SANTA MARTA, COLÔMBIA (FOLHAPRESS) - "A unidade dos Estados fracassou nas COPs e na ONU. Prevaleceu a impotência para resolver as guerras e a crise climática. A COP30 [no Brasil] é uma demonstração. As guerras que vemos são uma demonstração." A fala faz parte do discurso do presidente colombiano, Gustavo Petro, nesta terça-feira (28), na conferência pelo abandono dos combustíveis fósseis (a Taff, sigla para "Transitioning away from fossil fuels).
O encontro em Santa Marta, na Colômbia, surgiu, em parte, como uma resposta e reação à grande dificuldade das COPs (as conferência da ONU para mudanças climáticas) de lidar com algo básica da crise do clima: os combustíveis fósseis.
A Colômbia, por sinal, quase bloqueou o fim da COP30 que ocorreu em 2025 em Belém, no Brasil, exatamente pela não menção, no documento final, da grande causadora da crise do clima, a energia fóssil. Todos os países precisam concordar unanimemente com a decisão e o texto publicado ao fim do evento.
O quase bloqueio pela Colômbia foi citado no início do discurso de Petro, nesta terça-feira.
"Aqui está suficientemente clara a posição colombiana que, ao lado dos Países Baixos, nos permite convocar essa conferência", disse o presidente. "Na COP30, nos opusemos. Segundo as regras, a objeção de um só país não permite a oficialização da declaração. Fizemos por uma razão básica e única. [...] A COP30 não considerou o relatório científico que disse que 75% da crise climática se deve à extração e consumo de hidrocarbonetos. E nem sequer escreveram o parágrafo [sobre energia fóssil] porque o lobby petrolífero impediu."
O percentual mencionado por Petro diz respeito às emissões de gases-estufa associadas aos combustíveis fósseis.
No fim da COP30, a queda de braço para incluir a menção a um mapa do caminho no texto final foi exposta por Irene Vélez-Torres, ministra de Meio Ambiente da Colômbia. "Não vamos aceitar um texto que não atenda ao objetivo de [limitar o aquecimento global a] 1,5°C. E acreditamos que a eliminação gradual dos combustíveis fósseis é absolutamente necessária para atingir esse objetivo."
O texto final não teve a menção pretendida pela Colômbia e outros países. Apesar disso, o presidente da COP30, André Corrêa do Lago, abraçou a ideia e se comprometeu a, por um processo paralelo, formular um roteiro para o fim dos combustíveis fósseis. Até agora, porém, o documento não ficou pronto.
A conferência em Santa Marta, porém, afastada do funcionamento tradicional das COPs e suas restrições, não se concentra em negociações -e em convencimento de outros países, como têm repetido autoridades na cidade. Parte do objetivo do evento é construir bases para que nações construam os chamados mapas do caminho para abandono dos combustíveis fósseis -uma herança da COP30.
Vale mencionar que, apesar de ambos não estarem distantes no espectro político, há um histórico de troca de farpas entre Petro e o governo Lula (PT). Por exemplo, o colombiano já fez críticas a governos progressistas na América Latina que continuam a apoiar a exploração de petróleo, como é o caso da administração petista.
No discurso, Petro também afirmou que a crise climática é uma luta política e social, não só científica, e que, em cada desafio, surge uma resistência social e política articuladas ao poder que existe.
Petro questionou a capacidade do capitalismo de se adaptar a um modelo de energia não fóssil. "Essa pergunta não respondo aqui. Ela deve ser parte de uma reflexão. Quando eu ia nas COPs, nos primeiros dois anos [de seu governo], parecia que sim. Falavam da transição [...], como o mercado poderia levar a uma solução, de taxação de carbono", disse ele. "Mas hoje eu sou cético."
O presidente ainda citou que a situação atual vai acabar levando a uma oposição entre humanidade e capital, gerando tensões mundo afora.
"O que eu vejo é que é tal a resistência, a inércia, o poder e a economia nesse modo de energia arcaico [os combustíveis fósseis], que o capital pode se suicidar, com a humanidade e a vida incluídos. "A humanidade não pode permitir isso."
Segundo Petro, com a impotência mencionada da unidade de Estados, a partir da ONU, é necessária a unidade dos povos.
