SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Sem estarem sujeitas à fiscalização por excesso de ruído, obras públicas realizadas durante a madrugada em São Paulo têm deixado moradores sem alternativas de reclamação. Na prática, resta apenas suportar o barulho que invade a noite e afeta a saúde e a rotina dos paulistanos.

Na madrugada de 11 de março, o professor Leonardo Sasaki, morador da Bela Vista, acordou por volta das 2h com um barulho alto vindo da rua. "Achei que era uma moto quebrada na frente de casa. Desci pronto para reclamar com o motoqueiro pela inconveniência", conta.

Ao chegar à esquina das ruas Acaraú e Avanhandava, encontrou uma operação de poda de árvore em andamento, com caminhão, guindaste e motosserras. "Tinha toda uma parafernália montada e vários vizinhos também estavam acordados, observando dos prédios", diz.

O professor tentou acionar as autoridades, mas não encontrou solução, ligou para a polícia e 156 (portal de atendimento da gestão municipal), onde informaram que, "por se tratar de obra da prefeitura, estava tudo bem". Ele diz que só conseguiu voltar a dormir por volta das 3h30, quando o barulho acabou.

Casos como o dele não são isolados. Na zona oeste, a moradora Mafê Verdiani, que mora na rua Wanderley, em Perdizes, relata uma rotina marcada por intervenções frequentes, inclusive durante a madrugada. "Vieram com britadeiras, caminhões e gritaria no meio da noite", conta.

Para ela, episódios como esse se tornaram mais comuns desde 2023, com obras de recapeamento feitas pela gestão Ricardo Nunes (MDB) na região.

Para a moradora, a falta de planejamento agrava o problema. "Faziam a obra com os carros estacionados e, semanas depois, tinham que refazer tudo", afirma. Ela diz que chegou a acionar o serviço 156 e a polícia diversas vezes, mas desistiu após não obter retorno. "Nunca tem resposta ou resultado", reclama.

Em São Paulo, as obras públicas não estão sujeitas às restrições de horário e limites de ruído previstos no decreto nº 60.851/2021. A Secretaria Municipal das Subprefeituras disse que a previsão vale também para obras públicas executadas por concessionárias privadas. Por atenderem às necessidades da população, diz a pasta, não estão sujeitas à fiscalização do PSIU, nos termos da legislação vigente.

Próximo à estação São Joaquim, na Liberdade, o cenário é ainda mais intenso. Urbanista e residente de uma vila na rua Taguá, Kali Carvalho, descreve uma transformação radical no ambiente onde vive há anos.

Segundo o relato, uma área verde nos fundos da vila foi destruída para dar lugar a uma obra ligada à futura linha 6-laranja do metrô. Desde então, o que antes era um espaço silencioso passou a ser tomado por ruídos constantes. "É muito, muito, muito barulho. A obra não parava, era de dia e de madrugada", afirma.

Mesmo após mobilização dos moradores, que conseguiram reduzir as atividades durante a madrugada, o impacto segue intenso. "O pior horário é de manhã, entre 6h30 e 9h30. Mas ainda tem descarga de material à noite, com estrondos, metal, britadeira", descreve. Em alguns momentos, o tampão de ouvido chegou a ser necessário.

Só nos últimos dias, os moradores dizem ter registrado reclamações à 0h10 do dia 28 de abril, 1h20 no dia 26, 1h30 no dia 25 e 2h30 no dia 23. Segundo o morador, a orientação que receberam é enviar reclamações para a Acciona e para Linha Uni, empresas responsáveis pela obra. "No nosso caso, o contato é um representante por WhatsApp, que diz que registra e vai verificar", afirma.

A consequência, segundo o relato, tem sido o adoecimento coletivo. "Todo mundo começou a ter dor de cabeça, dormir mal, ficar irritado. Tem gente indo embora."

Além do ruído, moradores apontam sensação constante de insegurança. Um prédio vizinho precisou ser evacuado após apresentar risco estrutural, e casas próximas mostram sinais de comprometimento.

"A gente acorda no meio da noite sem saber se é obra ou se aconteceu alguma coisa grave. Não tem informação, não tem protocolo, não tem segurança", diz. Kali também critica a falta de transparência. "É uma obra pública, mas a gente não tem acesso ao projeto, não consegue respostas claras. Tudo é terceirizado."

O Metrô afirmou em nota lamentar "os transtornos relatados por moradores do entorno da estação São Joaquim" e que vai acionar a construtora responsável.

A concessionária Linha Uni, por sua vez, disse não ter reclamações em aberto referentes às obras na estação São Joaquim. "Ressalta que mantém equipes de comunicação social mobilizadas 24 horas por dia, de forma a poder tratar junto à comunidade as demandas de cada localidade, inclusive temas relacionados a impactos sonoros, gerando ações mais assertivas junto aos lindeiros", afirmou.

Especialistas alertam que os efeitos do barulho vão muito além do incômodo. A fonoaudióloga Marília Zannon explica que a exposição prolongada a ruídos elevados pode causar danos permanentes à saúde.

"A exposição a sons intensos pode levar à perda auditiva irreversível e ao zumbido. E isso não acontece apenas em ambientes industriais, mas também em situações cotidianas, como trânsito intenso, obras ou uso frequente de fones de ouvido", afirma.

Segundo a especialista, quanto maior o volume, menor o tempo seguro.

Mas os impactos não se limitam à audição. A profissional de saúde aponta uma série de efeitos chamados extra-auditivos, comuns em contextos de exposição contínua ao ruído. Entre eles estão distúrbios do sono: dificuldade para adormecer e redução do sono profundo, tonturas, alterações de humor, falta de concentração, ansiedade, estresse e fadiga mental.

Também são relatados problemas digestivos, cardiovasculares, hormonais e neurológicos. "O barulho constante interfere diretamente na qualidade de vida. Afeta o descanso, a comunicação e o equilíbrio emocional", diz a fonoaudióloga.

Ela ressalta ainda que o problema não pode ser tratado apenas de forma individual. "Embora existam medidas como isolamento acústico e uso de abafadores, elas não resolvem a origem da questão", afirma.

Segundo a especialista, a poluição sonora é um problema coletivo e deve ser enfrentado como questão de saúde pública. Dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) indicam que o ruído é o segundo maior agente poluidor do mundo.

Para ela, a solução passa por políticas públicas e conscientização. "É necessário pressionar por leis que regulem os níveis de ruído nas cidades, inclusive em obras e ambientes urbanos, além de campanhas que alertem sobre os impactos do som na saúde", alerta.