SÃO PAULO, SP (UOL/FOLHAPRESS) - Uma infestação do inseto maruim está afetando a rotina da cidade de Ilhota, em Santa Catarina.

Moradores de Ilhota, município de 17 mil habitantes, enfrentam um aumento descontrolado do inseto. Segundo a moradora Josiane Richart, 42, a situação piorou muito após o ano de 2008, quando a cidade enfrentou grandes enchentes. E, do ano passado para abril deste ano, a infestação tem se intensificado.

"Não conseguimos ficar de bermuda ou camisa. É insuportável. As casas têm de ficar fechadas, só no ar-condicionado. Tem gente que veio trabalhar aqui e decidiu ir embora. Estamos sem saber o que fazer. Os repelentes que temos até aliviam, mas os mosquitos vêm no rosto", disse Josiane Richart, moradora.

Os maruins atacam com rapidez, e a picada ocorre no momento do contato com a pele. "A gente não aguenta porque ele já encosta e pica. É insuportável", diz a moradora.

Prefeitura de Ilhota diz que está "buscando soluções" para amenizar a disseminação do mosquito. Segundo o município, a infestação "não é um problema recente ou isolado deste ano", mas algo que "vem se agravando ao longo do tempo e que também afeta municípios vizinhos". A prefeitura ainda informou que não há produtos registrados na Anvisa que sejam eficazes para o controle do inseto, "o que limita as ações imediatas do poder público e exige cautela nas medidas adotadas".

"A secretaria está buscando soluções inovadoras e viáveis, incluindo a análise de um produto promissor que se encontra em fase de pesquisa no mercado. Já estão em andamento os trâmites necessários para viabilizar sua possível utilização, sempre respeitando rigorosamente a legislação vigente e os critérios técnicos de segurança", disse a secretaria Municipal de Meio Ambiente de Ilhota.

Empresa de Joinville diz que registro de produto está em análise na Anvisa. A Nório Nanotecnologia disse que o registro na Anvisa de um produto contra os maruins está em fase final com previsão de liberação para comercialização no início do segundo semestre. "O produto já está nos laboratórios certificados pela Anvisa para replicarem os testes que fizemos em outros laboratórios", disse a empresa. O UOL consultou a Anvisa sobre liberação do inseticida e aguarda retorno.

Espécie que atormenta Ilhota é a Culicoides paraensis. No Brasil, há cerca de 150 espécies de Culicoides, segundo Caio Cezar Dias Corrêa, doutor em zoologia e pós-doutorando da UFSC. A espécie que ataca moradores de Ilhota está presente em todo o Brasil, principalmente na região amazônica.

Vários fatores implicam no aumento de mosquitos da espécie. Corrêa explica que as enchentes de 2008 podem ter criado ambiente propício para os maruins, já que eles se desenvolvem por meio de material em decomposição ou água represada. No entanto, esses insetos já existiam na região, mesmo antes das enchentes. Para o especialista, tanto o aumento da temperatura quanto as plantações de bananeiras ao redor podem explicar a infestação.

"A bananeira em si não é o problema, mas o manejo inadequado dos resíduos pós-colheita. Os maruins têm preferência por troncos e folhas de bananeiras em decomposição, característica muito peculiar e que favorece o desenvolvimento da espécie. Após a colheita da banana, os troncos são cortados próximos à base e muitas folhas costumam ficar caídas no chão. Esse tronco cortado entra em decomposição e vira o ambiente perfeito para o desenvolvimento dessa espécie. Agora imagina uma plantação de banana gigantesca com esses troncos em decomposição expostos... literalmente, é um paraíso para os maruins", disse Caio Cezar Dias Corrêa, pós-doutorando da UFSC.

A identificação da espécie é ferramenta chave para saber para quais doenças ela pode atuar como vetor. Corrêa explica que o Culicoides paraensis pode transmitir o vírus da febre Oropouche, cujos sintomas são muito parecidos com os da dengue. "Estudos na UFSC estão em andamento para a criação de uma vacina, mas ainda estão em fase preliminar. Até o momento, não existe nenhuma vacina ou medicamento direcionados exclusivamente para a febre Oropouche."

O QUE FAZER?

Diminuir as partes expostas do corpo

Manter os ambientes fechados

Usar repelentes

"A população pode, e deve, cobrar da prefeitura a fiscalização do manejo adequado nas plantações de bananas. Isso certamente seria a medida mais eficaz a longo prazo", disse Caio Cezar Dias Corrêa, pós-doutorando da UFSC.