SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - A repercussão de declarações do Frei Gilson sobre o papel da mulher reacendeu o debate sobre os limites entre liberdade religiosa e possíveis manifestações de preconceito no Brasil. O caso ganhou força após críticas públicas da senadora Soraya Thronicke (PSB-MS), que classificou a fala do religioso como misógina.

O episódio ocorre em um momento sensível no Congresso. Soraya foi relatora, no Senado, do projeto de lei aprovado em março que classifica a misoginia como crime de preconceito e discriminação. O texto define misoginia como qualquer conduta que expresse ódio, aversão ou desprezo contra mulheres, baseada na crença de supremacia masculina.

Defensora da proposta, a senadora tem afirmado que "não se pune opinião, mas conduta", em resposta a críticas sobre possível censura. Ainda assim, o caso envolvendo o frei levanta preocupações em setores religiosos, que temem que interpretações bíblicas possam vir a ser enquadradas como preconceito por contrariarem determinadas visões contemporâneas.

A controvérsia ganhou visibilidade após Soraya compartilhar, na rede social X, um vídeo em que Frei Gilson discursa para fiéis sobre empoderamento feminino e liderança masculina. Na fala, ele cita um trecho bíblico de Gênesis 2:18 ("Não é bom que o homem esteja só; far-lhe-ei uma auxiliadora que lhe seja idônea") para abordar a relação entre homens e mulheres.

Ao comentar a publicação, a senadora criticou o conteúdo, chamando o religioso de "falso profeta" e acusando-o de misoginia. Em sua manifestação, também recorreu a referências bíblicas, citando o terceiro mandamento (Êxodo 20:7) para argumentar que líderes religiosos estariam "usando o nome de Deus em vão".

"Mais um falso profeta. São freis, padres, pastores, pais de santo, políticos e etc. usando o nome de Deus em vão", escreveu a senadora.

Procurada, a assessoria de Frei Gilson informou, em nota, que o religioso "dedica-se integralmente ao seu ministério pastoral e às atividades inerentes à sua vocação religiosa". Segundo o comunicado, "como prática, preservamos essa rotina e não encaminhamos as repercussões públicas".

Frei Gilson, 39, é sacerdote católico nascido em São Paulo e integrante do Instituto dos Freis Carmelitas Mensageiros do Espírito Santo. Ele atuou por nove anos na Paróquia Nossa Senhora do Carmo, na Diocese de Santo Amaro.

Além da atuação religiosa, o frei ganhou projeção nas redes sociais e também na música, acumulando milhões de seguidores. Ao longo dos anos, suas declarações públicas têm gerado tanto apoio quanto críticas.

Na mesma publicação, a senadora também afirmou: "Nasci em berço católico e posso dizer que esse frei não me representa. Ele já passou de todos os limites possíveis de intolerância religiosa, misoginia e etc. Espero que nossa Igreja Católica tome severas providências."