BOGOTÁ, COLÔMBIA (FOLHAPRESS) - "Se tivessem nos dado as chaves do módulo de pouso, teríamos descido e pousado na Lua." A afirmação foi feita nesta quinta-feira (16) pelo americano Reid Wiseman, 50, quase uma semana após a missão comandada por ele, a Artemis 2, retornar à Terra.
A missão foi a primeira jornada lunar tripulada deste século. Além de Wiseman, formavam a tripulação Victor Glover, 49, Christina Koch, 47, e Jeremy Hansen, 50. Eles iniciaram a viagem no dia 1º de abril, contornaram a Lua e voltaram ao planeta na última sexta (10).
Nesta quinta, durante uma entrevista concedida ao lado dos demais astronautas da Artemis 2, Wiseman afirmou que teve uma pequena epifania técnica enquanto viajavam ao redor do satélite natural. "E estou te dizendo agora, se tivéssemos um módulo de pouso de primeiro voo a bordo daquela coisa, eu sei que pelo menos três dos meus colegas de tripulação teriam entrado nele tentando pousar na Lua."
Segundo ele, descer no satélite não seria "o salto que pensava que era". Porém, ele complementou em seguida, reconhecendo os desafios que ainda estão pela frente para que a humanidade volte a pisar, de fato, no solo lunar. "Vai ser extremamente desafiador tecnicamente, mas a equipe precisa aparecer todos os dias sabendo que é absolutamente possível. E é possível para breve."
Wiseman também comparou a situação a missões Apollo que também chegaram perto da Lua e não pousaram nela. "A Apollo 8 contornou a Lua, a 9 ficou em órbita baixa da Terra, a 10 quase pousou na Lua. E eu conversei com alguns desses cavalheiros no passado. E eles disseram que, se tivessem combustível suficiente, teriam feito isso [pousado]."
Em seguida, Hansen completou dizendo ser necessário que os envolvidos no programa lunar estejam dispostos a aceitar um pouco mais de risco.
"Não vamos conseguir ajustar tudo antes de partir. Vamos ter que confiar uns nos outros, nas tripulações e no controle de missão para resolver problemas reais", disse Hansen. "Quem for lá fora fazer essas coisas precisa entender que pode ficar bem turbulento, bem rápido, e que se deve estar preparado para encarar isso."
A Nasa planeja um novo voo rumo à Lua em 2028, a Artemis 4. E, desta vez, sim, para pousar no satélite. Mas tudo isso depende do avanço do desenvolvimento dos módulos lunares necessários para a tarefa. Um deles está nas mãos da SpaceX, de Elon Musk, e o outro na Blue Origin, de Jeff Bezos.
A ideia da agência espacial americana é testar um desses módulos ?ou quem sabe ambos? em um voo em órbita baixa da Terra em 2027. Essa missão é a Artemis 3.
O CASO DA PRIVADA
A inusitada privada defeituosa da Artemis 2 voltou a ganhar atenção. O objeto, apesar do defeito, recebeu elogios ?vale mencionar que é a primeira missão lunar que conta com um banheiro e uma privada, tal qual estamos acostumados; as do programa Apollo usavam sacos de dejetos, que foram deixados na Lua.
"Aquele era um vaso sanitário maravilhoso. O vaso funcionava muito bem, mas tivemos um problema", disse Wiseman. "Nos dois primeiros dias da missão, era divertido ver aquilo sendo despejado. É uma coisa interessante de se ver pela janela, é como um bilhão de pequenos flocos de gelo indo em direção ao espaço profundo."
O comandante da missão ainda chamou de grandes engenheiros os responsáveis pelo desenvolvimento do vaso sanitário da Artemis 2. "Eu não quero que eles fiquem de cabeça baixa. Eles deveriam estar de cabeça bem erguida. Foi um equipamento excelente."
SONO ESPACIAL
"Dormir no espaço é o melhor sono de todos", afirmou Koch. Segundo ela, o sono espacial é pacífico e confortável. Durante a missão, Wiseman chegou a brincar que a colega dormia como um "morcego pendurado no nosso túnel de acoplamento".
Com ampla experiência em permanência no espaço, Koch disse ainda que, nos primeiros dias após o retorno à Terra, ao acordar, pensava que estivesse flutuando.
"Eu realmente pensei que estava flutuando e tive que me convencer de que não estava", afirmou. "Mesmo depois de 328 dias no espaço na minha missão anterior, eu nunca fiz aquela coisa em que você acha que algo vai flutuar na sua frente. Eu fiz isso nesse retorno. Coloquei uma camiseta no ar e ela foi 'tchum' [Koch fez um som com a boca e moveu a mão para baixo, sinalizando algo caindo]. Na verdade, me surpreendeu."
