SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Entre simulados, revisões e a pressão da escolha profissional, as listas de leituras obrigatórias figuram entre os maiores desafios dos vestibulares. Conciliar essas obras com a rotina intensa de estudos exige muito mais do que força de vontade: demanda estratégia, planejamento e a construção de um hábito de leitura que muitos jovens ainda não consolidaram.

Para a estudante Júlia Yoshimatsu, 17, uma das maiores dificuldades nessa fase é o choque entre a quantidade de obras exigidas e o tempo. A candidata, que deseja uma vaga na área de engenharia, conta que o nível de cobrança vai muito além da simples memorização.

No ano passado, a estudante realizou o vestibular da Unicamp como treineira e a experiência foi um divisor de águas em sua preparação. "Não basta só ler um resumo ou só ver uma videoaula. Para responder às questões, principalmente as de segunda fase, você precisa ter tido o contato com o livro e entender a mensagem que o autor quis passar", relata Júlia. A universidade de Campinas exige oito títulos, além de uma seleção de canções.

Para evitar o desespero e o acúmulo da leitura dos livros, as especialistas consultadas pela reportagem concordam que a saída é a organização estruturada.

A professora Luiza Machado, coordenadora de inovações pedagógicas da Elite Rede de Ensino, ressalta que criar um hábito literário do dia para a noite é uma saída direto para a frustração.

"Se o estudante criar uma meta absurda, do tipo ler 50 páginas por semana sendo que não tem o hábito, isso vai acabar gerando uma ineficácia. O ideal é começar com metas pequenas, como dez minutos por dia, e ir aumentando conforme o estudante sente que está progredindo. O segredo é gerar confiança de que é de planejar, cumprir e ser capaz de continuar", explica a coordenadora.

Manter o ritmo até o mês das provas exige também flexibilidade. Patrícia Cajai, professora de língua portuguesa do Colégio Marista Arquidiocesano, sugere que o cronograma deve ser maleável o suficiente para se adaptar aos imprevistos da vida de um jovem, contanto que a meta traçada para a semana seja cumprida.

Segundo a professora, o autoconhecimento do estudante é fundamental para que ele consiga definir o seu próprio perfil de leitor e o método mais adequado à sua realidade. "Para alguns, a leitura flui melhor logo cedo; para outros, é um momento de relaxamento antes de dormir. O importante é que esse tempo seja 'sagrado' e produtivo para ele", afirma Patrícia.

Júlia conta que tentou controlar cada segundo de sua rotina no início do ano letivo, mas que a tentativa resultou apenas em frustração. A partir dessa experiência, ela aprendeu que é preciso estipular metas realistas e ter disciplina para cumprir todas. "Não somos máquinas e não vamos conseguir cumprir tudo."

Uma dúvida frequente é a viabilidade de ler vários livros de bancas diferentes ao mesmo tempo -só na Fuvest, por exemplo, são nove obras. De acordo com Machado, obras mais densas e interpretativas exigem dedicação exclusiva e solitária, mas livros de poesia ou coletâneas de contos curtos podem ser consumidos de forma mais pausada, paralelamente a outras leituras.

"O estudante pode ter um livro de 'cabeceira' para uma leitura mais lenta e focar a sua energia principal em um romance mais longo. Para espantar o tédio, o aluno também pode agrupar os livros por escolas literárias, o que ajuda a criar um panorama histórico na mente", explica a coordenadora.

No entanto, ler o livro não garante que os detalhes estarão frescos na memória até os meses da prova. Por isso, uma técnica recomendada pela professora Patrícia Cajai é a confecção de "fichas de leitura".

O método consiste em registrar informações importantes imediatamente após a leitura de cada capítulo. "Anotar o contexto do autor, o enredo, as personagens principais e, especialmente, as questões sociais que a obra levanta", exemplifica.

"É importante também registrar que tipo de repertório próprio -como filmes, dados do dia a dia, podcasts ou canções- dialoga com aquela narrativa específica. Isso transforma a leitura passiva em um estudo ativo", explica.

Júlia conta que, em seus momentos mais livres, ela define metas curtas de leituras. "Se eu falar que vou ler metade do livro em um dia, não vou conseguir, vai ficar frustrante e causa aquela angústia no peito", ressalta a estudante.

Para evitar esse desgaste, ela fragmenta o estudo em momentos, como logo após o almoço ou antes de dormir. "A chave deste ano é tentar conciliar as coisas e salvar o seu tempo", afirma a jovem, que aproveita até o instante de secar o cabelo para ouvir as canções da Unicamp.

Outra dificuldade comum é a barreira do vocabulário rebuscado ou de estruturas textuais pouco usuais de alguns livros -que variam de contos contemporâneos a densos romances do século 19. Para superar isso, compreender o contexto de produção do texto também é importante.

Como exemplo dessa estratégia, a estudante Júlia cita que entender a trajetória do autor Caio Fernando Abreu e os impactos da epidemia de HIV em sua vida mudou completamente sua percepção ao ler "Morangos Mofados".

Para quem chega ao meio do ano sem começar as leituras, as especialistas garantem que ainda há tempo, desde que haja estratégia. A dica é realizar uma leitura focando obras inéditas nas listas ou naquelas que possuem maior peso histórico.

"O aluno deve priorizar entrar em contato com o texto original, mesmo que em um ritmo mais acelerado, para criar seus próprios sentidos. O que o vestibular quer não é a decoreba, é a sua experiência interpretativa", ressalta Machado.

COMO ENCARAR AS OBRAS OBRIGATÓRIAS DOS VESTIBULARES

_Com base nas dicas e recomendações das professoras Patrícia Cajai e Luiza Machado, confira os principais pontos para organizar sua rotina de leitura:_

**Metas graduais**

Não tente ler várias páginas de uma vez se não tiver o hábito. Comece com metas pequenas (15 a 20 minutos diários) para gerar uma sensação de progresso e "autoeficácia".

**Fichas de leitura**

Ao terminar um capítulo ou livro, anote o contexto histórico, as características dos personagens, o enredo principal e as críticas sociais. Relacione a obra com seu repertório pessoal, como filmes, notícias e músicas.

**Cronograma flexível**

Planeje as leituras da semana, mas faça ajustes de acordo com os imprevistos. O importante é que a meta semanal seja cumprida.

**Agrupamento por estilo**

Tente ler obras de uma mesma escola literária em sequência. Isso ajuda a consolidar o entendimento do movimento artístico e do contexto histórico.

**Intercalar livros**

Você pode ler um livro denso (romance) ao mesmo tempo que um mais "leve" (poesia ou contos), mas evite misturar dois romances complexos para não confundir as tramas.

**Leitura com tempo curto**

Se o tempo estiver curto, foque obras que entraram recentemente na lista ou naquelas com temas sociais muito fortes. Priorize o contato direto com o texto em vez de depender apenas de resumos.