SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - O número de atendimentos ambulatoriais de fumantes que querem largar o cigarro quase quadruplicou nos últimos seis anos, segundo dados do Ministério da Saúde. Eles saíram de 5.295 para 19.181.

A pasta não detalha, no entanto, se o aumento está associado a um número maior de fumantes, ou, por uma procura maior aos tratamentos. O Brasil registrou, em 2024, o primeiro aumento na prevalência de fumantes adultos desde 2007. Houve um crescimento de 9,3% para 11,6% na proporção de adultos fumantes.

Entre 2020 e 2025, houve um aumento significativo de internações relacionadas diretamente ao tabagismo, saindo de 1.251, no primeiro ano, para 2.125, no último.

"O grupo antitabagismo precisa ser conduzido de maneira lógica, identificando a particularidade de cada participante. Essa é hoje a principal dificuldade no Brasil, ter pessoas preparadas para apoiar a cessação ao tabaco", afirma Sandra, destacando que o país necessita de mais profissionais de saúde mental integrados aos grupos.

Com o apoio de um desses grupos, a diarista Genicélia Maria da Silva, 60, espera largar o vício. "Tinha vez que eu fumava 15, às vezes 20 [cigarros]. Era uma ansiedade tão grande, tão grande, eu estava fumando um atrás do outro", diz ela após ser questionada sobre quantos cigarros fuma por dia.

Ela continua: "o ruim de você ser fumante é nessa hora [de parar]. É estresse, é ansiedade, é depressão e você desconta no cigarro (sic)."

Os sintomas descritos pela diarista que vive na zona sul de São Paulo são comuns entre fumantes quando tentam largar o cigarro. Para eles, essas manifestações dão a sensação de luta perdida e são a principal barreira na resistência ao vício.

Por causa desses sintomas comuns a quem tenta parar de fumar, o protocolo antitabagismo do SUS (Sistema Único de Saúde) preconiza atendimento psicológico, individual ou em grupo. Mas há uma distância entre a orientação e a prática, que é de responsabilidade dos municípios, segundo especialistas. Essa fragilidade enfraquece a estratégia.

"É aquela coisa: você está bebendo, está feliz, aí vai dar um trago e pronto. Já era!", diz a secretária Ivoneide Ribeiro Amorim, 65.

Os relatos de Genicélia e Ivoneide mostram o espectro emocional que a nicotina preenche e a importância da abordagem mental no antitabagismo. Os momentos ruins, ela ameniza, os bons, potencializa. Daí a necessidade de elas estarem em grupo para parar de fumar na UBS (Unidade Básica de Saúde) Arrastão, em Campo Limpo, zona sul de São Paulo.

Os grupos são parte da estratégia do SUS antitabagismo, que inclui ainda distribuição de adesivos de nicotina e prescrição de bupropiona, um antidepressivo que ajuda na redução da abstinência.

Na prática, os grupos funcionam como sessões de terapia coletivas. Há quem goste e quem desgoste. Ivoneide diz amar, mas duas pessoas disseram à Folha de S.Paulo que as reuniões desestimulam e só frequentam porque são obrigadas, para ter acesso ao remédio.

A coordenadora do Programa Nacional de Controle ao Tabagismo no Estado de São Paulo, Sandra Marques, afirma que as reuniões têm sentido estratégico, mas não funcionam sozinhas para todos.

"A reunião é pela mudança de comportamento. O medicamento não vai, sozinho, fazer isso. Elas ajudam, a partir da troca de vivências, no preparo para treinar habilidades sociais e prevenir recaídas", explica.

Ela destaca, porém, que algumas pessoas têm no cigarro o acolhimento para problemas psiquiátricos e emocionais. Essas pessoas precisariam de atendimento individualizado com o especialista, o que no SUS depende da disponibilidade de profissionais em cada município, e o sistema público enfrenta uma deficiência crônica de acesso a especialistas.

O oncologista Fernando Medina, doutor em clínica médica pela Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) e coordenador do programa "Viver Sem Cigarro", afirma que resistir às primeiras reuniões é importante.

"O primeiro mês é bastante puxado justamente pela dificuldade que as pessoas têm com a cessação do fumo. Com o passar do tempo, as reuniões se tornam quinzenais e vão reduzindo à medida que o paciente precisa menos".

Ivoneide tem opinião positiva sobre o grupo. "O incentivo das profissionais é fundamental e, além disso, tem os demais. Então você vê um que precisa parar porque já teve infarto, o outro porque tem problema respiratório e isso estimula a vontade de parar de fumar".

Os grupos são a intervenção disponível para quem depende do SUS. Eles acabam por funcionar, muitas vezes, como o único contato de pessoas de baixa renda com algum profissional de saúde mental durante o processo para cessar o fumo. Muitos dos tentantes falham.

Genicélia e Ivoneide são exemplos. A primeira chegou a ficar dois meses sem fumar, e a segunda, dois anos, mas ambas tiveram recaídas mesmo após períodos significativamente longos.

O Ministério da Saúde não respondeu qual o percentual de pessoas que concluem o tratamento com êxito. Especialistas falam em algo em torno de 10% a 30%.

Os dados são de difícil extração, pois variam em diferentes estados. Além disso, muitas pessoas abandonam o tratamento e não retornam ao grupo.

O Ministério da Saúde afirma que o número de profissionais capacitados para atuar no controle do tabagismo cresceu 30%, passando de 5.935 em 2022 para 7.702 em 2025.

"De acordo com o Instituto de Efetividade Clínica e Social, o país gasta R$ 153,5 bilhões por ano com custos diretos e indiretos do tratamento de doenças relacionadas ao uso do tabaco", diz a nota.

Especialistas são unânimes em afirmar que o programa do SUS de cessação do tabagismo é bom, inclusive reconhecido pela OMS (Organização Mundial da Saúde) como um dos melhores do mundo.

Ele carece, no entanto, de medidas complementares de desestímulo ao fumo. "Qualquer um que quer parar de fumar recebe apoio do SUS, isso é ótimo, mas o governo deve apertar mais ainda o acesso ao cigarro. O que o país arrecada de imposto com tabaco não chega nem à metade do que ele gasta, isso sem contar às perdas econômicas com a quantidade de mortes todos os anos", diz Medina.

O projeto Saúde Pública tem apoio da Umane, associação civil que tem como objetivo auxiliar iniciativas voltadas à promoção da saúde.