CARAVELAS, BA (FOLHAPRESS) - "Vocês viram o tamanho da colônia de Millepora que tem ali?"
"Vi! Imensa e está totalmente saudável, nem sinal de branqueamento!"
"Caramba, que linda!"
A comemoração era geral entre os pesquisadores que nadavam em meio ao recife do Parcel das Paredes, na costa de Caravelas, no extremo sul da Bahia. Exclusivo do Brasil, o Millepora alcicornis é um dos corais da região mais sensíveis ao branqueamento --fenômeno causado pelo aquecimento excessivo do oceano.
É para garantir a sobrevivência desta e de outras espécies ameaçadas que ambientalistas, ICMBio (Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade), vinculado ao Ministério do Meio Ambiente, e lideranças locais estão se mobilizando para ampliar a proteção ambiental na região.
O parcel fica entre os limites do Parque Nacional Marinho de Abrolhos, área de proteção integral, e da Resex (Reserva Extrativista) do Cassurubá, espaço também protegido, mas onde a comunidade local pode fazer o uso sustentável dos recursos naturais.
A região integra o Banco dos Abrolhos, que se estende por 46 mil km² na costa brasileira e abriga os maiores e mais ricos recifes de coral do Atlântico Sul. No Parcel das Paredes, porém, há poucos peixes, resultado de anos de pesca por frotas que vêm de outras áreas.
Daí a surpresa de encontrar corais tão preservados por ali. Um estudo recente mostrou que o coral-de-fogo, nome popular da Millepora alcicornis, já colapsou em Abrolhos e está perto de desaparecer.
"Vimos 14 espécies de corais aproximadamente, das 21 que existem aqui na região de Abrolhos. É difícil ver tanta diversidade num mesmo mergulho", afirma o biólogo Guilherme Dutra. Um dos integrantes da expedição, ele pesquisa ambientes recifais na UERJ (Universidade do Estado do Rio de Janeiro). "Isso é sinal do quão resiliente um ambiente como esse é."
Dentro dos limites do parque nacional, o cenário submarino é ainda mais exuberante. O mar calmo e cristalino abriga dezenas de espécies de peixes, numa infinidade de cores: robalo, agulhinha, frade, pargo, cirurgião... além do budião-azul, símbolo da região e ameaçado de extinção pela sobrepesca.
O local é a casa de tubarões-lixa e imensas arraias-prego (esta repórter viu uma de quase dois metros de comprimento) e serve de "restaurante" para diferentes espécies de tartarugas --sem falar dos camarões, lulas, mexilhões e todos os outros invertebrados que se abrigam nos corais.
As águas quentes da região também atraem baleias-jubarte, que migram da Antártida para Abrolhos para se reproduzir e ter filhotes.
"A gente apoia a ampliação do parque, porque sabemos da importância de Abrolhos", afirma Joelma Pinheiro da Silva, presidente da Associação Mãe dos Moradores da Resex Cassurubá. Como ela, muitos ali dependem da pesca artesanal para subsistência.
"Abrolhos é útero daqui. É lá que os peixes desovam e crescem. Depois, eles vêm para fora [dos limites do parque], onde vão dar o nosso sustento."
Mas, além da pressão da pesca em larga escala, toda essa biodiversidade pode ser impactada por grandes empreendimentos. No portal da ANM (Agência Nacional de Mineração), constam diversos processos minerários na região, principalmente para a extração de sal-gema. Existem, ainda, blocos de petróleo e gás passíveis de exploração nas proximidades.
Dutra, que também é secretário-executivo do coletivo Abrolhos Para Sempre, atua há décadas em Abrolhos e conduziu estudos mapeando a biodiversidade local, do norte capixaba ao sul baiano. O objetivo é definir áreas prioritárias para a conservação tendo em vista os vários ecossistemas locais.
O levantamento analisou a distribuição de 546 animais que ocorrem na região, sendo que um quarto deste total (134) está ameaçado de extinção.
Os resultados mostram que alguns habitats -como recifes rasos, manguezais, estuários e oceano profundo- estão relativamente bem representados pelo desenho atual das áreas marinhas protegidas.
No entanto, grande parte dos ecossistemas com alta biodiversidade e concentração de espécies endêmicas e ameaçadas --bancos de rodolitos (algas marinhas calcárias), recifes mesofóticos (de 30 a 150 metros de profundidade), taludes e buracas (depressões na plataforma continental, de aparência semelhante a sumidouros)- está pouco representada ou completamente ausente das unidades de conservação.
"Temos que equilibrar a proteção entre os diferentes habitats, porque eles são integrados", afirma o biólogo.
Setores como a pesca e o turismo dependem justamente desse sistema. Um estudo recente do WW-Brasil mostrou que as unidades de conservação da região de Abrolhos geram 29 mil empregos diretos e R$ 536 milhões em renda.
Porém, Joelma diz que grandes embarcações, provenientes principalmente do Espírito Santo, estão cada vez mais presentes na região. "A nossa pesca artesanal está totalmente ameaçada."
O desenho da proposta de ampliação das áreas protegidas está sendo construído em diálogo com as comunidades locais. A ideia é aumentar a área da Resex Cassurubá para incluir o Parcel das Paredes, enquanto o parque nacional passaria a abarcar ecossistemas mais profundos, como recifes mesofóticos e bancos de rodolitos.
"Os pescadores daqui pegam dez quilos [por vez]. Os de fora vêm com toneladas [de pescado] na embarcação deles. Então, a gente precisa que essas áreas estejam dentro de uma unidade de conservação", afirma a líder comunitária. No modelo da reserva, apenas a população local pode usar os recursos naturais, obedecendo a um plano de manejo da área.
Segundo o analista ambiental Kleber Oliveira, coordenador da regional Nordeste do órgão federal, o ICMBio tem observado um grande declínio do estoque pesqueiro na região.
"São embarcações cada vez mais bem preparadas, exercendo uma pressão de pesca muito desigual em relação às comunidades locais", diz, acrescentando que a isso se somam a especulação imobiliária e turística, além de uma lacuna da gestão costeira do Brasil.
A ampliação das áreas marinhas protegidas, afirma Oliveira, é de interesse do instituto e é uma demanda antiga da comunidade.
"Sabemos que é delicado, que existem interesses diversos e conflitos. Mas precisamos fazer essas discussões", diz Marina Corrêa, que lidera o setor de oceanos no WWF-Brasil. Ela afirma que, dois anos atrás, a ONG fez entrevistas com a população para entender se existia interesse em discutir a ampliação das áreas protegidas e o retorno que tiveram foi positivo.
"Esse contato não foi [com a postura de] 'temos que proteger a biodiversidade pelo valor intrínseco dela', que realmente existe, claro. Mas entendemos que precisamos trabalhar com o aspecto social desse território", afirma a especialista em conservação.
Também foram promovidas ações sociais, como o apoio à mobilização de mulheres pescadoras e a ONG ajudou na intermediação para que o programa federal Luz Para Todos chegasse às casas ribeirinhas da reserva.
O trâmite do plano de ampliação das áreas protegidas ainda será longo. Entre as etapas estão: definição com as comunidades do novo desenho das unidades de conservação, audiências públicas, oficialização da proposta pelo ICMBio e avaliação do Ministério do Meio Ambiente. Caso a proposta seja aprovada pela pasta ambiental, será encaminhada a outros ministérios e ao governo baiano. Por fim, depende de sanção presidencial.
*A repórter viajou a convite da WWF-Brasil
