SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - A Fuvest, responsável pelo vestibular da USP, chega aos 50 anos nesta segunda-feira (20) com a ideia principal de cobrar o conhecimento aplicado, não a simples memorização. A prova, que por décadas ajudou a definir o perfil dos alunos da universidade, agora se adapta a uma nova geração de candidatos, mais diversa em repertório e comportamento.

"Não quero que o candidato decore fórmulas, datas ou nomes de rios", diz o diretor-executivo da Fuvest, Gustavo Monaco. "Quero que ele entenda a importância disso para o desenvolvimento da sociedade e como esses elementos se conectam."

O diretor-executivo conta que a fundação ocasionalmente envia "bilhetinhos" à banca para que ela leve em conta o perfil dos candidatos. Mesmo assim, Monaco diz que não abre mão do grau de dificuldade. "Ele vai precisar se adaptar ao mundo universitário. Nem sempre as coisas vêm tão mastigadas como na própria casa ou na escola onde estudou."

Criada em 20 de abril de 1976, a Fuvest surgiu para organizar um sistema considerado caótico nos processos seletivos da USP. Antes, havia exames distintos por área e até vestibulares próprios. Os candidatos prestavam mais de uma prova, sem padronização de critérios ou calendário ."Ficava muito caro se inscrever em todos os exames", afirma o diretor.

A criação da fundação também tentou reduzir interferências internas. Até então, professores participavam diretamente da elaboração das provas e da definição das listas de aprovados. A reitoria optou por transferir o processo a uma entidade externa para aumentar a segurança e dar mais independência ao vestibular.

A primeira fase do primeiro vestibular da Fuvest ocorreu em 5 de dezembro de 1976, com 92.461 inscritos, sob coordenação do professor José Goldemberg. No início, a fundação também organizou exames para a Unicamp e a Unesp. Na estreia, uma forte chuva atingiu São Paulo e obrigou a operação de transporte das provas com helicópteros, a partir do Campo de Marte.

Edição de 6 de dezembro da Folha de S. Paulo destacava na capa a realização da prova e seus desafios. "Para chegar aos locais das provas, na capital, os candidatos tiveram de enfrentar grandes congestionamentos de trânsito, especialmente nas vidas de acesso à Cidade Universitária, onde fizeram exames 25 mil inscritos."

Monaco cita um episódio relatado pelo professor Goldemberg para ilustrar as interferências sofridas no vestibular. Nesse primeiro ano do novo modelo, o então reitor teria telefonado para saber quando teria acesso à lista de aprovados. Goldemberg respondeu que só conheceria os nomes no momento da divulgação oficial, como qualquer candidato.

O reitor insistiu, afirmando que o governador estava apreensivo porque os filhos haviam prestado o exame. Goldemberg não cedeu e disse que "não era apenas a família do governador que aguardava o resultado, mas cerca de 80 mil outras no estado de São Paulo. Todas saberiam ao mesmo tempo".

A Fuvest também consolidou o modelo em duas fases, com testes de múltipla escolha na primeira etapa e questões discursivas na segunda, voltadas à aplicação do conhecimento.

Monaco afirma que pedidos para facilitar o exame são frequentes em palestras, mas sempre rejeitados, e sustenta que a função do vestibular é selecionar candidatos e garantir que a USP continue recebendo alunos bem-preparados. "Eu sei que isso gera muita frustração em muita gente", diz.

Segundo ele, manter o nível dos aprovados é o que sustenta a universidade ao longo do tempo, ao formar bons graduandos, que se tornam bons pós-graduandos, pesquisadores e docentes, em um ciclo que preserva a posição da instituição. "É isso que sustenta o nível da universidade e sua produção científica."

Para marcar o aniversário, a Fuvest lança ainda este ano o livro "50 Anos de Evolução do Ensino Médio". A obra reúne professores de diferentes áreas do vestibular para analisar provas históricas da fundação e as mudanças curriculares das últimas décadas. A questão é saber se a Fuvest apenas acompanhou as transformações do ensino médio ou se ajudou a ditá-las.

ELABORAÇÃO DAS QUESTÕES E SEGURANÇA

O processo de criação do vestibular começa logo após a aplicação do exame anterior e pode levar mais de um ano. Cada questão é tratada como uma peça única, pensada para cumprir uma função específica dentro do conjunto. Para o diretor, o que diferencia a Fuvest de outros vestibulares é esse caráter artesanal da prova.

Os elaboradores seguem diretrizes formais reunidas em um manual interno, que orienta desde a formulação dos enunciados até o padrão das alternativas. Depois dessa etapa, as questões passam por uma banca revisora. Nesse momento, o item é testado. O revisor resolve a questão, aponta problemas e sugere ajustes, como alternativas muito próximas ou mal formuladas. Nem todas sobrevivem. Algumas são trabalhadas por meses e acabam abandonadas.

Segundo a fundação, todo o processo do vestibular "se paga", custando cerca de 22 milhões de reais. O valor cobre todas as etapas e é bancado pelas inscrições. Ao longo de 50 anos, foram 6.446.619 inscrições e 456.309 vagas oferecidas.

A fundação também adota uma política rigorosa de sigilo e controle de conflitos de interesse. A identidade dos funcionários é preservada como forma de proteger o processo. "Você nunca viu a imagem de um membro da Fuvest divulgada, justamente porque a gente precisa prezar pela segurança deles", diz Monaco.

O acesso ao conteúdo das provas é restrito a poucos profissionais, envolvidos em etapas como revisão final, diagramação e impressão. O material circula apenas em rede interna, isolada.

Há também um protocolo anual para evitar favorecimentos. Todos os integrantes das bancas são questionados sobre parentes que prestarão o vestibular, como filhos, netos ou cônjuges. Nesses casos, são afastados temporariamente do processo.

Após a impressão, as provas são armazenadas em sala-cofre de segurança máxima. O transporte até os locais de aplicação ocorre com escolta, para evitar qualquer violação.

Assim como muitos, o diretor Monaco foi um vestibulando da Fuvest e precisou de três tentativas, uma delas como treineiro, para ser aprovado. "Para mim, a prova representou durante boa parte da minha vida um grande temor", afirma. "Eu sabia que precisava passar. Meus pais não tinham condição de pagar uma faculdade particular."

A aprovação veio na segunda chamada. Anos depois, ele assumiria a direção da fundação, algo que diz não ter imaginado. "Nunca pensei que estaria desse lado."

Hoje, ao acompanhar a divulgação dos resultados, ele diz reconhecer o peso daquele momento para os candidatos. "Essas listas têm gosto de vitória. Não por acaso, o logo da Fuvest destaca o V, de vitória."