SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Valdemir Oliveira dos Santos Júnior, 34, acusado de aplicar diversos golpes na região central de São Paulo, foi detido nesta quarta-feira (29), mas ficou menos de duas horas na delegacia. Isso porque, mesmo com dezenas de boletins de ocorrência abertos contra ele, ninguém apresentou representação para processá-lo.
Em seu depoimento à polícia, Valdemir disse ser alvo de calúnia. A reportagem tenta contato com ele desde o ano passado, mas foi bloqueada em todas as suas redes sociais. Ele também trocou de número ao menos duas vezes. Os advogados que o defendiam largaram seus casos.
Sua passagem pelo 78º DP (Jardins) teve início na praça Roosevelt, no bairro da Consolação. Por volta das 10h, o homem passeava com dois lulus da Pomerânia no local quando foi identificado por uma vítima, que acionou a Polícia Militar.
Valdemir tentou fugir, segundo o próprio relato policial, mas foi impedido por diversas pessoas que perceberam a cena e se aproximaram. Eram indivíduos que conheciam o suspeito por, afirmam, já terem sofrido golpes dele ou por conhecerem outras vítimas.
A história é conhecida na região, afirmam moradores, e as investidas de Valdemir não teriam parado nem após as denúncias contra ele serem relatadas em reportagem desta Folha de S.Paulo, em setembro de 2025.
Em dezembro, por exemplo, foi registrado um boletim de ocorrência. Conforme o relato no documento, ele teria procurado corretores para supostamente comprar um apartamento luxuoso nos arredores da avenida São Luís, um dos metros quadrados mais valorizados do centro de São Paulo.
O denunciado contou ter um irmão nos Estados Unidos, afirmou ser muito rico e disse morar no Copan. Nada disso era verdade. A única coisa real foi o prejuízo deixado ao convidar os vendedores do imóvel para um almoço e sair sem pagar: R$ 400, valor confirmado pelo gerente do estabelecimento.
Foi um dos corretores que identificou Valdemir na Roosevelt nesta quarta e acionou a polícia. Ele foi à delegacia acompanhado de outro homem, um dos que perceberam a situação e reconheceram o detido -no seu caso, por ter sido uma de suas vítimas, informa. Outra vez, o golpe teria ocorrido após um almoço, com prejuízo de R$ 500.
A reportagem também esteve no 78º DP. Quando chegou, o delegado responsável dava orientações às vítimas. Afirmou que o valor perdido era baixo e sugeriu uma tentativa de negociação para pagamento. Por fim, instruiu os lesados a seguirem para o 4º DP (Consolação) e lá pedirem a abertura de um processo contra o denunciado.
Segundo o agente, não havia nenhuma representação contra Valdemir, por isso, nada poderia ser feito. A representação após o boletim de ocorrência é a manifestação de vontade da vítima para que o autor de um crime seja processado, sendo essencial em ações penais condicionadas. Ela pode ser feita em até seis meses após a denúncia.
Em seu depoimento à polícia, o suposto golpista, além de dizer ser alvo de calúnia, afirmou ter pagado as contas. Os restaurantes negam e dizem que os golpes são recorrentes. O gerente de um deles, inclusive, conta ter compartilhado a foto do suspeito com seus funcionários a fim de impedir sua entrada no local.
A SSP (Secretaria da Segurança Pública) informou que a realização da prisão dependeria da existência de elementos concretos que caracterizassem a situação de flagrante, conforme a legislação vigente. Ressaltou, porém, que a conduta do delegado não condiz com as diretrizes da instituição e que a Corregedoria está à disposição para receber denúncias sobre eventuais irregularidades no atendimento.
Relembre o caso
Homens gays, garotos de programa, artistas e criadores de lulu da Pomerânia se uniram em meados do ano passado em torno de um mesmo objetivo: denunciar Valdemir Oliveira dos Santos Junior, que usava o nome de Junior Pacheco. O grupo afirma que ele aplicava golpes variados em São Paulo e já teria feito o mesmo no Rio de Janeiro.
Relatos de supostas vítimas apontam episódios de calote, falsidade ideológica, estelionato amoroso e extorsão. As ocorrências foram divulgadas em uma página, e algumas foram levadas à polícia.
Entre as acusações de maior repercussão estão as de criadores de cães da raça lulu da Pomerânia. Segundo eles, o homem se apresentava como comprador, levava filhotes e dizia que faria a transferência bancária depois.
Os últimos relacionamentos do suspeito também foram conturbados e, segundo relatos, seguiram o mesmo roteiro: começam com viagens, presentes e planos conjuntos e terminam em ações judiciais. Vários ex-parceiros o acusam de utilizar vínculos afetivos como meio de obter vantagens financeiras.
Em suas redes sociais, Valdemir apresenta uma vida luxuosa. Com mais de 90 mil seguidores no Instagram, publica viagens pelo mundo. Já em São Paulo, enfrenta um processo de despejo por inadimplência do aluguel e outro por dívidas com um escritório de advocacia.
Natural de Barreiras, município baiano a 772 km de Salvador, o suspeito de estelionatos se estabeleceu em São José dos Campos (SP), onde abriu um escritório de design de interiores.
Seu trabalho com decoração ganhou prêmios e apareceu em revistas como Casa Vogue e Casa Cláudia. Dizia ser associado à Associação Brasileira de Design de Interior e ter especialização pelo IED (Instituto Europeo di Design), em Milão, na Itália. A associação e o instituto não reconhecem as informações.
O então decorador teria deixado São José rumo a São Paulo após supostos golpes aplicados na região, principalmente envolvendo clientes e fornecedores, que abriram várias reclamações contra ele no Reclame Aqui. Ele também é acusado por lojistas de ter feito compras nunca pagas em shoppings da região. Em uma loja de calçados, o prejuízo informado à polícia foi de R$ 6.600.
Por lá, também é acusado de comer em restaurantes e sair antes de a conta chegar. Em um deles, segundo relato, deixou mais de R$ 2.000 em aberto, sozinho.