RIBEIRÃO PRETO, SP (FOLHAPRESS) - Naquele primeiro ano, tudo era improvisado. Sem caixas de som, a narração foi feita com um megafone, a tropa de animais foi emprestada por um produtor rural, um peão de fazenda foi o vencedor da "gincana" e não havia arquibancadas fixas.

Mas foi assim, com um recinto lotado para as pessoas verem danças típicas, carros de boi e catira que surgiu a primeira Festa do Peão de Boiadeiro em Barretos (a 423 km de São Paulo), e ele estava lá, como integrante de um grupo de 32 jovens que fundaram o então clube e a primeira edição do evento.

Nascido em São José do Rio Preto em 1927, José Brandão Tupynambá, o Tupy, como era conhecido, tinha então 28 anos e acompanhou ano a ano a transformação pela qual Barretos passou e a dimensão que o evento ganhou, atraindo artistas internacionais e reunindo perto de um milhão de pessoas todos os anos. Foi a partir dela que surgiram os estimados 2.000 rodeios que acontecem anualmente no Brasil.

Organizada pela associação Os Independentes, que ele comandou ?e, consequentemente a festa? em 1963 e 1964, o evento deixou o acanhado recinto de dois alqueires no centro de Barretos e hoje ocorre numa fazenda de 80 alqueires, com cinco palcos, mais de cem shows e que neste ano terá investimento de R$ 25 milhões só em infraestrutura ?como uma nova ala de camarotes no estádio projetado por Oscar Niemeyer (1907-2012).

"Fico abismado com o tamanho que o evento alcançou. A gente não fazia ideia do que viria pela frente", disse ele em 2025 num encontro da associação, quando Barretos fez a sua 70ª edição da festa.

A ideia inicial do grupo, conforme ele, era homenagear a vida de trabalhadores rurais, sem ambição.

Mesmo com a saúde já debilitada em razão da idade, Tupy participou da festa até o ano passado e era uma figura marcante no Parque do Peão, recinto que abriga o evento desde a década de 1980.

No rancho Ponto de Pouso ?espaço destinado às tradições rurais como a catira, o berrante e música caipira, que desde sempre incentivou?, ele acompanhou do palco o show raiz da dupla Lourenço & Lourival em agosto do ano passado, e foi saudado pelo público.

O espaço serve anualmente a Queima do Alho, comida típica dos peões no estradão, composta por arroz carreteiro, feijão gordo, paçoca de carne e churrasco ?feita em fogões improvisados, próximos ao chão?, a exemplo do que ocorreu na primeira edição da festa e que busca reproduzir o dia a dia dos peões que conduziam boiadas rumo aos frigoríficos.

A música caipira era seu estilo preferido, mas ele dizia não se opor à modernidade que chegou à musica sertaneja. Em 2017, ele afirmou à Folha entender que a associação precisava atualizar o estilo musical predominante, o que foi feito. "Sertanejo universitário é muito forte, atrai muito público."

No ano passado, passou a dar nome a um espaço de eventos do parque e também recebeu o título de cidadão honorário de Barretos.

Tupy morreu neste domingo (3), em Barretos. Deixa os filhos Paula e Ricardo. O corpo será enterrado às 16h desta segunda-feira (4) no cemitério municipal da cidade.