SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - A capacidade humana de gostar e fazer música tem raízes na biologia, o que torna os seres humanos inerentemente musicais, concluiu um artigo publicado em março na revista Current Biology.
"Humanos parecem possuir predisposição natural para aspectos da percepção musical que não dependem inteiramente de ensinamentos explícitos e treinamento cultural", afirma o autor do trabalho, Henkjan Honing, professor de Cognição Musical da Universidade de Amsterdã.
No artigo, Honing avaliou duas décadas de pesquisas no campo da psicologia, neurociência, biologia, genética e cognição animal.
Prova do aspecto biológico é que a música está presente em todas as culturas do mundo e, embora apresente uma enorme variação, traz alguns padrões consistentes entre as sociedades, como o uso de um pequeno conjunto de intervalos de altura, restrições nos padrões rítmicos e contornos melódicos característicos.
Estudos realizados com crianças também parecem apontar na mesma direção. Um de 2009 publicado na revista Pnas indica que recém-nascidos têm percepção de ritmo, o que reforça a visão de que isso seria uma habilidade inata.
A evolução de diferentes métodos de pesquisa, o que inclui estudos de desenvolvimento infantil, comparações interculturais, experimentos com animais não humanos e avanços da neurociência permitiram outras análises sobre a capacidade humana de fazer música.
De acordo com Honing, esses avanços voltaram o foco das análises para a musicalidade, definida como a capacidade biológica de apreciar e produzir sons estruturados. O aspecto apenas biológico do conceito de musicalidade, porém, não é um consenso entre especialistas.
A professora de educação musical da University of Southern California Beatriz Ilari concorda que a musicalidade tem um lado biológico, mas pondera que ela "não se desenvolve sozinha sem a cultura". Ela enxerga a musicalidade como um potencial, mas que nem sempre pode ser desenvolvido em razão do contexto cultural ou familiar.
Para ela, à medida que as pesquisas avançam, deve aumentar a integração do aspecto cultural e biológico nos estudos da musicalidade. No Brasil, em especial, faltam pesquisas sobre o assunto, embora elas sejam ainda mais necessárias já que a cultura brasileira é bastante musical, diz.
Patrícia Vanzella, coordenadora do projeto Neurociência e Música na Universidade Federal do ABC (UFABC) e diretora da Associação Brasileira de Cognição e Artes Musicais, acrescenta que a musicalidade emerge da "interação dinâmica entre predisposições biológicas e influências culturais".
EVOLUÇÃO DA MUSICALIDADE
Se o ser humano é inerentemente musical, e a música o tem acompanhado por milênios, então é preciso entender qual função adaptativa essa capacidade ofereceu aos indivíduos.
Charles Darwin propôs que a música serviria para atrair parceiros sexuais. Mas outra vertente diz que a música tem o papel de promover a coesão social e fortalecer laços, já que está presente em todos os tipos de reunião humana, como cerimônias e rituais.
Para a professora da UFABC, as duas explicações são importantes, mas sozinhas são insuficientes para entender por que a música sobrevive há milênios. "Ela [música] serviu para coesão social, sim, e também como ferramenta de comunicação emocional e também para uma série de outras coisas."
Uma das ideias sobre evolução que tem acumulado cada vez mais evidências é a hipótese de multicomponentes, em que a musicalidade é um mosaico de habilidades, cada qual com uma origem diferente, esclarece Honing. Enquanto algumas dessas habilidades podem ser bastante antigas e compartilhadas de forma ampla, outras estão presentes em apenas algumas espécies. O número, a quantidade e a evolução desses componentes permanecem questões abertas.
OUTROS ANIMAIS TAMBÉM APRESENTAM MUSICALIDADE?
Segundo Honing, "o desenvolvimento por completo da forma humana de musicalidade parece ser elaborada unicamente na nossa espécie", mas outros animais apresentam habilidades dentro do mosaico da musicalidade. Algumas espécies têm capacidade de sincronização, aprendizado musical, percepção de agudos e graves e processamento rítmico.
Um estudo publicado em 2025 na revista Science demonstrou que macacos conseguem sincronizar batidas a uma música de forma até espontânea, o que pode sugerir que essa habilidade evoluiu de forma gradual entre os primatas.
Também ficou famoso o vídeo divulgado em 2007 da cacatua Snowball, em que o pássaro sincronizava diferentes movimentos ao ritmo das músicas, o que forneceu um dos primeiros indicativos de que animais não humanos teriam percepção de batida musical e sincronização.
Em estudo com Snowball posterior a publicação do vídeo, pesquisadores fizeram com que os tutores da ave a gravassem "dançando" em mais quatro vídeos no ano de 2008. Com isso, os cientistas notaram que a cacatua ajustava o tempo de seus movimentos rítmicos para permanecer sincronizado com a batida.
A RELAÇÃO ENTRE LINGUAGEM E MÚSICA
Apesar de a música ter sido tratada por alguns cientistas como um subproduto da linguagem, Honing diz que diversas evidências têm descartado que a música seria apenas "linguagem com decoração". É possível que a música, na verdade, tenha precedido a linguagem, destaca o artigo na Current Biology.
Estudos de neuroimagens mostram que música e fala dependem de regiões diferentes do cérebro e que, possivelmente, essas áreas se desenvolveram de forma independente. Honing também destaca que algumas pessoas podem ter problemas na linguagem e ainda preservar importantes habilidades musicais e vice-versa.
