SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Uma operação da Polícia Civil de São Paulo prendeu na manhã desta segunda-feira (27) quatro pessoas suspeitas de se infiltrar no setor público para, por meio de contratos públicos, lavar dinheiro do tráfico de drogas para a facção criminosa PCC (Primeiro Comando da Capital).

A Justiça também autorizou 22 buscas e apreensões e determinou o bloqueio de mais de R$ 513 milhões em bens ligados aos investigados.

Os mandados foram cumpridos em sete cidades paulistas ?São Paulo, Ribeirão Preto, Guarulhos, Santo André, Mairinque, Campinas e Santos?, em Goiânia, Brasília e Londrina (PR).

As ações desta segunda são um desdobramento de uma primeira operação, de 2024, e resultam da apreensão de dispositivos eletrônicos que armazenavam informações sobre o funcionamento da quadrilha.

A principal estratégia dos investigados estava no uso de contratos entre prefeituras e uma fintech, a 4TBank, responsável por operacionalizar o esquema de lavagem de dinheiro, de acordo com a Polícia Civil.

O objeto de negociação da empresa envolvia gerenciamento de pagamentos das administrações locais, uma movimentação financeira que permitia a ela dissimular a origem ilícita dos recursos.

"O que se apurou foi uma estrutura sofisticada, que buscava não apenas lucrar com atividades ilícitas, mas também se infiltrar em esferas do poder público para potencializar esses ganhos e dar aparência de legalidade aos recursos", afirmou o delegado Fabrício Intelizano, responsável pela investigação.

Duas pessoas são apontadas como lideranças da rede de negócios.

A primeira é João Gabriel de Mello Yamawaki, criador da fintech 4TBank e responsável pela interlocução do grupo com a classe política. Ele está foragido, e a reportagem não conseguiu identificar sua defesa.

Era uma tarefa que realizava ao lado do ex-vereador de Santo André Thiago Rocha de Paula, preso nesta segunda-feira e braço direito de Yamawaki, segundo as investigações.

Thiago é suspeito de manter ligações com a principal liderança do PCC na região do ABC, conhecido como "Beiço de Mula". A Folha não havia localizado a defesa do ex-vereador até a última atualização deste texto.

As investigações afirmam existir "indícios verossímeis de que uma das atividades criminosas executadas pela organização criminosa ?senão a principal delas? é o tráfico de drogas".

Além de suspeitos ligados ao criador da fintech, a Polícia Civil também cumpriu mandados de busca e apreensão em endereços relacionados a agentes políticos.

Um deles é o ex-secretário de Finanças de Santo André Pedro Seno, atual diretor de Tecnologia da Fundação do ABC.

A FUABC, como é conhecida, é a entidade que mais recebe verba pública em contratos na saúde em todo o estado de São Paulo.

No ano passado, a entidade foi citada nas investigações que levaram o TJ-SP (Tribunal de Justiça de São Paulo) a afastar o prefeito de São Bernardo do Campo, Marcelo Lima, em decisão posteriormente revertida.

A entidade afirmou ter afastado Seno de suas funções após o contato da reportagem para "assegurar a devida apuração dos fatos, bem como garantir ao profissional o pleno direito ao contraditório e à ampla defesa".

"Adicionalmente, importante ressaltar que, com base nas informações preliminares divulgadas pela imprensa, não há nenhuma relação da operação policial mencionada com a Fundação do ABC e suas atividades."

Já a Prefeitura de Santo André afirmou que "não possui qualquer contrato vigente com empresas ou pessoas físicas cujos nomes tenham sido citados na operação".

Endereços ligados a outros agentes políticos também foram atingidos pela decisão.

Um deles é ligado a Matheus Tognella, presidente do PSB de Nova Odessa, no interior de São Paulo, que já ocupou cargo na Prefeitura de Campinas, de acordo com a polícia.

Segundo as investigações, ele teria mantido contato com o ex-vereador Thiago Rocha, preso nesta segunda, para levar a 4TBank ao município.

A reportagem ligou e enviou mensagens a Tognella, mas não obteve resposta. A Prefeitura de Campinas disse em nota que o caso não guarda relação com a atual gestão.

Diálogos encontrados por investigadores apontam para outras ligações entre a organização criminosa e o PSB.

Em uma das conversas entre o ex-vereador de Santo André e o criador da 4TBank, por exemplo, a Polícia Civil identificou fotos entre o advogado Gabriel Miceli de Carvalho, candidato derrotado do PSB a vereador de Santos em 2024 e atual diretor de Conselhos Municipais e Inovação da subseção da OAB de Santos.

"Santos no mapa. Nosso mapa eleitoral", escreveu o ex-vereador agora preso. Para a polícia, há indícios de que Miceli "seria de interesse para o grupo político ou até mesmo para o PCC".

Miceli disse à Folha que ainda não teve acesso aos autos, mas que esteve com o ex-vereador de Santo André durante apenas uma ocasião, porque ambos faziam parte da Raps (Rede de Ação Política pela Sustentabilidade), organização sem fins lucrativos sobre boas práticas em gestão pública. A subseção da Ordem dos Advogados em Santos não respondeu ao e-mail enviado pela reportagem.

O PSB disse em nota não ser investigado e afirmou que vai aguardar o trâmite do caso.

Numa outra mensagem, Rocha disse a Yamawaki, a quem se referiu como "líder", que "entramos em Ribeirão [Preto]". Seria uma referência a Marcos Papa, na época vereador do município do interior de São Paulo, que também teria demonstrado interesse pelos serviços da 4TBank.

Marcos Papa não atendeu nem respondeu às mensagens encaminhadas pela Folha tanto pelo WhatsApp como pelas redes sociais.

A presença de atores estatais, afirmou a Polícia Civil ao pedir a prisão dos envolvidos, "compromete sobremaneira a ordem pública e a própria estrutura do Estado brasileiro", algo de extrema gravidade de acordo com a corporação.

A fintech também se utilizava de fundações sem fins lucrativos para lavar dinheiro, apontam as investigações.

Uma delas é a Fundação Sagres, de Minas Gerais, que recebeu parte dos recursos direcionados à lavagem de dinheiro, apontam documentos obtidos pela Polícia Civil. A entidade não respondeu à tentativa de contato da Folha.

Há outras entidades citadas, parte delas ligadas a um homem que a Polícia Civil diz ser interlocutor do grupo em Brasília: Adair Antônio de Freitas Meira. A reportagem tentou contato com um telefone registrado em nome dele, mas não obteve retorno

Adair, segundo as investigações, pagava boletos emitidos pelo 4TBank e depois recebia de volta a maior parte do valor em espécie. Parte dos recursos era transportada por meio de um helicóptero.