RIO DE JANEIRO, RJ (FOLHAPRESS) - A decisão do STF (Supremo Tribunal Federal) que embasou a prisão do deputado estadual do Rio de Janeiro Thiago Rangel (Avante) aponta que o parlamentar ameaçou um crítico após uma publicação em rede social, mencionando o envio de uma "surpresa" e dizendo que "depois de 12 tiros no portão o recado está dado", segundo a Polícia Federal.

De acordo com a investigação, Rangel reagiu a uma postagem no Facebook com críticas à sua atuação, pediu o endereço do autor e afirmou que "vai dar jeito" nele. As mensagens interceptadas integram o conjunto de indícios que levaram à decisão do ministro Alexandre de Moraes.

A prisão do deputado ocorreu no âmbito da Operação Unha e Carne, a mesma que havia prendido o ex-presidente da Alerj (Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro) Rodrigo Bacellar (União) em dezembro e, depois, em março.

A defesa do deputado afirmou que ele nega a prática de quaisquer ilícitos e que prestará esclarecimentos no processo.

Segundo a investigação, as mensagens surgem após um homem publicar críticas à atuação de Rangel como vereador. Em um dos trechos, o deputado afirma que "vai dar jeito nele" e solicita informações sobre o endereço do autor da postagem.

Em seguida, menciona o envio de uma "surpresa" e afirma que "depois de 12 tiros no portão o recado está dado", em referência à possível intimidação.

Para a Polícia Federal, o conteúdo indica tentativa de ameaça a um crítico e reforça o padrão de atuação do grupo.

A decisão também descreve outras conversas em que aliados do deputado discutem ações contra adversários. Em um dos diálogos, há referência à possibilidade de dar um "bote", termo que, segundo a investigação, indicaria uma emboscada.

Outro trecho menciona a ideia de simular um ataque para forçar uma pessoa a deixar o emprego.

Para a PF, os diálogos revelam uma "face violenta" da organização investigada.

O documento aponta que Rangel atuava como líder do grupo, exercendo influência direta sobre nomeações e decisões administrativas.

Em uma mensagem, ele afirma: "o deputado sou eu, a indicação é minha e quem manda sou eu", ao tratar da atuação de uma diretora regional de educação.

Segundo a investigação, o parlamentar indicava aliados para cargos estratégicos com o objetivo de facilitar o direcionamento de contratos públicos.

FRAUDES EM CONTRATOS DE EDUCAÇÃO

A Polícia Federal afirma que o grupo atuava no direcionamento de obras e serviços em escolas estaduais para empresas previamente escolhidas. Após a contratação, parte dos valores pagos seria desviada e repassada aos integrantes da organização.

A investigação aponta ainda que a falta de transparência nos processos da Secretaria de Estado de Educação teria facilitado a atuação do grupo.

Em nota, a secretaria afirmou que está revisando todos os procedimentos relacionados a obras de manutenção e reparo nas unidades da rede estadual. A pasta informou que estabeleceu um teto de R$ 130 mil para intervenções classificadas como pequenos reparos e que valores acima desse limite passam a ser tratados como obras de maior porte, sob responsabilidade da Empresa de Obras Públicas (Emop-RJ).

A secretaria declarou ainda que segue colaborando com o Ministério Público, o Tribunal de Contas do Estado e outros órgãos de controle.

DINHEIRO VIVO E MENSAGENS COM MAÇOS DE NOTAS

Entre os indícios reunidos, estão diálogos sobre movimentação de dinheiro em espécie envolvendo Luiz Fernando Passos de Souza, apontado pela Polícia Federal como operador financeiro de Thiago Rangel.

Segundo a investigação, Passos atuava na gestão de recursos do grupo e na intermediação de repasses ligados ao esquema. A reportagem não identificou a defesa dele.

Em uma conversa, um interlocutor menciona "saque de 550 para sexta", em referência a valores a serem retirados. Dias depois, o deputado recebe uma imagem com maços de dinheiro acompanhada da mensagem: "Guardado...".

Para a PF, os elementos indicam a existência de um fluxo de recursos fora do sistema bancário tradicional.

A decisão descreve o uso de operadores financeiros e empresas registradas em nome de terceiros para movimentar os valores desviados.

Segundo a investigação, essas estruturas eram utilizadas para ocultar a origem dos recursos e viabilizar repasses ao deputado e a aliados.

CAIXA DOIS E FINANCIAMENTO DE CAMPANHAS

A decisão também aponta indícios de financiamento eleitoral irregular. Segundo a Polícia Federal, parte dos recursos, estimados em cerca de R$ 2,9 milhões, teria sido destinada a campanhas políticas de forma ilícita.

De acordo com a investigação, os valores teriam sido usados na campanha da vereadora Thamires Rangel (PMB), filha do deputado, eleita em 2024, além de outros candidatos ligados à sua base política.

Thamires atuou como subsecretária estadual de Ambiente e Sustentabilidade no governo Cláudio Castro (PL).

LIGAÇÃO COM GRUPO POLÍTICO

O documento também aponta a relação de Rangel com o grupo político do ex-presidente da Assembleia Legislativa do Rio, Rodrigo Bacellar (União Brasil). Para a Polícia Federal, haveria uma articulação para divisão de influência sobre contratos públicos, especialmente na área da educação.

Rangel e Bacellar nasceram em Campos dos Goytacazes, no interior fluminense, e são apontados como aliados políticos.

O caso ocorre em meio a mudanças recentes no governo do Rio. Cláudio Castro (PL) renunciou ao cargo de governador em março e foi substituído interinamente pelo desembargador Ricardo Couto, que promoveu exonerações em massa e determinou auditoria em contratos em pouco mais de um mês de gestão.

A Alerj informou que está à disposição das autoridades para colaborar com o esclarecimento dos fatos e reforçou seu compromisso com a transparência.

O QUE DIZ A DEFESA

A defesa de Rangel afirmou ter sido surpreendida com a operação e disse que ainda está tomando conhecimento do conteúdo da investigação. Em nota, declarou que Rangel nega a prática de quaisquer ilícitos e que prestará esclarecimentos no processo.

Os advogados também afirmam que a trajetória pública do parlamentar "sempre foi pautada pela ética" e que a relação com o ex-presidente da Alerj se deu em caráter "estritamente institucional". A defesa sustenta ainda que qualquer conclusão antecipada é indevida antes do acesso integral aos elementos que fundamentaram a decisão.