SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - "Se não fosse esse vacilo de ficar roubando pedestre, tava todo mundo de boa porque já tinham até dado esse espaço pra gente", afirma Cauã Oliveira (nome fictício), 36, enquanto queima a minúscula pedra amarelada em um invólucro de palha de aço, aspirando a fumaça com um delicado tubo de metal.
Encostado na mureta do viaduto General Couto de Magalhães, ele relata que o cerco policial fez minguar a chegada do crack à rua dos Protestantes, a alguns metros adiante. Faz um ano que o endereço na região central de São Paulo está sem as centenas de dependentes químicos que conferiam ao lugar o apelido de cracolândia.
Nos arredores da estação Júlio Prestes, uma tríplice divisa dos distritos centrais Bom Retiro, Santa Cecília e República, o fluxo de usuários do entorpecente se fixou em diferentes endereços nas últimas três décadas. Eram concentrações de 1.000 a 4.000 pessoas, em uma contagem que raramente conseguiu ser precisa devido à flutuação desse público.
Nos últimos 12 meses, o que se vê são grupos geralmente menores do que uma dezena perambulando pela área, forçados a se movimentar constantemente para escapar das revistas feitas pela Polícia Militar e pela Guarda Civil Metropolitana.
Para ter acesso à droga, usuários como Oliveira, que é de Santo André, na Grande São Paulo, arrecadam dinheiro com seus respectivos grupos e se deslocam até algum ponto de venda na periferia. "Eu mesmo já fui buscar várias vezes", conta ele sobre sua participação no mutirão para traficar pequenas quantidades da substância.
Apesar da escassez provocada pelo jogo de gato e rato praticado pelas forças de segurança municipal e estadual, usuários que persistem em usar o crack no centro da cidade relatam que o fazem porque se sentem ainda mais estigmatizados nos bairros.
Circulam em média de 214 usuários pela região, majoritariamente por locais como o parque Princesa Isabel, a praça Marechal Deodoro e a avenida Duque de Caxias, mostram dados oficiais aos quais a Folha teve acesso. Raramente são os mesmos de um dia para o outro, mantendo um padrão da cracolândia, que tinha menos de 10% de frequentadores assíduos.
A persistente presença de dependentes químicos está aos olhos de quem passa pelas áreas mencionadas, mas também em outros pontos, como no distrito da Sé. Mas residentes e comerciantes das áreas mais críticas relatam expressiva redução do tráfico e consumo de crack em suas portas.
"Meu objetivo era vender e sair daqui. Hoje não penso mais dessa forma, estou feliz", diz a professora Agda Morelli, 50, moradora de um prédio na esquina da rua dos Protestantes.
"Está excelente", diz Virgílio Fróes, 63, comerciante de veículos estabelecido na rua Helvétia desde 1980. Ele atribui ao aumento do policiamento a mudança do cenário no bairro, agora com uma aparente retomada do comércio. "Tem bastante polícia, dá até para andar com celular na mão."
Patrulhas nas vias são apenas a ponta visível da cadeia de ações adotadas pelo poder público para desmontar a última grande cena aberta de uso de drogas no centro, segundo Felício Ramuth, vice-governador de São Paulo e coordenador das ações do governo de Tarcísio de Freitas (Republicanos) na cracolândia.
Ramuth atribui esse resultado a uma combinação de medidas nas áreas de segurança pública, zeladoria, urbanismo, saúde e assistência social adotadas dentro dos limites legais para que não pudessem ser judicialmente barradas.
Ainda em 2023, quando a cracolândia estava na rua dos Gusmões, as primeiras estratégias adotadas foram a limpeza da via três vezes ao dia. A dissipação momentânea do fluxo facilitava a identificação de frequentadores da cena que descumpriam regras de liberdade condicional.
Foram emitidas 5.000 notificações para indivíduos que deveriam voltar ao regime fechado, apesar de apenas 160 prisões. "É pouco, né? Mas foi ótimo, porque teve o efeito psicológico da presença do Estado no território", afirma o vice-governador sobre o momento em que ele considera que a cena começou a perder força.
Quando o fluxo se deslocou para a rua dos Protestantes, a cerca de 1 km da Gusmões, câmeras de monitoramento foram instaladas no entorno. Filmagens, incluindo as feitas por drones, passaram a identificar traficantes. Prisões em flagrantes passaram a ser possíveis porque a Justiça passou a chancelar o uso dessas imagens como prova. Cerca de 1.700 pessoas foram presas na cena de uso, segundo números do governo.
Foi na área da saúde, porém, que a estratégia desenvolveu um instrumento apontado por Hamuth como fundamental: o Hub de Cuidados em Crack e Outras Drogas. Trata-se de um centro ambulatorial para triagem, diagnóstico e destinação imediata para tratamento de usuários, que podem tanto chegar por conta própria ou encaminhados por assistentes sociais e pelos Caps, o serviço de saúde mental do SUS.
Embora o local já existisse com o nome de Cratod, sua metodologia foi alterada para uma linha de atendimento individualizada, com o usuário regularmente encaminhado para hospitais ?o que pode incluir internações involuntárias ? e para comunidades terapêuticas.
O governo afirma que 29 mil pessoas já receberam atendimento graças ao aumento da oferta de tratamento. Somente em hospitais especializados, o número de leitos subiu de 120 para 729, segundo o coordenador do hub, Quirino Cordeiro.
Robson Gomes de Oliveira, 59, é um operador de estacionamento que pela segunda vez estava deixando o centro de atendimento rumo a uma comunidade terapêutica. Usuário de crack há 30 anos, passa a vida entre tentativas de recuperação e recaídas. "Eu tenho que ficar internado porque a compulsão pela droga é grande", conta.
Críticos da estratégia do estado, como é o caso do promotor de Justiça da Saúde Pública Arthur Pinto Filho, afirmam que tais medidas apenas dispersaram a cracolândia e que a central de triagem é só uma "roleta giratória".
Recaídas são parte do processo de tratamento, segundo Clarice Madruga, pesquisadora da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo) e coordenadora do Lecuca, o principal levantamento sobre cenas de uso nas capitais.
Ela afirma que a diferença do atual modelo em relação a outros é a ampliação e manutenção da oferta de leitos. "É um divisor de águas", diz, alegando que é preciso estar de prontidão para o momento em que pessoas como Robson procuram o sistema. "A dependência química oferece poucas janelas de oportunidade para o tratamento, se perdemos hoje, amanhã ela não vai estar lá".
