SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - O deputado federal Carlos Alberto da Cunha (União Brasil) deve conseguir escapar da demissão e permanecer no cargo na Polícia Civil de São Paulo. Delegado youtuber famoso nas redes sociais, ele teve a expulsão proposta ao menos duas vezes pela cúpula da corporação por supostamente inventar a prisão de um chefão do PCC e xingar superiores de "ratos".

Conforme deputados governistas e integrantes da gestão estadual ouvidos pela Folha de S.Paulo, o delegado deve sofrer, no máximo, uma suspensão temporária. Segundo eles, isso ocorrerá graças a uma articulação política envolvendo o deputado Delegado Olim (PP), o ex-secretário da Segurança Guilherme Derrite (PP) e o governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) ?todos aliados políticos.

Em nota, a gestão Tarcísio nega ter havido arranjo político e sustenta que as decisões foram técnicas.

"Não houve qualquer interferência política ou tratamento diferenciado no caso citado. Os Processos Administrativos Disciplinares (PADs) foram regularmente instaurados, conduzidos e concluídos nos termos da lei, com respeito ao contraditório e à ampla defesa", diz a nota, sem informar qual foi a decisão final do governo (leia mais abaixo).

Atualmente, Da Cunha está afastado das atividades policiais para cumprir seu mandato em Brasília. Caso não seja reeleito, poderá, em tese, voltar às funções de delegado. Nas redes sociais, o parlamentar passou a tratar os processos demissionários como fake news.

Procurado pela Folha de S.Paulo, o delegado Da Cunha afirmou, em nota, que "não se manifestará sobre especulações relativas a processos administrativos arquivados".

A primeira proposta de demissão foi aprovada pelo Conselho da Polícia Civil em maio de 2022. Tal órgão é formado pelos principais delegados do estado, diretores de departamentos, além do delegado-geral e do adjunto. Juntos eles avaliam o resultado das investigações da Corregedoria e decidem sobre eventuais punições. No caso de delegados, o processo passa por cinco etapas: Corregedoria, Conselho, Consultoria Jurídica, secretário da Segurança e, por fim, o governador.

O secretário e o governador podem não concordar com a proposta de demissão e não acatá-la, mas somente o último, o chefe do Executivo estadual, pode aplicar a sanção máxima.

A primeira demissão foi recomendada pela cúpula da Polícia Civil após investigação da Corregedoria que concluiu que o delegado inventou a prisão de um chefão do PCC, Jagunço do Savoy, com o objetivo de gerar conteúdo para as redes sociais privadas. O vídeo dessa prisão rendeu 30 milhões de visualizações no YouTube e deu um grande impulso para o canal chegar a 3,7 milhões de inscritos.

Policiais ouvidos pela Corregedoria afirmaram que tudo não passou de fraude. "Conforme se depreende dos documentos ora juntados e relatórios policiais demonstrando que se trata de uma mentira que expõe toda a instituição da Polícia Civil e tumultua os trabalhos da instituição policial", disse, em depoimento, o então delegado-geral Ruy Ferraz Fontes, morto em 2025 em emboscada de criminosos do PCC.

Em agosto de 2022, foi feita a segunda recomendação de demissão, quando Da Cunha, em entrevista a um podcast, chamou chefes delegados de "ratos" e "raposas". Posteriormente, realizou uma série de ataques a Ruy Ferraz Fontes e ao governador João Doria (então no PSDB) nas redes sociais. Por tal comportamento, foi afastado das ruas e teve sua arma recolhida.

Foi nessa época, em agosto de 2022, que surgiu o primeiro indício de ação política em favor do delegado. Em entrevista ao canal do YouTube "Diário de Polícia", o deputado Delegado Olim disse ter pedido ao então governador Rodrigo Garcia (então no PSDB e hoje no Republicanos, partido de Tarcísio) para segurar a demissão. "Ele só não foi mandado embora [ainda] porque eu pedi para o governador segurar. Ele [Cunha] vai ganhar para deputado, acho que vai ser um bom deputado, e vai pagar tudo que ele já fez, e viu que não levou a lugar nenhum", disse.

Integrantes da gestão Rodrigo Garcia afirmaram à Folha de S.Paulo que isso de fato ocorreu. O processo demissionário chegou ao Palácio dos Bandeirantes, mas o então governador decidiu deixar o assunto para seu sucessor resolvê-lo. Ele nega ter participado de qualquer ingerência em decisões da polícia.

Procurado na semana passada, Olim não quis dar declarações sobre o assunto.

A Folha de S.Paulo apurou que, em ambos os processos, a gestão estadual não acatou a proposta de demissão. No primeiro caso, sobre a falsa prisão do chefão do PCC, a pena foi reduzida para suspensão. Já no segundo caso, o policial teria sido absolvido. Como os casos envolvendo punições de delegados são sigilosos, não é possível afirmar quando os processos foram concluídos pela gestão Tarcísio.

O governo paulista não confirma nem nega as decisões em favor de Da Cunha. Diz somente que demissões são publicadas no "Diário Oficial" e sanções menos graves são mantidas em sigilo. Também não informa de quem partiu a decisão de livrar o policial, se foi do ex-secretário Guilherme Derrite ou do governador. Pessoas ligadas ao governo afirmam que ao menos uma delas foi do próprio Tarcísio.

No início de março deste ano, a Folha de S.Paulo solicitou à gestão Tarcísio a situação dos processos de demissão de Da Cunha. O governo não informou. "Todos os processos são analisados de acordo com a Lei Orgânica da Instituição, que determina caráter sigiloso às sanções disciplinares impostas a delegados de polícia, com exceção para as sanções demissórias. A decisão final é divulgada no Diário Oficial."

Membros do próprio governo afirmaram à reportagem que a gestão Tarcísio já tinha decidido em prol do delegado Da Cunha, mas não admitiria isso publicamente. Isso porque, além desses processos, Da Cunha também é alvo de acusações de violência doméstica por parte de ex-companheiras. A última delas foi em 2023, feita pela ex-companheira Betina Grusiecki e pela qual o policial responde a processo.

Sobre violência doméstica, Da Cunha, por meio de sua assessoria, disse que "o processo continua sob segredo de Justiça. Portanto, até a resolução do caso, ele não poderá se manifestar".

A gestão Tarcísio, ainda segundo essas pessoas ouvidas, também não confirmaria ter livrado o delegado porque muitos policiais civis, incluindo delegados, foram demitidos por situações muito menos graves.

Em nota, o governo estadual nega ter favorecido Da Cunha e diz que "observa rigorosamente o princípio da isonomia". "Casos similares são analisados sob os mesmos parâmetros legais, independentemente de posição, exposição pública ou eventual atuação política dos envolvidos."

O ex-secretário Derrite nega participação em processo para salvar Da Cunha. Diz que, na verdade, a decisão partiu da gestão anterior. "O deputado federal Guilherme Derrite esclarece que a decisão foi tomada na gestão anterior, do então secretário da Segurança Pública General Campos. A alegação da reportagem não procede, pois não houve tal aconselhamento nem ingerência de Derrite nesse assunto."

Em julho de 2023 e abril de 2024, porém, a própria secretaria, na época comandada por Derrite, afirmou em nota à reportagem que os processos contra o policial ainda estavam em curso. "Os procedimentos instaurados pela Corregedoria da Polícia Civil contra o referido delegado estão em curso e são analisados de acordo com a Lei Orgânica da Polícia Civil. Os resultados serão publicados no Diário Oficial do Estado."

A reportagem não conseguiu falar com o ex-secretário João Camilo Pires de Campos. Pessoas ligadas a ele afirmaram à Folha de S.Paulo que o general, ao contrário do que diz Derrite, manteve a recomendação de demissão do delegado e encaminhou-a ao Palácio dos Bandeirantes.