RAQUEL LOPES

BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS) Um relatório da Abin (Agência Brasileira de Inteligência) aponta que o Brasil é "ponto estratégico" nas dinâmicas internacionais de contrabando de migrantes devido a extensa fronteira, localização geográfica e a uma política migratória acolhedora do país.

Nesse contexto, o país tem ao menos 14 estados com rotas estruturadas para migração irregular, segundo o documento. Esses corredores são usados tanto por brasileiros que tentam deixar o país, sobretudo com destino aos Estados Unidos, quanto por estrangeiros que atravessam o território brasileiro rumo a outros países ou chegam ao Brasil em busca de trabalho.

O Brasil faz fronteira com quase toda a América do Sul, à exceção de Chile e Equador, totalizando mais de 16 mil quilômetros de fronteiras terrestres e fluviais.

O diagnóstico consta no relatório "Contrabando de Migrantes no Brasil: uma análise de inteligência", primeiro levantamento nacional sobre o tema, ao qual a Folha teve acesso. O documento é produzido pela Abin em parceria com a OIM (Organização Internacional para as Migrações).

No Brasil, migrar de forma irregular não é crime --o crime está em quem organiza, financia e lucra com a travessia clandestina. Essas redes costumam estar ligadas a outros delitos, como falsificação de documentos, corrupção e lavagem de dinheiro, o que dificulta a ação das autoridades.

Uma estrutura típica costuma contar com coordenadores, recrutadores, coiotes, transportadores, falsificadores, intermediários financeiros e agentes logísticos. Os papéis, porém, podem ser desempenhados por um único contrabandista ou distribuídos entre vários indivíduos.

O recrutamento de migrantes costuma começar por indicação de pessoas de confiança, como amigos, parentes ou conhecidos que já usaram esse tipo de serviço. Segundo o documento, aplicativos de mensagens e redes sociais têm ganhado espaço nesse processo, ampliando o alcance dessas redes.

Plataformas de vídeos curtos, como TikTok e Kwai, passaram a ser usadas com mais frequência para promoção, recrutamento e comunicação entre contrabandistas e migrantes.

O Kwai disse, em nota, que não teve acesso ao documento. No entanto, informou que não permite conteúdos, atividades ou comportamentos que promovam, facilitem ou organizem práticas ilegais.

"A plataforma mantém políticas de comunidade e mecanismos de detecção, revisão e remoção de conteúdos que violem essas regras, além de canais de denúncia disponíveis aos usuários e autoridades", disse.

A plataforma Tik Tok foi procurada às 10 horas desta terça-feira (28), mas não retornou até o fechamento do texto.

O Brasil tem 14 estados com rotas mapeadas de migração irregular. Em alguns, o território é usado principalmente como corredor de passagem; em outros, há concentração de estrangeiros que chegam em busca de trabalho. Também há estados que se destacam como pontos de saída de brasileiros que tentam deixar o país.

MIGRAÇÃO DE OUTRAS NACIONALIDADES PARA O BRASIL

Paraná, Santa Catarina, Mato Grosso e Rio Grande do Sul estão entre os destinos de migrantes atraídos por trabalho no Brasil, sobretudo em setores com déficit de mão de obra. No Paraná, o fluxo é puxado principalmente por venezuelanos, que chegam via Roraima e são absorvidos por cooperativas e cadeias do agronegócio no interior.

No caso de migrantes que são vítimas de redes de contrabando, a atração dessas pessoas funciona de formas distintas. Em Mato Grosso, por exemplo, as redes atuam por estradas vicinais e rotas clandestinas. O esquema inclui cobrança por serviços gratuitos, falsas promessas de emprego e controle da mobilidade dos migrantes e a dependência econômica de quem chega.

Há outros estados que são usados sobretudo para trânsito de migrantes, com permanência curta e deslocamento para outros destinos, como Acre, Amapá, Amazonas, Pará e Roraima. Nesses casos, o papel central não é absorver mão de obra nem fixar migrantes, mas funcionar como elo logístico entre fronteiras, rotas que seguem para o Sul e Sudeste do Brasil ou para outros países.

O Acre, por exemplo, é um estado que serve como corredor estratégico de entrada e saída por conectar o Brasil ao Peru e à Bolívia por via terrestre, sendo usado tanto por venezuelanos que seguem ao Sul e Sudeste em busca de trabalho quanto por estrangeiros que deixam o Brasil rumo a outros países.

MIGRANTES BRASILEIROS

Minas Gerais segue como o principal polo de origem da migração irregul ar de brasileiros para os Estados Unidos, com forte concentração no Vale do Rio Doce, região historicamente ligada a esse fluxo. Mais recentemente, as redes ampliaram sua atuação para cidades do interior do Espírito Santo.

Esses grupos atuam com aliciamento local, montagem de rotas internacionais e uso de documentação fraudulenta para viabilizar a viagem. Os pacotes podem custar até US$ 20 mil por pessoa e incluem voos, deslocamentos terrestres e travessias clandestinas a pé na fronteira americana.

Segundo integrantes da agência que acompanham o tema, o endurecimento das políticas migratórias para quem deseja sair do Brasil tem ampliado a procura por redes clandestinas para que aumentem as chances de sucesso na travessia.

No entanto, migrantes em rotas irregulares enfrentam graves riscos à saúde por exposição a climas extremos e falta de assistência médica, além de estarem vulneráveis à violência e exploração criminosa. A precariedade econômica, vinda de dívidas com contrabandistas, agrava a vulnerabilidade e pode resultar em situações de tráfico humano ou recrutamento forçado para o crime organizado.

ESTADOS COM ROTAS DE MIGRAÇÃO IRREGULAR

ACRE

O estado funciona como corredor de entrada e saída, com fluxo de venezuelanos rumo ao Sul e Sudeste e de migrantes estrangeiros que usam o Acre como rota de saída do Brasil para outros países.

AMAPÁ

O estado é usado sobretudo como rota de trânsito, com permanência curta dos migrantes, que seguem para outras regiões do Brasil ou para destinos no exterior.

AMAZONAS

O Amazonas atua ao mesmo tempo como destino e corredor estratégico da migração no Brasil, conectando rotas sul-americanas aos fluxos que seguem para o norte do continente.

MATO GROSSO

O Mato Grosso atua como destino e corredor terrestre de migrantes, com destaque para fluxos voltados ao trabalho rural.

MATO GROSSO DO SUL

O estado é um ponto estratégico das rotas migratórias por reunir entrada, saída, trânsito e destino de estrangeiros.

MINAS GERAIS E ESPÍRITO SANTO

Minas Gerais é o principal estado de origem da migração irregular de brasileiros para os Estados Unidos, com forte concentração no Vale do Rio Doce. O movimento tem se ampliado para o Espírito Santo.

PARÁ

O Pará é usado principalmente como rota de passagem para migrantes em deslocamento irregular para quem tenta seguir viagem ao Sul e Sudeste do Brasil ou para países vizinhos.

PARANÁ

O Paraná se destaca mais como destino de imigrantes em busca de trabalho do que como porta de entrada irregular. A maior parte chega ao Brasil de forma regular, sobretudo por Roraima. As redes atuam de forma diversificada, combinando oferta de rotas, promessas de emprego e exploração de brechas migratórias.

RIO GRANDE DO SUL

O estado é, ao mesmo tempo, destino de imigrantes em busca de trabalho e corredor de circulação migratória. As redes atuam facilitando travessias e recrutando mão de obra vulnerável para trabalho precário no campo e na indústria.

RONDÔNIA

O estado se consolidou como ponto de origem de brasileiros que recorrem a redes de migração irregular para os Estados Unidos. As redes atuam por indicação pessoal, redes sociais e aplicativos de mensagem, negociando rotas que custam entre R$ 30 mil e R$ 80 mil.

RORAIMA

Roraima segue como principal porta de entrada de migrantes no Brasil, com perfil distinto entre venezuelanos e cubanos. As redes atuam principalmente oferecendo transporte, hospedagem, alimentação e intermediação da viagem por valores entre US$ 1,2 mil e US$ 10 mil.

SANTA CATARINA

O estado recebe estrangeiros por interiorização, recrutamento direto de empresas e fluxos espontâneos, além de registrar circulação sazonal de trabalhadores para colheitas e atividades rurais. As redes atuam por recrutamento laboral, promessas de facilitação migratória e transporte irregular.

SÃO PAULO

São Paulo é o principal eixo da migração irregular no Brasil, funcionando ao mesmo tempo como porta de entrada, trânsito e saída. O Aeroporto de Guarulhos se consolidou como principal hub de conexão migratória do país.