SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - A Sabesp (companhia de saneamento paulista) deve ser multada nos próximos dias pela pintura sem autorização do conjunto do Reservatório de Água da Vila Mariana, tombado como patrimônio cultural da cidade de São Paulo. Vistoria técnica da prefeitura apontou que a intervenção deixou o local com aparência de brinquedo infantil e pode ter causado danos até mesmo de difícil reversibilidade.
O reservatório foi construído em 1914, em local onde começou a urbanização do bairro da zona sul paulistana, no século 19. Além da estrutura circular, o conjunto inclui uma grande torre de caixa- d?água dos anos 1960, e é um ponto de referência na vizinhança.
No fim do ano passado, o conjunto foi pintado com cores e elementos da nova identidade visual da Sabesp, adotada em 2023. Há o predomínio do branco e azul, além de balões coloridos e a inclusão do logotipo da companhia. Antes, o conjunto tinha basicamente tons de bege e concreto.
Em nota, a companhia afirmou que a pintura era necessária, a fim de "promover a durabilidade da estrutura e facilitar sua limpeza, bem como melhorar sua visibilidade e percepção". Apontou, ainda, que o material utilizado era adequado e próprio para o tipo de construção.
A Sabesp também salientou não ter feito modificação ou supressão de qualquer elemento de alvenaria. Além disso, argumentou que esse tipo de intervenção não necessitaria de anuência de órgãos de patrimônio.
A resolução de tombamento determina, contudo, a "preservação das características arquitetônicas externas da construção circular existente, da caixa d?água e da edificação anexa conectada".
A multa foi indicada pelo DPH (Departamento do Patrimônio Histórico) ?órgão da prefeitura responsável pela fiscalização. O montante em si não foi divulgado, mas será de 40% do valor venal. Também é ofertada a possibilidade de acordo, por meio de um TAC (Termo de Ajustamento de Conduta).
A decisão será tomada em reunião do Conpresp (conselho municipal de patrimônio) na próxima segunda-feira (27). Na ocasião, também será deliberado o recurso sobre o tombamento da antiga Escola Panamericana, de Higienópolis.
Intervenção semelhante foi feita em algumas outras estruturas da Sabesp, porém não tombadas. Entre elas, está um reservatório inaugurado no ano passado em Ubatuba, no litoral norte de São Paulo.
MAIOR RISCO ENVOLVE TORRE, DIZ RELATÓRIO
Em relatório, arquiteta do DPH (Departamento do Patrimônio Histórico) chama a intervenção de invasiva, descaracterizadora e de "muita gravidade", ainda mais por envolver um conjunto conhecido pela sobriedade. A vistoria foi feita pela servidora em janeiro, após denúncia de outubro.
"Transforma [...] numa representação cênica infantilizada, como se, num piscar de olhos, tivesse se tornado lugar de brincadeira de criança", afirma a técnica em um trecho. Ela ainda diz que a torre-d?água parece ter virado um elemento alegórico, como um balão infantil.
A avaliação também aponta que a intervenção coloca em risco especialmente a torre, feita de concreto aparente e onde havia originalmente as marcas das formas de madeira utilizadas na construção.
"Tratando com desprezo o significado referencial assumido com uma cidade que convive há mais de 100 anos com essa obra de importância crucial e histórica na Vila Mariana", ressalta a arquiteta no relatório.
CONJUNTO TEM ESTILOS DE DIFERENTES ÉPOCAS
O reservatório circular (o mais antigo) traz elementos de influência europeia, como o art nouveau, nos guarda-corpos, nas escadarias, no chafariz e em outros elementos. Já a torre dos anos 1960 é considerada uma representante da arquitetura moderna paulista.
Hoje fechado por portões e de responsabilidade da companhia, o largo onde está o conjunto já funcionou como uma praça pública. Em 1999, por exemplo, foi um dos destaques do então recém-lançado projeto Reservatórios Culturais.
Questionada pela Folha, a Sabesp respondeu que não há projeto ou programa de reabertura do espaço à comunidade.
O estudo de tombamento do reservatório e do Largo da Caixa-d?Água da Vila Mariana foi aberto em 2011, em conjunto com outras duas referências do bairro: o Mosteiro da Visitação de Nossa Senhora e a Igreja de Santa Rita de Cássia.
Em 2018, o conjunto foi tombado em definitivo, como parte do eixo histórico da rua Domingos de Morais. A decisão destacou serem "testemunhos das diversas etapas de desenvolvimento" do bairro, com a determinação da preservação das características arquitetônicas externas.
