SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Além do Caveirão em si, mais dois imóveis da rua do Carmo receberam tapumes e permanecerão isolados durante os sete meses de demolição do prédio inacabado do centro de São Paulo. O isolamento foi realizado após determinação do Conpresp (conselho municipal de patrimônio cultural), porque são casarões históricos com problemas de manutenção e parcialmente "colados" ao edifício.
Um relatório feito por perito contratado pela FBI Demolições, responsável pela derrubada, apontou que os casarões têm "altíssimo risco e precariedade", com conservação interna e externa péssima. Os problemas são atribuídos a puxadinhos e outras intervenções irregulares, assim como à falta de manutenção adequada, entre outros agravantes.
O Caveirão é um edifício-garagem inacabado, que começou a ser construído nos anos 1960, mas nunca foi entregue. Como o proprietário não cumpriu a sentença de 2024 para que fosse demolido, a Justiça demandou o procedimento à prefeitura, pela degradação da estrutura e risco para vizinhos.
"A eventual trepidação com a execução de uma demolição no local poderia comprometer ainda mais a frágil estabilidade das estruturas, elevando o risco de desmoronamento", destaca o documento a que a reportagem teve acesso. O relatório foi elaborado após vistoria a imóveis vizinhos do prédio em setembro e outubro de 2025.
O perito constatou a presença de fissuras e trincas nas paredes internas dos casarões. Nas fachadas, havia indícios de queda de reboco e de partes dos adornos.
O especialista indicou, então, a instalação de telas de proteção, "diante do perigo de queda de materiais, especialmente durante a demolição do edifício vizinho", assim como a estabilização emergencial das estruturas com escoramento no Caveirão. "São indispensáveis para assegurar a segurança de transeuntes e devem ser executadas com caráter prioritário", justificou.
Ao menos até o início da demolição, na quarta-feira (29), os dois imóveis não estavam com telas. Em nota, a gestão Ricardo Nunes (MDB) afirmou que a instalação de tapumes e a demolição manual (sem implosão) são medidas voltadas à preservação do patrimônio cultural da rua do Carmo.
Também respondeu que não foram identificadas autuações sobre a má conservação dos dois imóveis -diferentemente do Caveirão, que acumula R$ 2,4 milhões em multas. A previsão é que a demolição seja concluída até novembro.
Como a Folha de S. Paulo revelou, a proximidade com duas das igrejas mais antigas do centro impede que um novo edifício vertical seja construído no terreno. Nunes chegou a declarar a intenção de transformar a área em praça, conectando-a a espaço público vizinho.
SEPARAÇÃO DOS CASARÕES OCORRERÁ APENAS NO FIM DA DEMOLIÇÃO
O Conpresp aprovou a demolição do Caveirão desde que executado com cautela, a fim de "preservar as condições edilícias e conservação dos imóveis confrontantes". Determinou, ainda, a instalação do que "for necessário" para preservar os bens tombados, destacando os dois vizinhos imediatos.
Ambas as construções estão apoiadas diretamente na estrutura do edifício em demolição. Desse modo, a "separação" do Caveirão ocorrerá apenas quando todos os pavimentos superiores forem derrubados.
Os dois imóveis funcionavam em parte como cortiços -um deles também com atividades comerciais, enquanto o outro tinha um estacionamento informal nos fundos.
O imóvel do número 81 é tombado como patrimônio cultural desde 2007, em conjunto com outros do chamado centro velho. Já o outro, do número 107, está temporariamente tombado desde 2021, com estudo de reconhecimento em andamento, sem previsão de deliberação por ora.
PROPRIETÁRIO DIZ QUE CAVEIRÃO IMPACTOU CASARÕES
Claudio de Menezes Senna, um dos proprietários do casarão de número 81 afirmou à reportagem que o imóvel tem problemas na documentação, está em inventário e sob ação de reintegração de posse há anos. Portanto, ele não teria acesso ao sobrado.
Senna atribuiu parte dos problemas da construção ao Caveirão. "São frequentes as quedas sobre o telhado, de fragmentos da alvenaria do edifício vizinho", argumentou.
Ele disse que o imóvel foi adquirido por seus avós por volta de 1945. "E pagamos impostos desde então", afirmou. Mas, segundo ele, IPTUs estão pendentes pela disputa judicial envolvendo a propriedade.
Ambos os casarões estão inscritos na Dívida Ativa da prefeitura. Um está com débitos pendentes de R$ 557,6 mil, desde 2015, enquanto o outro, de R$ 193,8 mil, desde 2018.
COMO SÃO OS IMÓVEIS
Na abertura de estudo de tombamento do sobrado do número 107, destaca-se que o imóvel "compõe o conjunto de testemunhos das reminiscências e transformações do centro da cidade de São Paulo. "Guarda em si o registro físico da arquitetura paulistana nos primórdios do século 20", completa a resolução.
O imóvel tem dois pavimentos, o que inclui um "porão alto" -com janela para a rua, solução de higiene e ventilação adotada à época. É considerado eclético, por misturar diferentes estilos. Em sua fachada, há diversos ornamentos, como brasão e um "1912".
O casarão do número 81 tem dois andares. Não há tantos ornamentos quanto no vizinho, mas tem características típicas das construções das primeiras décadas do século 20, destacando-se pela varanda.
Ambas as construções estão entre as mais de 30 tombadas definitivamente ou provisoriamente no entorno do Caveirão. As mais importantes são as Igrejas da Ordem Terceira do Carmo e da Boa Morte, respectivamente de 1758 e 1810.
DEMOLIÇÃO É MANUAL, COM BRITADEIRAS E CORTADORA DE METAL A OXIGÊNIO
Os trabalhos são feitos basicamente com britadeiras e cortadores de metal a oxigênio. Os operários ficam suspensos no ar, ancorados por cintos de segurança.
O plano de demolição consiste em atividades andar por andar, ao longo dos 23 pavimentos. Com exceção da cobertura, que é incompleta, a ordem de derrubada será primeiramente das lajes, seguida das vigas, das paredes e, por fim, dos pilares.
Há a determinação judicial para que os R$ 6 milhões do contrato firmado pela gestão Nunes com uma demolidora sejam ressarcidos ao poder público. O proprietário do Caveirão, porém, deve R$ 3,5 milhões em IPTU, segundo o portal da Dívida Ativa.
O Caveirão pertence ao empresário e diretor de rádio Rivaldo Sant'Anna (o Ricco) desde 2014, segundo certificado de venda e compra. Procurado pela reportagem na quinta, não respondeu às mensagens. Na véspera, disse que a prefeitura teria dificultado iniciativas suas para recuperar o imóvel e negou problemas estruturais.
