SÃO PAULO, SP (UOL/FOLHAPRESS) - A morte da repórter Alice Ribeiro, 35, e do cinegrafista Rodrigo Lapa Dani, 49, após uma colisão frontal entre o carro da Band Minas e um caminhão, jogou luz sobre a BR-381, uma das rodovias mais perigosas do país.

O acidente aconteceu na quarta-feira, 15, por volta das 12h45, no km 438, em Sabará, na Região Metropolitana de Belo Horizonte. Este trecho fica em um dos segmentos mais sensíveis da estrada, marcado por tráfego intenso, histórico de acidentes e obras de duplicação em andamento.

A BR-381 é uma rodovia federal que liga São Mateus, no Espírito Santo, a São Paulo. Ela atravessa Minas Gerais e conecta três áreas estratégicas do Sudeste.

O trecho entre Belo Horizonte e São Paulo é conhecido como Rodovia Fernão Dias. Já a parte entre a capital mineira e o Vale do Rio Doce, em direção a Governador Valadares, concentra a fama mais pesada da estrada e sustenta, há anos, o apelido de "rodovia da morte".

Na prática, é uma via essencial para o escoamento da produção industrial e para a circulação de cargas e passageiros entre os três estados. Segundo o DNIT, a BR-381 é um dos principais corredores logísticos do país e, somente no lote em obras nas proximidades de Caeté, Sabará e Santa Luzia, registra fluxo médio diário de cerca de 35 mil veículos. No segmento entre Sabará e Belo Horizonte, onde houve o acidente com os repórteres, a média diária chega a 100 mil veículos.

A periculosidade da BR-381 combina fatores estruturais e operacionais. São eles: trechos de pista simples, relevo sinuoso, grande circulação de caminhões, alto volume de veículos e pontos com histórico recorrente de colisões.

Campeã de acidentes fatais em Minas Gerais em 2025. O Guia CNT de Segurança nas Rodovias 2026, com base nos dados do ano passado, mostra que a BR-381 foi a rodovia federal com mais acidentes e mais mortes no estado: foram 2.843 ocorrências, o equivalente a 29,7% de todos os acidentes em rodovias federais mineiras, e 158 mortes, ou 20,7% do total estadual.

No conjunto das rodovias federais mineiras, 2025 terminou com 9.559 acidentes, 764 mortes e 11.986 feridos. A colisão foi o tipo de acidente mais recorrente, com 5.285 registros (55,3% do total), e a ausência de reação do condutor apareceu como a causa de morte mais frequente, ligada a 116 óbitos e 1.690 acidentes.

Km em que a equipe da Band se acidentou está em trecho mais perigoso. Os dados da CNT mostram que os trechos mais críticos da BR-381 em 2025 se concentraram entre os km 480 e 510, enquanto os segmentos mais fatais ficaram entre os km 430 e 500. O acidente aconteceu no km 438.

Levantamento da Fundação Dom Cabral (FDC) reforça o retrato de risco. Segundo a análise, a BR-381 foi a rodovia federal com a maior média de acidentes por quilômetro entre 2018 e 2024, com 3,24 acidentes a cada 1.000 metros de pista. No ranking, ela aparece à frente da BR-101 e da BR-116, duas das maiores rodovias do país.

Em números absolutos, a BR-381 teve 2.916 acidentes no período analisado pela FDC. O estudo também mostrou uma diferença importante entre os dois grandes trechos mineiros da estrada: embora o segmento Belo Horizonte-São Paulo (Fernão Dias) seja duplicado e mais moderno, ele registrou 3,82 acidentes por quilômetro, quase o dobro da taxa verificada entre Belo Horizonte e Governador Valadares, com 2,16.

A explicação estaria no tráfego mais intenso da Fernão Dias. De acordo o pesquisador Ramon Victor César, um dos responsáveis pela análise, no trecho rumo ao Vale do Rio Doce, os acidentes tendem a ser mais graves, com maior presença de colisões frontais.

A taxa de mortalidade da BR-381 entre 2018 e 2024 ficou em 21,1%, acima da registrada na BR-101 (17,6%) e na BR-116 (19,2%). O dado ajuda a explicar por que a rodovia permanece no centro do debate sobre infraestrutura e segurança viária em Minas.

A precariedade da malha rodoviária estadual e federal em Minas ajuda a compor esse cenário. A Pesquisa CNT de Rodovias 2025 apontou que 65,4% da extensão analisada em Minas apresentava algum tipo de problema; 60% tinham falhas no pavimento, 51% apresentavam deficiência de sinalização e 71,6% tinham problemas de geometria da via. O levantamento ainda identificou 138 pontos críticos ao longo das rodovias mineiras.

Obras tentam mudar o histórico da estrada

A tragédia com a equipe da Band ocorreu justamente quando o tema da duplicação da BR-381 voltava ao noticiário. Em 30 de março de 2026, o DNIT oficializou a ordem de serviço para o início da duplicação do lote 8A, entre os km 422,4 e 440,4, nas proximidades de Caeté, Sabará e Santa Luzia - faixa que inclui a região próxima ao ponto do acidente. O investimento previsto passa de R$ 405 milhões, com conclusão estimada para 2028.

Segundo o DNIT, o projeto prevê duplicação completa, além de obras de terraplenagem, pavimentação, drenagem, passarelas, viadutos e passagens inferiores. O lote seguinte, entre km 440,4 e 453,8, também está contratado. A expectativa do governo é que a ampliação da capacidade e as intervenções de segurança reduzam o histórico de acidentes em um dos trechos mais delicados da rodovia.