SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Mica Galvão, 22, multicampeão de jiu-jítsu, usou as redes sociais para se pronunciar sobre a prisão de seu pai, Melqui Galvão, 47, um dos treinadores de jiu-jítsu mais conhecidos do país, sob suspeita de crimes sexuais contra alunas menores de idade.

Em nota no Instagram, ele pediu que a Justiça cumpra seu papel, e repudiou a violência contra mulheres.

"É dificil encontrar palavras para um momento como esse. Meu pai, Melqui Galvão, foi quem me colocou no tatame pela primeira vez ainda criança. Foi ele quem me ensinou a lutar, a competir, a respeitar o adversário e a ter caráter", escreveu.

Apesar da mensagem de carinho e gratidão, ele pediu que os casos sejam investigados.

"Ao mesmo tempo, me sinto na obrigação de ser honesto: que os fatos sejam investigados com seriedade e que a Justiça cumpra seu papel. Como pessoa, repudio qualquer forma de assédio ou violência contra mulheres e crianças?esse é um valor que carrego e que não abre exceção", afirmou.

Mica explicou que não tem respostas agora e que está processando toda a situação como filho, atleta e ser humano.

"O que sei é que tenho responsabilidades com as pessoas que acreditam em mim, com a equipe que representa tanto para tantos atletas. E é para eles que dirijo minha energia agora. Sigo em frente, com o mesmo respeito e dedicação de sempre

ENTENDA O CASO

Melqui Galvão foi preso pela Polícia Civil do Amazonas na noite de segunda-feira (27), em Manaus, sob acusação estupro de vulnerável, importunação sexual, ameaça e invasão de dispositivo eletrônico.

A reportagem tenta localizar a defesa de Melqui Galvão desde a noite de terça-feira (28) por meio de mensagens e ligações para as escolas de jiu-jítsu mantidas por ele em Jundiaí (SP) e em Manaus, mas não obteve resposta até a publicação deste texto.

O pedido de prisão temporária, por 30 dias, foi expedido no último dia 23 pela 2ª Vara de Crimes praticados contra Crianças e Adolescentes de São Paulo após uma ex-aluna de 17 anos denunciar ter sido vítima de abusos durante uma viagem ao exterior para participar de uma competição.

Em nota à Folha de S.Paulo, a SSP-SP (Secretaria de Segurança Pública de São Paulo) informou que, durante a investigação da 8ª DDM (Delegacia de Defesa da Mulher), a polícia identificou outras duas vítimas. A pasta disse que os investigadores ouviram os pais das jovens e eles apresentaram uma gravação de áudio na qual o suspeito teria admitido o crime de forma indireta, bem como mensagens trocadas entre eles, "nas quais foram verificados indícios da prática criminosa".

"Diante dos fatos, a delegada solicitou a prisão temporária do suspeito, que foi deferida pela Justiça. Também foram deferidos mandados de busca e apreensão, cumpridos pela equipe da 8ª DDM. Na noite desta segunda-feira (27), o homem se entregou à Polícia Civil do Amazonas", informou a SSP, em nota.

Melqui Galvão também é servidor efetivo da Polícia Civil no Amazonas, no setor de capacitação da instituição, atuando como instrutor de defesa pessoal. A corporação afirma que o afastou e que a Corregedoria-Geral abriu um procedimento administrativo disciplinar para apuração das circunstâncias dos fatos.

"A PC-AM adotou o afastamento cautelar do servidor de suas funções, conforme previsão legal, até a conclusão das apurações, além de já ter iniciado apuração sobre a regularidade do vínculo funcional e eventuais incompatibilidades no exercício de atividades fora do estado", informou a Polícia Civil amazonense, em nota à reportagem.

A corporação reforçou que "não compactua com qualquer tipo de irregularidade ou desvio de conduta, reiterando seu compromisso com a legalidade, a ética e a transparência".

Natural de Manaus, Melquisedeque de Lima Galvão Ferreira começou a dar aulas de jiu-jítsu quando era investigador da Polícia Civil do Amazonas. Em 2011, foi destacado para ministrar aulas em um projeto social em Manaus. Com o tempo, abriu a própria academia e, nos anos seguintes, passou a treinar grandes nomes do esporte, como Thalison Soares, Fabricio Andrey, Brenda Larissa, Diogo Reis e os filhos Mica e Sammi Galvão.

Ele se tornou o único técnico da modalidade a treinar dois atletas que conquistaram o Grand Slam da Federação Internacional de Jiu-Jítsu, com Diogo Reis e o filho Mica, que também se tornou o atleta mais jovem (20 anos) a vencer a principal competição internacional do esporte.