RIO DE JANEIRO, RJ (FOLHAPRESS) - Quando Douglas Christian de Almeida, 30, acordou do coma após 17 dias, estava algemado. Sem parte da mandíbula, atingido por dois tiros de fuzil, ele diz que não conseguia entender por que era vigiado nem a restrição a visitas. Sua última lembrança haviam sido os disparos de policiais militares contra seu carro, no dia da Operação Contenção, na Penha e no Alemão, na zona norte do Rio de Janeiro.
Nesta terça (28), completam-se seis meses da ação policial mais letal do país, com 122 mortos, cinco deles policiais. Douglas passou a responder ao processo com liberdade condicional, com uso de tornozeleira eletrônica e horários restritos para sair de casa. Morador de Inhaúma, bairro vizinho à Penha, ele afirma ser inocente.
"A operação começou às 5h da manhã. Já eram 20h e achei que estava calmo para sair. Fui fazer uma entrega da empresa da minha esposa, que trabalha com produtos naturais. Quando estava voltando para casa, os policiais fizeram mais de dez disparos na minha direção. Falaram que eu estava com arma, mas os vídeos mostram que não teve arma apreendida", disse.
Os agentes, que estavam com as câmeras corporais descarregadas, apresentaram uma arma na delegacia e afirmaram que ela estava no carro dele.
Para voltar a falar, o empreendedor conta que os médicos retiraram um osso da perna dele para reconstruir a mandíbula. Sua alimentação está restrita a líquidos, já que não consegue abrir a boca para mastigar e está sem a maioria dos dentes. Seu advogado, Gil Santiago, disse que tenta a absolvição dele no processo. Douglas responde por outro processo, por ter sido flagrado com uma moto clonada. Sua defesa diz que o veículo era de um amigo.
Procurada por email e telefone, a Polícia Militar não comentou o caso.
A reportagem ouviu moradores do Complexo da Penha, que temem que ocorra outra operação como a Contenção, em ano eleitoral. Após a ação, pesquisa Datafolha mostrou que a gestão Cláudio Castro (PL) chegou ao seu maior índice de aprovação desde 2022, com 40% dos moradores do Rio de Janeiro e da região metropolitana da capital achando o trabalho ótimo ou bom.
Com a onda de aprovação, o então secretário de Polícia Civil do Rio de Janeiro, Felipe Curi, passou ser cotado para uma vaga na Câmara dos Deputados. Indagado sobre a opinião dos moradores, Curi disse que "quem afirma que a operação foi política é quem realmente está politizando a questão". "As pesquisas mostraram que cerca de 90% dos moradores de comunidades aprovaram a operação", declarou.
O mesmo dado é destacado pela Secretaria de Segurança Pública. "Uma pesquisa realizada pela AtlasIntel, dois dias após a Operação Contenção, indicou que 8 em cada 10 moradores de favelas da capital fluminense aprovaram a megaoperação contra o Comando Vermelho. Os dados mostram que 87,6% desse público apoiaram a ação", afirma a pasta em nota.
Moradores dos complexos da Penha e do Alemão ouvidos pela reportagem afirmaram que as ações policiais não resultaram em mudanças na comunidade. Não houve desarticulação do crime, dizem. E, além do tiroteio, ações como a de outubro prejudicam o acesso a escolas e aos serviços de saúde.
Em nota, a secretaria afirmou que "a Operação Contenção é uma iniciativa contínua da Secretaria de Segurança Pública e não se restringe apenas aos Complexos da Penha e do Alemão". "No caso da ação realizada em outubro do ano passado, a escolha da localidade se deu pelo fato de a região concentrar 'o QG do Comando Vermelho'", afirma, e as investigações "apontarem a necessidade da operação".
A pasta ressaltou que o Ministério Público acompanhou a operação, assim como a Defensoria Pública.
Sobre possíveis abusos, em março de 2026, o Ministério Público do Rio de Janeiro denunciou dez policiais militares do Batalhão de Ações com Cães por suspeita de manipulação de câmeras corporais e de invasões ilegais a residências. Segundo as investigações, os agentes teriam posicionado as câmeras de forma inadequada para impedir a visualização de suas ações durante as ocorrências.
Ao longo da apuração e análise das imagens obtidas, os promotores apresentaram oito denúncias envolvendo 19 policiais militares. As acusações incluem peculato, violação de domicílio e insubordinação. Em um dos casos, há suspeita de roubo de um fuzil. Em outro, roubo de um celular de um morador. Eles ainda não foram julgados, mas estão afastados das ruas.
A reportagem pediu, no decorrer do último mês, uma entrevista com o promotor responsável pela investigação das mortes e o posicionamento do órgão a respeito da investigação.
Em nota nesta segunda (27), a Promotoria afirmou que analisa mais de 3.600 horas de gravações das câmeras corporais da Polícia Militar, além dos registros da Polícia Civil, que emitou recomendações aos secretários de Segurança Pública, Polícia Civil e Polícia Militar para "redução de riscos, mitigação de danos e contenção da letalidade" e o aprimoramento do uso das câmeras policiais.
No comunicado, o órgão também diz que realiza oitivas de agentes envolvidos em confrontos armados, a partir da identificação daqueles que registraram consumo de munição no dia da operação.
Pessoas ligadas à investigação afirmaram que a principal dificuldade no avanço das investigações continua sendo a vinculação dos mortos aos policiais. Os registros de ocorrência não especificam quais agentes são os responsáveis pelos confrontos. O Gaesp (Grupo de Atuação Especial em Segurança Pública), da Promotoria estadual, tenta reconstituir o desenrolar da operação, com as imagens de câmeras disponíveis.
Já a Defensoria Pública afirma que, até agora, a Polícia Civil não repassou as imagens da operação. "Já fizemos vários pedidos, sem resposta. Essa é uma grande dificuldade que temos com a Polícia Civil", disse Marcos Paulo Dutra, coordenador do Núcleo de Defesa dos Direitos Humanos. A corporação, por sua vez, disse que cumpriu a determinação do STF (Supremo Tribunal Federal) e enviou as imagens para a Promotoria e a Polícia Federal.
O órgão diz apurar os relatos de moradores sobre episódios de abusos, ameaças e impedimento de socorro durante a megaoperação.
