SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Ryan Santana dos Santos, o MC Ryan SP, afirmou à PF (Polícia Federal) ter renda mensal de cerca de R$ 1,5 milhão e negou envolvimento em crimes financeiros em depoimento prestado no âmbito de uma investigação que apura um esquema de lavagem de dinheiro de R$ 1,6 bilhão ligado a apostas e rifas ilegais.

À PF, o funkeiro declarou que suas receitas vêm de "patrocínios de bets legalizadas, shows, royalties de plataformas digitais" e de empresas próprias no ramo musical. Também afirmou que "não tem conhecimento da movimentação de valores em espécie ou criptoativos" envolvendo suas contas ou empresas.

O artista foi preso em 15 de abril, mesma data em que também foram detidos Marlon Brendon Coelho Couto Silva, o MC Poze do Rodo, e Raphael Sousa Oliveira, dono da página Choquei, além de outras 29 pessoas.

A reportagem buscou contato da defesa do MC Ryan, o advogado Felipe Cassimiro via mensagem, mas não obteve retorno nesta terça-feira (28). Em ocasiões anteriores, a defesa tinha negado a prática de crimes pelo artista.

No depoimento, Ryan negou "a existência de movimentações bancárias de valores ilícitos" e que "toda essa movimentação bancária [?] é regularmente declarada à Receita Federal". Segundo ele, contas pessoais e empresariais seguem as obrigações fiscais, com entrega regular de declarações.

A investigação aponta a existência de uma organização criminosa estruturada para lavar dinheiro de apostas e rifas ilegais. Do total de R$ 1,6 bilhão, aproximadamente R$ 790 milhões teriam origem em valores de apostadores, repasses de facções criminosas e depósitos em espécie sem identificação.

Durante o interrogatório, o cantor detalhou sua estrutura financeira. Disse ser proprietário de empresas ligadas à sua carreira, incluindo a Bololo Records Entretenimentos, voltada ao agenciamento de artistas, além da Mc Ryan SP Produção Artística Ltda e de uma holding patrimonial. Segundo ele, essas empresas concentram receitas de shows, publicidade e direitos autorais.

Ryan declarou possuir imóveis avaliados em milhões de reais, como a casa onde mora, além de apartamentos e uma chácara em Goiás. Também mencionou veículos de alto padrão. Conforme o depoimento, todos os bens estão declarados no imposto de renda.

Questionado sobre movimentações financeiras, afirmou não ter ciência de operações com dinheiro em espécie ou criptoativos, como usdt, nem participação em grupos de mensagens voltados a remessas de valores.

Ele negou práticas investigadas, como fracionamento de valores, uso de interpostas pessoas (laranjas), compensações informais e transporte de dinheiro em espécie, além de qualquer movimentação ilícita em suas contas.

Sobre transferências de menor valor, disse que, "por questões operacionais bancárias e de preservação", repassa quantias a colaboradores para pagamento de despesas de produção musical, como contratação de modelos e custos de gravação, funcionando como reembolso.

Outro ponto citado pela PF envolve o volume de microtransações via Pix. Segundo o cantor, esses valores podem estar ligados a pagamentos por publicidade de apostas e a transferências feitas por fãs.

O depoimento também menciona o uso de contas de terceiros. Ryan afirmou que, por limitações operacionais bancárias, utiliza contas de colaboradores para realizar pagamentos ligados à sua atividade, com posterior compensação, e negou qualquer relação com ocultação de recursos.

O artista afirmou ainda não se recordar de diversas empresas citadas no inquérito, ligadas a setores como tecnologia, pagamentos, publicidade e consultoria, mas disse que algumas podem estar relacionadas a contratos de publicidade, especialmente com casas de apostas.

Em relação a operações específicas, atribuiu movimentações apontadas pelos investigadores a atividades profissionais. Citou o recebimento de R$ 4,4 milhões como parte da venda de um imóvel, em negócio que, segundo ele, foi declarado à Receita Federal.

No mesmo inquérito, Marlon Brendon Coelho Couto Silva, o MC Poze do Rodo, optou por permanecer em silêncio durante o depoimento.

OPERAÇÃO

A decisão aponta que o grupo teria movimentado valores em escala bilionária. O esquema usava empresas, contas de terceiros e mecanismos de fragmentação de transferências para dar aparência de legalidade aos recursos.

Os elementos mais recentes indicam que a atuação do grupo seguiu ativa até pouco antes da operação. Dados do Coaf e diálogos extraídos da nuvem vinculada ao contador Rodrigo Morgado, também investigado, apontam movimentações ao longo do segundo semestre de 2025, inclusive em dezembro.

A investigação que embasa a operação desta semana é um desdobramento da Operação Narco Bet, deflagrada em outubro do ano passado, quando Morgado já havia sido preso sob suspeita de atuar na lavagem de dinheiro ligada ao tráfico internacional de drogas por meio de apostas online.

Investigações anteriores indicam que ele exerceria papel central na engrenagem financeira do esquema, atuando como intermediador na movimentação de recursos, inclusive com uso de contas de terceiros, empresas e criptoativos.