e casamentos no local.
Outra mudança paulatina apontada pelo arquiteto envolve como a "cidade se aproximou do aeroporto", hoje uma "ilha" cercada por intensa urbanização. Nesse cenário, de demolição e construção, também passou por alterações, algumas inevitáveis, outras nem sempre para melhor.
"É um exemplo de como a cidade de São Paulo foi crescendo e se transformando. Era um na década de 1950, outro na década de 1970, outro na de 1980... Hoje está em expansão, tem [estação de] metrô", compara.
