SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - "Crianças não são propriedades dos pais, mas sujeitos de direito que estão sob sua responsabilidade", diz o pediatra e sanitarista Daniel Becker em um dos capítulos finais de seu recém-lançado "Os 1000 Dias do Bebê" (Planeta).
O livro, escrito em parceria com a jornalista Rita Lisauskas, é uma espécie de guia --ele rejeita o título de manual-- para pais e mães de primeira viagem ou não. Em formato de enciclopédia, com capa dura e vasto índice, a obra traz o que há de mais novo em matéria de pediatria, nutrição infantil, educação e psicologia, tudo conforme a ciência mais atualizada disponível no momento.
A teoria central dos autores é que os primeiros mil dias de uma vida humana, desde a concepção até por volta dos dois anos de idade, são fundamentais para o desenvolvimento.
Em entrevista à Folha, Becker conta que demorou esses mesmos mil dias desde a concepção do livro até a chegada às livrarias. As constantes atualizações em pesquisas científicas foram uma das causas do prolongamento dos prazos.
"Houve muitas mudanças em pediatria, tratamentos novos, novas vacinas, incorporação de tratamentos no SUS, ampliação da licença-paternidade. Mas chega uma hora em que a gente precisa se despedir do livro e entregá-lo para os braços do leitor", diz o médico.
*
*Folha - Você afirma que a sabedoria geracional, que passava de pai para filho, vem se perdendo. Hoje os pais se sentem sem referências e acabam recorrendo às redes sociais. Quais os principais riscos disso?*
*Daniel Becker-* Essa sabedoria de antigamente não é exatamente uma sabedoria, é um conhecimento. Tinha muita coisa errada também, costumes completamente inadequados e perigosos, tipo colocar pó de café no umbigo do bebê. Estou dando um exemplo extremo, mas uma mulher de 20 e poucos anos, quando virava mãe, já tinha cuidado de irmãos, sobrinhos, já tinha noções do que fazer. Essas referências familiares podiam ser boas ou ruins, mas eram firmes.
Nas redes sociais, o que vemos é uma miscelânea de informações desencontradas e vitrines de venda. Todo mundo está vendendo alguma coisa ali, inclusive muita enganação, tipo "suplemento anti-birra", "protocolo do super bebê", uma injeção para o bebê nascer com QI alto. Já usaram meu nome e minha imagem num vídeo feito com inteligência artificial para vender uma coleção de livros infantis que, se você lesse, sua criança não ia fazer birra. Eu processei e ganhei.
*Folha - O senhor dedica um longo capítulo às birras. É uma das maiores dificuldades dos pais?*
*Daniel Becker-* Sim, e isso é agravado pela desinformação das redes sociais. A birra não é frescura nem capricho da criança: tem a ver com o desenvolvimento da autonomia. A autonomia é um mandato inerente do nosso DNA. Nos humanos, ela surge entre um e dois anos. Tudo que se interpõe entre a vontade da criança, gera esse choque. Dentro do universo não racional dela, ela não distingue querer de poder. É preciso acolher e nomear esse sentimento. Saber lidar com a birra da forma correta não só evita traumas como é também uma oportunidade de desenvolver a inteligência emocional da criança.
*Folha - Qual é a importância dos primeiros mil dias de vida?*
*Daniel Becker-* Esse período é extremamente importante e não tem retorno. Tudo o que acontece nesses mil dias tem impacto profundo na vida do bebê, tanto as coisas positivas quanto as negativas. Mas isso não deve ser visto como um determinismo. A gente não é unicamente responsável pela felicidade de ninguém. Tem muitos fatores que influenciam na vida de um ser humano: os pais, o leite materno, a reação dos pais a determinadas questões da época, os avós, os tios, a escola, os amigos, a cultura, a exposição à mídia, a classe social, o lugar onde se mora, tudo isso é influente na vida de um ser humano.
*Folha - Quais são os principais erros cometidos pelos pais nessa fase?*
*Daniel Becker-* O principal é a violência em todas as suas formas: grito, castigo, palmada. Ainda existe a cultura da palmada e isso é um absurdo. A violência na infância é o fator mais fortemente associado a todo tipo de resultados ruins na vida toda: uso de drogas, doenças crônicas, transtornos mentais, problemas psicológicos e de aprendizado, dificuldade de relacionamento.
*Folha - E a questão do uso de telas?*
*Daniel Becker-* Deixar uma criança de um ano, dois anos, passar uma horinha, duas horinhas por dia na tela, é fatal. Vai ter consequências muito negativas para a vida dela e isso está cada vez mais demonstrado em estudos grandes populacionais. Os efeitos são muito nocivos. Não estou dizendo que a criança que passa uma hora na tela vai ser um infeliz, um delinquente, um ferrado. Mas que vai ter mais chance, vai. São coisas que a gente deve evitar a qualquer custo, dentro do possível.
*Folha - E como encontrar esse possível? Como romper o ciclo da violência ou fugir do vício em telas?*
*Daniel Becker-* O segredo é olhar para o seu filho. Quando dizem que criança não vem com manual, sempre digo que o manual está nos olhos do filho. Ficar com o bebê, se relacionar com o bebê desde que ele nasce, o máximo possível, da melhor forma possível. Olhando, conversando, sorrindo para ele, cuidando de forma presente, honesta e integral. Não é que você tem que dedicar 100% do seu tempo ao bebê, tem que satisfazer suas necessidades também. A rede de apoio é absolutamente crucial. O marido tem que ser a primeira rede de apoio. Nem sempre é. Nas famílias homoafetivas, normalmente a parceria é muito melhor e mais forte. Dividem as tarefas de forma mais igualitária. Nas famílias mais tradicionais, o marido tende a ser mais ausente.
*Folha - Como colocar limites e disciplina de forma respeitosa?*
*Daniel Becker-* Disciplina é importante. Crianças que não têm limites, que não têm regras, são infelizes e inseguras. Tem muitas formas diferentes de dar disciplina. Brincar de guardar os brinquedos na cestinha, brincar de colocar água na planta, desde o início fazer com que ela seja participativa nas tarefas da casa é uma forma linda de dar disciplina. A criança ama fazer isso e é muito diferente de ficar jogada no sofá vendo desenho no YouTube. Ela vai desenvolver um sentimento de autoconfiança, pertencimento e autonomia. A disciplina na qual a pessoa grita, bate, tem regras rígidas, não é produtiva. Disciplina tem que ser feita com democracia, escuta da criança, empatia e legitimação dos sentimentos dela. Autoritarismo e violência não são autoridade, são a degradação da autoridade. Autoridade pode ser sempre serena.
*Folha - Existe esperança nas novas gerações?*
*Daniel Becker-* Sou um utopista, acredito que há sempre esperança. Nos últimos 20 anos, os desafios têm se acirrado muito na política, na geopolítica, na questão climática, na tecnologia com IA e os danos que ela vem provocando, na ascensão de autocracias e tiranias. É muito assustador. Mas acredito que a gente precisa de esperança e temos sinais que nos fazem acreditar. Existem países regulamentando esse tipo de tecnologia mais ameaçadora, o Brasil acabou de fazer isso com o ECA digital.
Acredito nas mulheres, principalmente. Elas precisam tomar o mundo. É preciso ter esperança e ver esses sinais no horizonte, especialmente na juventude e nas crianças que estão vindo mais conscientes, com possibilidades de aprender aquilo que é mais importante: o amor, a empatia, o cuidado com o meio ambiente e o cuidado com o outro.
