SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Depois das longas ondas de calor que assolaram a região Sudeste do Brasil em 2023 e 2024, o El Niño deve voltar este ano ?o que causa inquietação naqueles que vivenciaram as inundações históricas no Rio Grande do Sul e os incêndios florestais e nuvens de fumaça que cobriram grande parte do país.

Em São Paulo, a expectativa é de o fenômeno aumentar a crise hídrica por que passa o sistema Cantareira, responsável por 50% do abastecimento de água da região metropolitana.

Se levarmos em consideração o nível dos mananciais no início do outono, percebemos que este ano a situação pode ficar muito complicada para os paulistas. Isso porque no dia 19 de março de 2023 e 2024 os níveis do sistema Cantareira estavam em 79,6% e 76,7%, respectivamente. Este ano, era de apenas 42,7%, o volume mais baixo em dez anos, desde a grande crise hídrica de 2014 a 2016.

"O desempenho do Cantareira, abaixo de 50%, não foi surpresa. É preciso lembrar que o nível de armazenamento estava muito baixo no começo do período úmido, por causa da insuficiência de chuva nos dois últimos verões. Chegar ao fim de um verão com menos de 50% de armazenamento não é uma situação nada confortável", diz a meteorologista Josélia Pegorim, da Climatempo. "A chuva que cair agora não vai compensar as perdas naturais que vão ocorrer pela evaporação natural e pela falta de chuva prolongada."

"Sistemas como o Cantareira não devem enfrentar problemas no curto prazo. Por outro lado, não chegaram a criar uma ?gordura?. Isso significa que ainda dependeremos de chuvas no final de 2026 e no início de 2027 para garantir um abastecimento seguro", concorda Alexandre Nascimento, sócio-diretor e meteorologista da Nottus.

Os extremos climáticos são os principais efeitos do El Niño, que se caracteriza pelo aquecimento anormal das águas do oceano Pacífico equatorial central e oriental, o que costuma reconfigurar padrões de chuva e temperatura em quase todo o planeta.

A previsão para este ano é a volta do fenômeno ao Brasil entre o fim do inverno e o início da primavera ?ou seja, no fim de setembro. A grande questão agora é saber qual será sua intensidade. A maioria dos institutos de meteorologia prevê que o fenômeno deve ser de moderado a forte. O Centro Europeu de Previsão Meteorológica divulgou que o evento deste ano pode ser o mais forte em 140 anos. A confirmação só será possível quando ele estiver atuando no continente, lá por agosto ou setembro.

A SP Águas (Agência de Águas do Estado de São Paulo), autarquia responsável por gerir, fiscalizar e regular o uso dos recursos hídricos no estado, diz monitorar continuamente o El Niño com base em dados de órgãos de referência. Segundo a agência, as projeções mais recentes indicam 62% de probabilidade de ocorrência do fenômeno de junho a agosto, com tendência de permanência até o fim do ano. Esse cenário pode elevar as temperaturas no trimestre abril/maio/junho de 0,4°C a 0,6°C acima da média histórica.

"Diante desse quadro, a gestão é feita de forma preventiva. A SP Águas trabalha com cenários mais críticos nos seus modelos de projeção e já considera essas condições no planejamento operacional, com o objetivo de garantir a segurança hídrica, sem necessidade de medidas extraordinárias neste momento", disse à Folha, em nota.

O órgão também afirma que o estado adota ações previstas no Protocolo de Escassez Hídrica para as regiões com falta de água. Atualmente, o Alto Tietê e parte da bacia do Piracicaba estão nessa situação, com medidas como a suspensão de novas outorgas, exceto para usos prioritários (abastecimento humano e animal) e a intensificação da fiscalização de grandes usuários.

Guilherme Borges, meteorologista da startup de monitoramento climático FieldPro, destaca que o outono e o inverno já são tradicionalmente períodos com pouca chuva no Sudeste, o que deve ser agravado pelo El Niño, tornando as precipitações ainda mais escassas.

"O El Niño se estabilizando, ele deve impactar também o início da estação chuvosa. A gente deve ter um início de retorno da chuva mais volumosa na primavera prejudicado e isso também afetaria o nível dos mananciais. É um efeito cascata. A gente está saindo de um verão com os mananciais não tão elevados caminhando para um outono e inverno que são naturalmente muito secos. Então, isso pode ser muito prejudicial para a questão de abastecimento aqui na capital paulista", afirma Borges.

O aumento da irregularidade da chuva não é o único problema, diz Pegorim.

"O aumento de dias com calor acima do normal força naturalmente um maior uso de água pela população e aumenta a evaporação de água das represas e do solo. O consumo aumenta, mas a chuva que cai não consegue repor o que gastou/evaporou com eficiência, porque é uma chuva irregular. Então, a perspectiva do El Niño na primavera e no próximo verão nos deixa mais vulneráveis aos problemas de abastecimento", diz a meteorologista da Climatempo.

Olhando para o futuro, as perspectivas não melhoram nos próximos anos. Estudos da ANA (Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico) projetam uma redução de até 40% na disponibilidade hídrica no Brasil até 2040, em função das mudanças climáticas e da alteração dos regimes de precipitação. A tendência, segundo a agência, é de agravamento das secas e redução das vazões dos rios, com impactos mais intensos nas regiões Nordeste, Norte e Sudeste.

"O desafio não é apenas lidar com menos água, mas com uma água cada vez mais irregular no tempo e no espaço. Isso exige planejamento e uso intensivo de informação para tomada de decisão", avalia Alexandre Nascimento, da Nottus.

Responsável pelo abastecimento de água de São Paulo, a Sabesp diz que a região metropolitana da capital "vive um cenário estrutural de estresse hídrico que exige gestão permanente, planejamento técnico rigoroso e investimentos contínuos para garantir a segurança do abastecimento".

Em nota à Folha, a empresa afirma adotar uma estratégia de iniciativas que combinam gestão da demanda, eficiência operacional e investimentos estruturantes, para dar soluções definitivas a problemas históricos.

"A companhia vem ampliando a integração entre sistemas produtores, reforçando a capacidade de transferência de água entre regiões, modernizando redes e intensificando o combate a perdas ?ações que, na prática, aumentam a oferta sem pressionar ainda mais os mananciais", diz a nota.

A Sabesp diz que investirá mais de R$ 5 bilhões em obras voltadas à segurança hídrica até 2027, que ampliarão a oferta de água em cerca de 8.000 litros por segundo. Entre as obras citadas estão a interligação Billings?Alto Tietê, novas estações de tratamento, um reservatório e uma estação de bombeamento e ações para combater as perdas no sistema.