SÃO CARLOS, SP (FOLHAPRESS) - O fluxo do Nilo durante a Antiguidade não ajudou a criar apenas a glória do antigo Egito, de acordo com uma nova pesquisa. Mudanças no curso do rio por volta de 4.000 anos atrás também teriam favorecido a consolidação do poderoso reino de Kush (às vezes chamado de Núbia), vizinho e rival dos egípcios ao sul.
A conclusão, apresentada em um artigo publicado no último dia 27 na revista PNAS, vem de escavações feitas no norte do atual Sudão por pesquisadores da Universidade de Michigan em Ann Arbor (Estados Unidos). Analisando os sedimentos deixados pela passagem do Nilo na área, a equipe liderada por Jan Peeters e Geoff Emberling conseguiu reconstruir as alterações que a estrutura fluvial sofreu desde o fim da Era do Gelo até hoje.
Eles estimam que, a partir dessa época, o Nilo passou a assumir uma altura bastante próxima das margens na região, o que facilitou a deposição de sedimentos numa faixa relativamente estreita durante a época das cheias e o surgimento de uma planície fértil, estimulando o aumento populacional nos territórios de Kush.
O reino de Kush (também grafado como "Cush" ou "Cuxe" em português), embora eclipsado em popularidade por causa das realizações grandiosas de seus vizinhos egípcios, foi uma das grandes potências africanas da Antiguidade, tanto pela própria capacidade agrícola e pastoril quanto por seu papel de conexão entre as regiões mais próximas do Mediterrâneo e o interior da África. O comércio de matérias-primas cobiçadas, como o marfim de elefantes e as peles de animais exóticos, passava pela região.
Esse potencial econômico chamou a atenção dos faraós, que invadiram o território núbio e estabeleceram guarnições na área. O processo também cimentou a influência cultural do Egito sobre os cuxitas, refletindo-se em elementos como o vestuário e o culto a deuses egípcios, entre eles o deus solar Amon.
No entanto, por volta do ano 1.000 a.C., com o enfraquecimento do poder central dos faraós, a nobreza de Kush se libertou do jugo egípcio e reorganizou o Estado núbio. A capital, localizada em Napata, perto de uma imponente colina de pedra nua antes ocupada por uma guarnição faraônica, logo se firmou como centro cerimonial ?além do templo de Amon, o local abrigava diversas pirâmides construídas à moda cuxita (menores e de paredes bem mais inclinadas que as egípcias).
O novo estudo recolheu amostras de sedimentos trazidos pelo Nilo justamente nas vizinhanças da antiga Napata (hoje a localidade sudanesa de Karima) e de sua colina de pedra, designada com o topônimo árabe de Jebel Barkal, que mede pouco mais de 100 metros de altura.
Usando uma série de técnicas de datação, aplicadas a 26 amostras, e também analisando fragmentos de cerâmica antiga da região, os pesquisadores concluíram, em primeiro lugar, que o trajeto do grande rio, até o Holoceno médio (período que termina por volta de 3.700 anos atrás), caracterizava-se por uma profunda incisão de seu vale. Isso significa que o Nilo corria numa posição bastante baixa em relação às suas margens, que formavam, portanto, altos barrancos na beira do curso fluvial.
No chamado Holoceno tardio, que começa após essa época, diversas modificações no clima e no ambiente da região, como a relativa diminuição das chuvas nas cabeceiras do Nilo e a perda de vegetação nas margens, alteraram a maneira como o rio fluía e transportava sedimentos.
Com isso, o nível do Nilo se aproximou do das planícies circundantes, criando condições mais favoráveis para que, na época das cheias, ele transbordasse e carregasse matéria orgânica para a beira do rio, fertilizando o solo.
A largura da faixa de terra que ficava sob a influência benéfica do rio costumava ser bem mais estreita do que no Egito, é verdade (cerca de 3 km, enquanto, em terras egípcias, ficava entre 10 km e 20 km). Apesar disso, surgiu uma relatividade estabilidade da ação do Nilo, que foi suficiente para garantir a produção agrícola e fortalecer as estruturas estatais de Kush, dependentes dela, no Holoceno tardio. Assim, tal como o historiador grego Heródoto afirmou por volta de 430 a.C. sobre o Egito, Kush também teria sido uma "dádiva do Nilo".
Para os autores do estudo, a mudança das condições hidrológicas e sedimentares do rio não é, claro, a única explicação para a ascensão dos cuxitas. Fatores sociais também foram importantes, como a união do culto a Amon, de origem egípcia, a práticas religiosas locais ?imagens da arte núbia representam, por exemplo, os deuses do Egito ao lado de figuras como o deus guerreiro nativo Apedemak, retratado com cabeça de leão.
Seja como for, depois de se livrar do controle egípcio, os cuxitas chegaram até a se aproveitar do enfraquecimento do vizinho, conquistando paulatinamente seu território e criando a chamada dinastia dos "faraós negros", que reinou até os anos 660 a.C.
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