SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - A onda de roubos e furtos de celulares e ataques das chamadas gangues quebra-vidros tem levado motoristas de São Paulo a adaptar hábitos e criar estratégias próprias de proteção. Diante da rapidez e da violência das ações, evitar a exposição do aparelho e manter atenção constante passaram a fazer parte da rotina de quem circula pela cidade.
Mesmo com ações policiais, motoristas afirmam que a prevenção ainda depende, em grande parte, de atitudes individuais. "Tiro o celular do painel em áreas que todo mundo sabe que são perigosas. No farol à noite, paro um pouco distante do carro da frente e fico sempre olhando no retrovisor", diz Rafael Godoy, morador da zona norte paulistana.
Gislaine Porta, que vive no Morumbi, afirma que passou por uma tentativa de roubo na avenida Professor Francisco Morato, na altura da ponte Eusébio Matoso, em 26 de março. "Eles se aproveitam do trânsito parado para levar os celulares. Meus vidros estavam fechados, mas ouvi um estrondo e achei que tinham batido no carro."
Ao olhar para o lado do passageiro, ela percebeu o vidro estilhaçado. Segundo ela, o carro tinha película antivandalismo, capaz de resistir a impactos significativos. "Para quebrar, tem que ser uma pancada muito forte. Eles usaram algum objeto pontiagudo."
Após o ataque, ela viu dois jovens correndo para abordar outros veículos.
A consultora afirma que instalou a película há cerca de um ano, depois de ouvir relatos de crimes na região. Ela critica a ausência de policiamento. "Não é comum ver viatura ali, mesmo sendo um ponto perigoso", diz. A experiência mudou sua rotina e seus planos. "Hoje, ando ainda mais atenta e já penso em investir em um carro blindado."
Situação semelhante foi vivida por Eduardo Silva, profissional de educação física, abordado próximo à estação da Luz, em setembro de 2025. "Jogaram uma pedra enorme no vidro para tentar pegar o celular, mas não conseguiram", afirma. Depois do episódio, ele também instalou película de proteção. "De resto, é contar com a sorte."
O custo dessas medidas varia. Películas mais simples podem custar cerca de R$ 500 para todas as janelas, enquanto versões mais resistentes chegam a valores entre R$ 1.200 e R$ 1.500.
Além da proteção física, motoristas têm adotado estratégias improvisadas para reduzir prejuízos. O empresário Gabriel Rolim, morador da zona norte, diz que evita expor o celular e até utiliza um aparelho antigo como isca quando precisa de GPS na moto. "Se roubarem, o prejuízo é menor. Já levaram o iPhone de um amigo meu que estava na garupa, indo para Congonhas."
No carro, ele também evita suportes visíveis. "Não uso suporte de celular e não mexo no aparelho no farol. O veículo fica sempre fechado e o celular tem película de privacidade", diz. "O medo é constante."
O diretor de arte João Gomes diz que já utilizou um carro de aplicativo em que o motorista circulava com todos os vidros abertos, como forma de evitar prejuízo com possíveis ataques. "Se você quisesse usar o celular, seria por sua conta."
Na região da alameda Barão de Limeira, em Campos Elíseos, na região central, por exemplo, um motorista foi visto utilizando uma barra de proteção instalada do lado de fora da janela do carro, uma tentativa de criar uma barreira física contra abordagens e evitar estilhaçamento.
Com a procura dos motoristas, surgem também soluções em lojas online. Além das películas antivandalismo, há uma variedade de produtos voltados a proteção: racks de celular antirroubo, suportes de celulares com proteção em todos os cantos da tela, dificultando a retirada rápida, e até barras de proteção para vidros laterais e traseiros.
O aumento da demanda também é percebido no comércio físico. Lojas de acessórios automotivos em São Paulo relatam uma procura crescente por esse tipo de proteção, especialmente pelas películas.
Marcelo Siqueira, dono de uma loja especializada, afirma que o crescimento tem sido expressivo. "A venda de películas antivandalismo vem aumentando significativamente, inclusive para veículos de serviço, táxis e motoristas de aplicativo. Segundo ele, a adesão hoje é quase total. "A cada 20 carros que atendemos na loja, 19 colocam película."
Além disso, surgem outras estratégias, como evitar determinados trajetos com maior incidência de crimes, especialmente à noite ou em horários de pico, e manter o aparelho fora de vista sempre que possível.
A Folha mostrou neste sábado (2) que o bairro de Pinheiros, na zona oeste, foi novamente o campeão de roubos e furtos de celulares na cidade nos três primeiros meses de 2026. Foram registradas 2.061 ocorrências desses crimes na delegacia local, o que representa uma média de 23 casos por dia. A alta é de 8% em relação ao mesmo período do ano passado.
Embora 25 distritos da cidade tenham registrado aumento de casos, como Pinheiros e Consolação --os dois primeiros do ranking--, o número total da cidade teve queda de 9% no trimestre.
A preocupação com os quebra-vidros resultou em uma operação da Polícia Militar na última semana. A ação, na quinta-feira (30), prendeu 38 suspeitos e mobilizou mais de 900 agentes em pontos estratégicos, com apoio de drones e viaturas, após a repercussão de diversos casos. A mobilização também visava o combate a dinâmicas de tráfico de drogas.
"A operação responde com escala e tecnologia ao que o crime organizado construiu ao longo do tempo, por isso estamos atuando de forma coordenada contra quem usa o espaço público para o tráfico e para o crime patrimonial. O objetivo é desestabilizar essas estruturas de forma duradoura, não apenas deslocá-las", afirmou, em nota, o secretário-executivo da segurança pública, coronel Henguel Ricardo Pereira.
A Polícia Militar orienta medidas preventivas para reduzir riscos. Entre elas, evitar deixar objetos visíveis dentro do carro, como mochilas, bolsas, relógios ou celulares; equipar o veículo com dispositivos de segurança, como alarmes e travas; e estacionar, sempre que possível, em locais movimentados e bem iluminados.
