SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Suspeito de liderar um esquema de lavagem de dinheiro para o PCC (Primeiro Comando da Capital), João Gabriel de Mello Yamawaki estava em um helicóptero que pousou, com aval, no Palácio dos Bandeirantes a fim de abreviar sua ida a um jogo de futebol no estádio do Morumbi, que fica a 1,3 quilômetro da residência oficial do governador de São Paulo.

O caso ocorreu no início de 2022, durante a gestão João Doria. O ex-governador declarou à Folha de S.Paulo que não vai comentar o caso e que as tratativas sobre o uso do heliponto cabem à Casa Militar. O órgão é subordinado ao gabinete do governador.

Já a gestão do governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) afirmou que "o caso mencionado ocorreu em março de 2022, portanto, sem qualquer relação com a atual gestão". Afirmou também que "a autorização para pousos e decolagens no heliponto do Palácio dos Bandeirantes segue critérios técnicos e operacionais determinados pela Agência Nacional de Aviação Civil (Anac)".

A informação sobre o uso do espaço consta da representação da Polícia Civil de São Paulo que fundamentou a operação realizada nesta segunda-feira (28) para combater a infiltração do PCC no setor público. Quatro pessoas foram presas e outros 22 mandados de busca e apreensão foram cumpridos pela Polícia Civil.

Yamawaki estava foragido quando a Polícia Civil pediu sua prisão, no início do ano, mas ele acabou detido há cerca de dois meses em Paranã, no Tocantins, onde se encontra desde então.

Ele é fundador da 4TBank, fintech criada para, segundo as investigações, angariar contratos com prefeituras e lavar dinheiro do PCC.

Seu braço-direito no suposto esquema era o ex-vereador de Santo André Thiago Rocha de Paula, um dos presos na operação desta segunda e o responsável por costurar o pouso do helicóptero no Palácio dos Bandeirantes em 2022.

Naquela ocasião, Yamawaki chegou até a residência oficial do governador do estado acompanhado de familiares. A reportagem não identificou quem realiza a defesa dele e do ex-vereador.

A polícia diz que as circunstâncias do pouso ainda merecem apuração, mas que o ex-vereador de Santo André possivelmente pediu a Adriano Guimarães, que na época trabalhava na Secretaria de Desenvolvimento Econômico, interlocução com a Casa Militar para o uso do heliponto.

Há indícios, segundo as investigações, de que o então comissionado da pasta "seria a pessoa responsável por 'agilizar' o uso das dependências do Palácio do Governo por um integrante do PCC".

Guimarães não consta como investigado. Ele disse à Folha de S.Paulo que não tem ideia do que possa ter ocorrido.

"Primeiramente que eu não tinha autonomia nem autoridade para dar tal autorização, nem tinha acesso para fazer o pedido e não sei nem quem são essas pessoas citadas", afirmou.

A justificativa oficial teria sido a de que Yamakawi pertencia a uma delegação do Japão. "Surpreendeu-nos a rapidez com que todo esse trâmite se desenvolveu, já que as tratativas se iniciaram às 8h58 e a autorização foi deferida às 14h23", diz a Polícia Civil.

Conversas entre o ex-vereador de Santo André e Yamawaki obtidas durante as investigações sugerem que a dupla chegou a ficar apreensiva antes da autorização e depois celebrou o aval.

"Vamos aguardar. Bem-vindo ao governo de São Paulo", escreveu Thiago ao colega na época. "Melhor governo que já conheci na vida", respondeu Yamawaki.

Quando a autorização chegou por e-mail, Rocha encaminhou ao colega uma cópia do documento e disse "Quero mais R$ 2.000 caralho. Que força é essa manoooo".

"Fodástico", rebateu Yamawaki.