SANTA MARTA, COLÔMBIA (FOLHAPRESS) - A conferência pelo abandono dos combustíveis fósseis em Santa Marta, na Colômbia, foi histórica e um sopro de esperança, mas ainda tem coisas a provar, dizem organizações ambientalistas e especialistas.

O encontro terminou na noite de quarta-feira (29), com o anúncio de uma segunda conferência, no próximo ano em Tuvalu ?co-presidida pela Irlanda? e com a determinação de frentes de trabalho.

O Greenpeace aponta que a conferência traz esperança e novo ímpeto.

Um dos pontos que torna histórico o evento foi a criação de um espaço em que tratar do tema de transição para longe dos combustíveis fósseis ?principal responsável pela crise do clima? não é tabu, como praticamente vem sendo tratado nas COPs, aponta o OC (Observatório do Clima), que reúne mais de uma centena de organizações socioambientais.

"Tivemos discussões de implementação da transição energética para longe dos combustíveis fósseis num nível que nunca antes conseguimos na COP [as conferências da ONU para mudanças climáticas], num grau de profundidade e diversidade bem intensa", disse Ricardo Fujii, especialista em conservação do WWF-Brasil que acompanhou o evento em Santa Marta.

Segundo tanto o OC quanto Mariana Paoli, líder de Políticas Globais e Advocacy na Oxfam International, outro destaque é que a conferência tratou o "como" e o "quando" ocorrerá a eliminação dos combustíveis fósseis, não "se" isso ocorreria.

O Observatório do Clima ainda apontou que a ciência foi recolocada como orientadora de políticas públicas ?com a criação do painel de cientistas SPGET (sigla em inglês para Painel Científico para a Transição Energética Global).

O Ciel (Centro de Direito Ambiental Internacional) diz, em nota, que a conferência "sinaliza uma mudança histórica de décadas de impasse e debate para uma ação coordenada rumo a uma eliminação gradual, gerenciada e equitativa de todos os combustíveis fósseis".

Em nota, o OC relembra as barreiras envolvidas na transição climática, como econômicas e fiscais, mas afirma que o encontro em Santa Marta mostrou ser possível fazer essa mudança com a ajuda mútua dos países.

"A coalizão de forças aqui formada precisa, agora, se mobilizar em múltiplos fóruns para, em uma ação coordenada, conseguir desmantelar essas barreiras, na Convenção do Clima da ONU e em outros processos multilaterais", diz Stela Herschmann, especialista em Política Climática do Observatório do Clima.

Para Laura Caicedo, coordenadora de campanhas do Greenpeace Colômbia, a boa vontade e o novo ímpeto são apenas o começo. "É necessário mais tempo para que este processo amadureça e se torne uma verdadeira plataforma de diálogo que possa orientar a tomada de decisões neste e em outros espaços de cooperação sobre questões energéticas cruciais", diz.

"A reunião de Santa Marta sem dúvida inspirará ações de forma mais ampla, especialmente para mobilizar mais países a agir e impulsionará as negociações climáticas da ONU", diz Nick Robins, diretor-sênior de finanças e setor privado da WRI (World Resources Institute):

Leo Roberts, diretor-associado de transição energética do E3G, think tank sobre mudanças climáticas, também enxerga esse impulso externo para avançar o tema. "De forma crucial, ficou claro por parte de ministros e diplomatas seniores que eles veem esse espaço como uma ponte essencial entre a complexidade e a especificidade de contexto de seus processos nacionais de planejamento doméstico e as próprias COPs".