SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - William J. Seymour, um filho de ex-escravizados parcialmente cego, com nenhuma ou pouca instrução além da Bíblia, certo dia recebeu um chamado. Na parte pobre de Los Angeles, numa rua chamada Azusa, liderou no dia 14 de abril de 1906 um culto que reconfiguraria todo o campo protestante.

Surgia ali o que o teólogo Harvey Cox descreve como "um movimento cujo impacto sobre o cristianismo que tem sido comparado à Reforma Protestante".

Há 120 anos, o pentecostalismo brotava num ex-estábulo onde, nos dias de chuva, ainda dava para sentir o cheiro dos cavalos. O mobiliário era improvisado: como banco, tábuas estendidas sobre barris; de púlpito, caixas de sapato empilhadas.

"Na história da religião, por vezes acontecimentos aparentemente insignificantes em locais obscuros acabam tendo uma repercussão enorme", diz Cox em "Fogo do Céu - A Ascensão Pentecostal e a Reformulação da Religião no Século 21". Foi o caso da Azusa. Em questão de dias, toda Los Angeles ficou sabendo das reuniões narradas pela imprensa da época com doses generosas de espanto e preconceito.

O jornal Los Angeles Times relatou a ocorrência de "cenas selvagens" e um "balbuciar estranho de línguas". Participantes eram chamados de "loucos por Deus", uma gente "demente ou endemoniada". Do Los Angeles Daily Times: "Brancos e negros se misturam em uma loucura religiosa".

O desprezo midiático não inibiu a ida de mais e mais pessoas à igrejinha do bairro negro da cidade, para conferir de perto o que acreditavam ser dons do Espírito Santo manifestados num avivamento espiritual.

A experiência na Azusa logo extrapolou fronteiras. Missionários levaram o que chamavam de "fogo pentecostal" inclusive ao Brasil, onde dois suecos desembarcaram em Belém, em 1911, dando origem à Assembleia de Deus. O movimento cresceu de forma descentralizada até alcançar os grandes centros urbanos.

Esse percurso invertido, da periferia para o centro, ajuda a explicar a singularidade brasileira. Se denominações históricas como a presbiteriana começaram em áreas urbanizadas, o pentecostalismo avançou entre populações com menor acesso a serviços públicos e instituições formais. "A igreja chega aonde o Estado não chega. É até uma brincadeira que a gente cresce escutando: onde tiver uma agência do Banco do Brasil, vai ter uma Assembleia de Deus", diz o pastor Teo Hayashi, da Zion Church.

A capilaridade se dá a partir de igrejas menores que, ao crescerem, se dividem e se multiplicam. O resultado foi uma rede densa de comunidades locais. "Esse padrão produziu um forte senso de pertencimento. As pessoas se conheciam pelo nome, mantinham vínculos concretos, facilitados pela proximidade geográfica e pelo tamanho reduzido das congregações", diz Gutierres Siqueira, autor de "Quem Tem Medo dos Evangélicos? Religião e Democracia no Brasil de Hoje".

Siqueira lembra de uma previsão feita nos anos 2000 pelo historiador Philip Jenkins: o futuro do cristianismo estaria nos países em desenvolvimento e teria forte caráter pentecostal. A hipótese se confirmou. África, América Latina e partes da Ásia concentram hoje a expansão mais acelerada do movimento.

O protagonismo feminino é decisivo aqui. Mulheres negras de classe baixa, maioria nas igrejas brasileiras, são as que sustentam a vida comunitária, ainda que, em geral, sob liderança masculina. A antropóloga Regina Novaes afirma que essa base social redefine a imagem do evangélico brasileiro, muito associada, de forma distorcida, a grandes templos e lideranças midiáticas.

No início do movimento pentecostal no Brasil, havia entre evangélicos veteranos um misto de rejeição e admiração pela safra pentecostal, diz a autora de "Os Escolhidos de Deus: Pentecostalismo, Trabalhadores e Cidadania". Novaes cita entrevistas que fez nos anos de 1980 com presbiterianos. Ouviu falas que "ativam o preconceito racial", como a fiel que disse haver poucos negros entre eles porque "preto não gosta de Evangelho: é samba, é feitiçaria".

Outra, essa de um pastor: "Nós não temos aqueles gritos de Aleluia. Achamos muito infantil e fruto de influências até pagãs, pessoas que quase entram em transes".

Essa visão negativa na elite protestante não impediu a pentecostalização de denominações. Muitas incorporaram elementos como glossolalia (o falar em línguas tão comum em igrejas pentecostais). Daí termos hoje, por exemplo, não só o batista histórico, mas também o pentecostalizado. É o caso da Igreja Batista da Lagoinha, liderada por André Valadão.

Fenômeno semelhante foi observado também no catolicismo, com a Renovação Carismática. Para o teólogo e pastor Kenner Terra, trata-se de uma resposta a um "vácuo extático" deixado por formas mais racionalizadas de religiosidade. "Burocratização e racionalismo institucional foram perdendo espaço, e os pentecostais, com lideranças autóctones, flexibilidade, linguagem popular e espiritualidade efusiva, conseguiram responder melhor às questões reais e cotidianas das pessoas."

O pentecostalismo tem por marca cultos mais emocionados do que a liturgia protestante histórica. Também rompe com a crença teológica de que dons miraculosos do Espírito Santo cessaram no passado. Profecias, curas e falar em línguas estranhas continuariam entre nós, portanto.

Especialistas falam em "pentecostalismos", no plural. Há desde vertentes clássicas até expressões mais alinhadas à chamada teologia da prosperidade, enquadradas como neopentecostais e marcadas por promessas de ascensão material. Universal do Reino de Deus e Renascer em Cristo estão aqui.

Com o tempo, as fronteiras entre uma linha e outra foram borrando. É comum, para quem é de fora do segmento, rotular Silas Malafaia de neopentecostal, por exemplo. Mas ele pastoreia uma variante da pentecostalíssima Assembleia de Deus. Por isso, estudiosos destacam zonas de influência mútua entre diferentes linhas evangélicas.

ONTEM E HOJE

Nos últimos anos, uma nova configuração ganha espaço: comunidades mais jovens, digitais e menos institucionalizadas. Igrejas com estética moderna, as chamadas "de parede preta", investem em redes sociais e se aproximam da lógica de influenciadores e coaches. A pandemia acelerou esse processo, tornando a mediação tecnológica central na prática religiosa.

Diz a Bíblia que o primeiro Pentecostes cristão, que marcou a descida do Espírito Santo sobre os apóstolos, ocorreu no ano da morte e ressurreição de Jesus Cristo.

Há uma coincidência numérica com os 120 anos da onda pentecostal: teriam sido 120 seguidores de Jesus, incluindo Maria, sua mãe, a presenciar a cena. Segundo as escrituras, o grupo passou a falar em outras línguas, episódio que deslanchou a Igreja cristã.

Foram vários os elementos históricos que, combinados com experiências de fé únicas a cada pessoa, favoreceram o despertar pentecostal quase dois milênios depois. Nas palavras de Harvey Cox, "mesmo com as fagulhas da rua Azusa sendo tão minúsculas, o pentecostalismo se tornou um incêndio florestal completo".